Publicidade

Estado de Minas CULTURA

Canal aberto para a literatura

O fenômeno dos vlogs literários (blogs sobre literatura em formato de vídeo) tem representantes candangos de peso. Conheça alguns deles


postado em 16/06/2013 08:00 / atualizado em 15/06/2013 17:04

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)

"Eu perdi a parada do meu ônibus por causa dele", "im-per-dí-vel", "eu fiquei com tanta raiva dele, mas tanta raiva", "sensacional", "detestei", "aquela tensão, aquela tensão e, no fim, quando você espera alguma coisa...", "songa-monga" e "eu chorei muito" são críticas de Isabella Vichi, 33 anos, engenheira, a alguns livros e personagens. Tudo isso foi dito, com caras, bocas e muita emoção, em seu canal no YouTube — o LidoLendo —, que conta com quase 5 mil seguidores, sempre ansiosos por atualizações.

Para a brasiliense, os vídeos proporcionam uma dinâmica que os blogs não têm. "Dá pra deixar passando e ficar só ouvindo, enquanto faz outra coisa. Às vezes, eu mesma dou play e vou varrer a casa, enquanto ouço", diz. Alguns dos posts da vlogueira já foram visualizados mais de 10 mil vezes. "Eu não acho que seja muito", afirma Isabella, sem falsa modéstia. "As pessoas que me inspiraram, as precursoras disso tudo, têm muito mais, mas eu estou muito satisfeita. Minhas pretensões não são grandes."

A popularidade dos vídeos (e dos sites que os hospedam) está fazendo surgir uma nova forma de comunicação entre internautas. Blogs sem o recurso estão em franca desvantagem. No ano passado, a quantidade de vídeos assistidos diariamente no YouTube aumentou em 25%, atingindo 4 bilhões de visualizações por dia. É possível rir, chorar e aprender muita coisa com eles. Jovens apaixonados por literatura, como Isabella, viram a possibilidade de divulgar e trocar opiniões por meio deles.

Em Brasília, além de Isabella, há vlogueiros literários campeões de audiência, como Verônica Valadares, 21, estudante de letras, e Murilo Videl, 26, farmacêutico. Ela costumava escrever em um blog convencional sobre cinema, mas refletiu: "Se eu quero incentivar pessoas que não leem a ler, não vai ser fazendo elas lerem mais ainda: vou fazer vídeos". Já Murilo quis arriscar em um terreno, até então, incipiente. "Na época em que criei o canal, só devia existir uns 10 similares", garante.

Verônica tem um estilo bem definido. Gosta de clássicos, ou, como ela prefere chamar, "livros antigos". "Eu gosto muito de cultura popular e percebi que ela vem dessas obras chamadas clássicas. Outro dia, fui assistir aos extras de Batman begins e tinha uma entrevista com o diretor, Christopher Nolan. Ele dizia que tinha se inspirado muito em O conto de duas cidades. Se os fãs de quadrinhos e do Batman soubessem disso, talvez estivessem lendo Charles Dickens alucinadamente", exemplifica. Ela ainda cita o filme O Rei Leão, inspirado — muitos não sabem — em Hamlet, de Shakespeare. Verônica já fez cerca de 40 vídeos e tem mais de 4 mil seguidores. Murilo soma mais 2 mil fãs com o seu canal Ratos Letrados.

Eventualmente, nossos vlogueiros acabam comentando os mesmos livros, caso de Jogos vorazes, que mereceu críticas de Isabella e Murilo. Eclético, o farmacêutico aprecia desde literatura de fantasia a volumes sobre ciência. O vlog de Verônica também é abrangente, incluindo resenhas de obras infanto-juvenis e outras de orientação adulta, como os romances de Bukowski. Isabella conta que não gosta de ler sinopses: "Eu escolho pelo autor, pela capa, pelo nome e aceito recomendações. Sou sortuda, porque poucas vezes me decepcionei, mas acontece".

Espertas, as editoras de livros ficam de olho nos comentários da blogosfera para incrementar a estratégia de divulgação de alguns títulos. Com os vlogs, não é diferente. Tatiany Leite, analista de comunicação da Editora LeYa, é responsável por estudar blogueiros e vlogueiros e seus públicos. Dessa forma, ela identifica quais publicações servem para cada um deles: "É ótimo porque a comunicação com eles é muito mais fácil e a audiência deles, muitas vezes, é exatamente um público-alvo que não é atingido por meio da imprensa", ela explica. A editora faz parcerias, que são renovadas semestralmente, com 110 blogueiros e vlogueiros.

Isabella, Verônica e Murilo preferem não ter parcerias. Gostam da liberdade de escolher exatamente o que ler e no tempo que puderem. Murilo estipula a meta de 100 páginas por dia. "O que vier a mais é lucro", diz. Mas não gosta de se sentir na obrigação de ler algo que pode nem interessar. Os vlogueiros querem evitar a pressão e o constrangimento, caso o livro oferecido não os agrade. Às vezes, escritores independentes mandam suas obras e ficam na expectativa. "É complicado, porque a pessoa pode não aceitar bem a crítica", explica Verônica.

Em carne, osso e papel
A iniciativa desses jovens é interessante por incentivar a leitura de alguma forma, mas é também importante para o aprendizado pessoal. O servidor público Danilo Leonardi, 26 anos, é um dos precursores dos vlogs de literatura no Brasil. O paulista montou o Cabine Literária como uma forma de se "obrigar" a ler. Hoje, é seguido por mais 12 mil internautas, além de manter uma parceria com diversas editoras. "Eu sempre gostei muito de ler, mas, em 2010, olhei pra minha estante cheia e percebi que já fazia um ano que tinha lido o último livro. Vi que a galera dos anos 1980 e 1990 estava mais ligada ao YouTube do que a blogs, então resolvi fazer o meu", justifica.

Para Isabella Vichi, ter um vlog a tornou mais seletiva. "Eu sempre fiz anotações nos livros, mas, atualmente, eu leio mais atentamente. Já vou pensando no que vou dizer depois", conta. Já Verônica aprendeu a aceitar melhor as críticas, inclusive as não construtivas — a chamada trollagem. "A primeira mensagem dessas que recebi foi bem desestimulante, mas, aí, eu comecei a ver o tanto de gente com bons vídeos que também as recebe", pondera.

O canal no YouTube foi também uma forma de Murilo Videl compartilhar informações com pessoas de gosto semelhante. Verônica e Isabella estão entre elas. Vlogueiros de várias cidades discutem em fórum no Facebook e fazem até um amigo-oculto de livros no Natal. Isabella já fez amizades virtuais em Portugal. No início, ela estranhava o carinho das pessoas, que diziam ser fãs — houve até um pedido de casamento. Às vezes, é reconhecida na rua. "Eu respondo a todos com bom humor. Já passei um domingo inteiro respondendo a mensagens no canal", confessa.

Murilo ainda não se acostumou com a popularidade. "É muita expectativa em cima da gente. Eu não sou exatamente o que aparece no vídeo", assume. Verônica passou por uma situação estranha: "Eu sou um pouco paranoica e, uma vez, pediram uma foto minha a um outro vlogueiro", conta. Ela também morre de vergonha quando é reconhecida, o que já aconteceu até no estágio.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade