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Estado de Minas NUTRIÇÃO

Comer é divertido

Em uma sociedade em que o junkie food reina absoluto, manter a boa alimentação dos filhos tornou-se um problema para os pais. Mas, com um pouquinho de criatividade e insistência, é possível incluí-los em uma dieta saudável


postado em 02/06/2013 08:00 / atualizado em 25/05/2013 15:39

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Nos primeiros meses de vida, não há necessidade de se preocupar com a qualidade da alimentação de um bebê. Afinal, nada é mais completo que o leite materno. Mas, aos poucos, a maçã raspada começa a fazer parte do cardápio, os dentes aparecem e ele pode mastigar carnes, legumes, feijão. As palavras surgem e as demandas sobre o que vai querer no jantar também. A partir daí, o momento de alimentar o pequeno, antes expressão maior da intimidade entre mãe e filho, passa não só a ser dividida com o pai, mas também a sofrer intervenções da própria criança. Para muitas famílias, a felicidade ganha contornos de tormento. Sem querer dizer não — afinal, um refrigerante com sanduíche não vai fazer mal, aquelas balinhas depois do almoço também não —, alimentos nada saudáveis começam a permear as refeições.

Verduras e legumes se tornam vilões e, sem perceber, os pais não sabem mais como fazer com que a prole coma o que, de fato, vai fazer bem a ela. "Criança pode comer de tudo, mas no momento certo. Mesmo um refrigerante pode ser tomado, mas isso não pode se tornar um hábito. No dia a dia, o controle deve ser rigoroso." Quem afirma é alguém que conhece o assunto, em dois sentidos: além de ser nutricionista infantil, Erika Berbert é mãe de quatro crianças e sabe bem as dificuldades que existem em tornar o saudável algo rotineiro no prato dos pequenos.

Contudo, esse rigor não pode se tornar obrigação. Comer está entre os atos mais divertidos e fazer com que, desde pequeno, os filhos entendam isso os ajuda a conhecer a necessidade de sabores além daqueles lotados de açúcar e gordura. Fundador e diretor do site Funky Lunch, criado para dar uma nova experiência em alimentação para as crianças, Mark Northeast afirma que brincar com o alimento é uma das formas mais simples de tentar vencer o excesso de aditivos que a indústria usa para transformar o sabor do que não é saudável.

"A tecnologia dos alimentos tem ido tão longe que mais e mais deles têm aditivos extras e aromas incluídos. Isso tira o sabor natural e as crianças crescem sem saber quais são os ingredientes reais que produzem o que elas comem." Assim, explica, o gosto natural não consegue causar mais impacto, e isso as afasta do que não é industrializado. Ao fazer desse momento uma brincadeira, os pais criam bons hábitos de uma forma leve. Mark, claro, sabe das dificuldades que a rotina impõe, o que limita o tempo disponível. Essa limitação, em muitos casos, é usada para justificar o consumo de fast-food.

"Há muitos pais que ainda escolhem a conveniência quando se trata da alimentação. Estamos todos cada vez mais agitados e isso torna muito fácil oferecer uma refeição simples, que pode não ser tão atraente para a criança, mas serve ao propósito de alimentar rapidamente", diz Mark Northeast. Ele mesmo, que é pai, assume que, muitas vezes, teve que recorrer ao fast-food por pressa. "Mas as refeições em família devem ser um evento agradável e não apenas uma rotina. Incentivar as crianças a escolher o menu e os ingredientes, envolvê-las com o cozimento tornam as refeições uma atividade divertida, que pode ser falada depois."

Mas o que faz do ato de comer um passatempo? Cada família tenta encontrar a sua fórmula. A servidora pública Lalisa Froeder, 35 anos, tem no jogo para smartphones Angry Birds uma das inspirações para fazer com que dois dos seus três filhos (o mais novo ainda mama) se interessem pelo que é servido à mesa. Além disso, forminhas que deixam ovos e hambúrgueres feitos em casa com cara de bonecos e a participação deles na cozinha são essenciais para fazer com que as crianças comam alimentos mais saudáveis. "A correria do dia a dia torna difícil integrar a meninada à cozinha, mas, quando estamos juntos nos fins de semana, procuramos fazer isso. Assamos biscoitos juntos e eles já fizeram cursinhos de culinária. O importante também é dar o exemplo, comendo os alimentos para mostrar a eles que também gostamos", ensina.

Ela acredita que hoje a preocupação com o que as crianças comem é bem maior e que, às vezes, é tachada de caxias por seus pais quando tenta evitar excessos. "Eles dizem, por exemplo, que é melhor comer batata frita do que nada. Só que não penso assim. Mas não sou radical. Tento investir no que é benéfico, principalmente durante a semana." A despeito do esforço criativo, Lalisa ainda sofre para encontrar produtos com baixo teor de açúcar e sódio direcionados à infância. Quando viveu na Inglaterra, lembra, tudo para essa faixa etária continha rigoroso controle dessas substâncias. "A situação vem mudando, mas ainda é complicado achar."

O importante é recorrer ao que, normalmente, faria as crianças revirarem os olhos. Aliás, são eles os primeiros artifícios a serem colocados na comida para que ela fique mais recreativa, garante Mark Northeast. "Fiz algumas pesquisas no Facebook e as imagens que atraíram mais respostas foram aquelas que olhavam de volta para você. As crianças adoram coisas simples. Então, um rosto simples feito de comida vai mantê-las impressionadas à mesa." A diversão, contudo, não deve desviar jamais o foco da saúde.

Receitas divertidas
Comer é bom. E as crianças sabem disso. O importante, de acordo com os entrevistados, é fazer com que elas perceba que aquilo não é apenas uma obrigação para manter o corpo em pé. "As crianças vão comer a maioria das coisas se tiverem o interesse despertado. Dê a elas alguns ingredientes e leve-as para descascar, cortar (com segurança) formas para o jantar. Uma criança tem muito mais chance de provar novos ingredientes quando elas ajudam a fazer o prato", garante Mark Northeast, do site Funky Lunch. Abaixo e na página 11, duas receitas apresentadas por ele que podem ajudar a fazer o seu filho comer de forma mais saudável e divertida.

(foto: Mark Northeast/Divulgação)
(foto: Mark Northeast/Divulgação)

Ingredientes
1 punhado de morangos
1 banana
1 dedo de suco de maçã
Suco de limão à vontade

Para decorar
uvas vermelhas
canudos preto articulados
1 morango

Modo de fazer
Coloque os morangos, a banana, o suco de maçã e o suco de limão em um liquidificador e bata até ficar homogêneo. Se estiver muito grosso, adicione um pouco mais de suco de maçã. Despeje em um copo alto e magro.

Para criar os lábios, pegue morango, retire o talo e faça um pequeno corte em forma de "V" na parte superior. Arredonde a parte inferior do morango para terminar o formato dos lábios e, em seguida, corte um outro "V" na parte da frente do morango para fazer a boca aberta. Corte uma pequena fenda curvada na parte inferior do morango e encaixe-o na borda do copo.

Estenda e dobre dois canudos pretos e, em seguida, corte-os para que fique um centímetro acima da borda. Pegue duas uvas, sem talos, e faça um corte de cerca de um centímetro nas extremidades. Atravesse as uvas pelo canudo e você terá um par de olhos.

Caso haja sobra na parte de baixo dos canudos, corte as outras extremidade de modo que, quando colocados no copo, os olhos de uva encaixem-se na parte superior dos lábios de morango.

(foto: Mark Northeast/Divulgação)
(foto: Mark Northeast/Divulgação)

Ingredientes
1 cebola roxa pequena picadinha
2 fatias de pão integral sem borda
250g de carne moída
1/2 colher de chá de folhas de tomilho
Óleo de girassol
6 minipães de hambúrguer

Para decorar
Pimentão vermelho
Pepino ou azeitonas
Fatias de queijo cheddar

Modo de fazer
Refogue a cebola em uma colher de sopa de óleo por 5 minutos até que fique macia. Rasgue o pão integral em pedaços pequenos e coloque-lo em um processador de alimentos com a mistura de cebola.

Misture a carne moída, o tomilho e a mistura de cebola com o pão integral em uma tigela e, em seguida, divida o conteúdo em seis partes iguais. Enrole cada porção numa bola e depois achate em forma de hambúrguer.

Frite os hambúrgueres suavemente, em fogo médio, por cerca de 4 a 5 minutos de cada lado até que estejam cozidos. Alternadamente, cozinhe-os sob uma grelha pré-aquecida.

Enquanto os hambúrgueres cozinham, prepare a decoração cortando dois triângulos de pimentão vermelho para os chifres e dois círculos de pepino ou de azeitonas para os olhos. Empurre os chifres e os olhos na metade superior do pão de hambúrguer.

Para fazer os dentes, corte uma fatia de queijo em um grande círculo e, em seguida, em torno da borda, corte em ziguezague.

Quando os hambúrgueres estiverem prontos, coloque-os sobre a base de pão e coloque a fatia de queijo em cima, fora do centro, de modo que os dentes fiquem pendurados na borda do hambúrguer. O calor do hambúrguer vai derretê-los e você pode puxá-los.

Finalize com uma linha de ketchup imitando sangue escorrendo da boca.

A importância de experimentar tudo

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
A nutricionista Erika Berbert explica que há como definir, de forma bem simples, uma grade alimentar para a infância: duas porções de leite por dia — seja um copo de leite e um de iogurte ou dois copos de leite —; arroz e feijão pelo menos uma vez ao dia; no mínimo três frutas diárias; um prato de sobremesa de salada mista e um tipo de carne — vermelha, peixe ou frango. "Se ela fizer pelo menos uma vez ao dia uma refeição completa, com arroz, feijão, carne e salada, já vai garantir uma grande parte dos bons hábitos de que precisa." A especialista defende que, muito mais que entretenimento, os pequenos precisam conhecer o que ingerem. E o esforço dos pais se faz ainda mais urgente nesse aspecto.

"O que faço é estimular as crianças a terem interesse por frutas e verduras. Fazemos compras no supermercado juntos e eles me ajudam a escolher o que vai para o carrinho, aprendendo a escolher quais estão maduros. Faço isso para integrá-los a esse momento", conta Erika Berbert. Essa integração ajuda com que elas percam o sentimento de repulsa pelo que desconhecem. Ou seja, nada de dizer "eca". Principalmente quando estão na sala da professora de gastronomia Marcela Ferro. Ela dá aulas em uma escola de Brasília que oferece a disciplina para crianças e jovens. E garante: quando se veem rodeadas dos colegas, elas deixam de ser dengosas e experimentam de tudo.

"Conhecer novos sabores é um dos combinados que tenho com meus alunos. Eles criam uma ligação entre si e vão provando sempre que o outro fala que está gostoso. Desde a primeira aula, reforçamos com eles as ideias de aprender a ter outra visão sobre os alimentos, respeitá-los e não desperdiçá-los." Respeitando a comida, garante Marcela, as possibilidades do cardápio aumentam, bem como a sociabilidade. "O que fazemos aqui é aprovado pelos pais antes. Há crianças que não podem comer determinados alimentos, mas participam das aulas porque esse é um momento em que elas se integram mais." Para a professora, é dessa forma que os pais devem encarar a cozinha em casa: um espaço que permita que todos possam interagir. E, dessa forma, a comida se torna também uma fonte de aprendizado.

"O segredo é integrar a criança: entregar um ralador, uma faca sem ponta, uma tábua colorida, sempre incluindo em uma tarefa. Não precisa fazer tudo. Esse é o segredo. A criança tem que ter um lugar dentro da cozinha, senão ela se torna um lugar perigoso. É muito menos difícil do que parece", completa. Marcela conta que muitos pais chegam preocupados com o excesso ou a falta de peso dos filhos, reclamando da dificuldade de fazer com que eles provem certos alimentos em casa. "Eles se surpreendem quando digo que, aqui, eles provam."

Na ânsia de conseguir que os filhos comam de forma mais saudável, muitos pais ficam assustados com qualquer alteração no peso deles. A nutricionista Erika Berbert garante que esse referencial é um aspecto supervalorizado. Exceto em casos extremos, a faixa de quilos que uma criança deve ter é, de certa forma, elástica e nem sempre isso reflete algum problema de saúde. "As mães sempre se preocupam com o peso dos filhos, mal sabendo que não existe um específico para cada idade. Há uma faixa: todas as curvas de referência, seja de peso, seja de altura, não são estanques. Uma criança que brinca, corre e adoece pouco tem indicativos de que é saudável." O cuidado com os quilos a mais ou a menos deve vir, segundo ela, para evitar que a criança sofra preconceitos. E, para isso, alerta, saber o que comer é indispensável.

"Quando a gente começa a comer legumes e verduras, provavelmente não gosta, mas o hábito torna aquele alimento gostoso. Se a criança é acostumada desde pequena a comer dessa forma, vai se tornar parte da vida dela. Ainda que, na adolescência, ela entre em uma fase junkie food, o histórico alimentar não será perdido." O esforço pode render, até mesmo, a descoberta de um talento nos pais. Foi assim com Smita Srivastava. Designer gráfica de formação, ela se tornou "artista de alimentos" quando percebeu que a filha não torcia o nariz para as refeições quando elas vinham em formatos diferentes.

"Ela adorou o novo visual e logo era um divertimento. Para mim, a melhor parte é que ela tem desenvolvido um gosto para todas as frutas e legumes", conta Smita. Ela criou, então, o blog Little Food Junction, no qual compartilha suas criações. "As crianças querem comer algo gostoso e que se relaciona com a sua imaginação. Às vezes, elas podem ser difíceis, mas só precisamos envolvê-las na criação de alimentos divertidos. Eu sei que é complicado, mas um pouco de esforço e de amor certamente ganha tudo."

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