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Beleza para exportar

Modelos brasilienses partem rumo à Ásia, um dos maiores mercados para a carreira no exterior. Conseguir sucesso, no entanto, requer extrema disciplina e foco

Flávia Duarte
postado em 23/06/2013 08:00

Modelos brasilienses partem rumo à Ásia, um dos maiores mercados para a carreira no exterior. Conseguir sucesso, no entanto, requer extrema disciplina e focoO objetivo é investir na carreira profissional, ter experiência internacional e, com sorte, juntar alguma grana. Os outros ganhos são secundários, mas não menos preciosos. Jovens como são, não deixam de apreciar a ideia de morar longe do país, curtir a vida de forma mais independente, inclusive financeiramente, fazer amigos e aprender outras línguas. Vivências que muitos deles jamais poderiam ter, seja pela pouca idade ou simplesmente porque as finanças da família não permitiriam. São belos meninos e meninas que mal completaram a maioridade ; alguns ainda nem a atingiram ; que sonham em ser modelos no exterior. Eles saem de todos os cantos do Brasil. De Brasília também. Cheios de expectativas, rumam para destinos exóticos, promissores e distantes.

"A Ásia é hoje um importante mercado para os modelos iniciantes por dois motivos: primeiro, porque é um bom lugar para produzir material para o book; segundo, porque existe uma quantidade enorme de trabalho e dá para ganhar dinheiro", garante Nivaldo Oliveira, diretor da agência Mega Model Brasília-Goiânia. Apostando nessa promessa, alguns jovens da capital se aventuram nessa empreitada de exibir o rosto e o corpo em terras distantes e sair do anominato do mundo fashion. Pelo menos duas dezenas de brasilienses estão por lá, tentando a sorte.

O destino ficou ainda mais badalado com o estremecimento da economia europeia. As agências da Europa estão dispensando os modelos brasileiros. "Elas não querem mais arriscar a pagar mais caro por um produto igual ao da Europa. Por exemplo, uma passagem do Brasil para lá custa em torno de 1,5 mil e 1,8 mil dólares. Enquanto isso, um polonês ou polonesa vai de trem para Milão por menos de 200 euros. Quem você acha que a agência vai preferir? Sem contar que a maioria desses brasileiros não fala inglês, então;", avalia Ming Liao Tao, diretor da Ming Management, uma agência de modelos de São Paulo especializada em exportar modelos daqui para o exterior.

Modelos brasilienses partem rumo à Ásia, um dos maiores mercados para a carreira no exterior. Conseguir sucesso, no entanto, requer extrema disciplina e foco
Assim, ficou mais interessante e vantajoso para os new face (modelos iniciantes) dar o primeiro passo na carreira em destinos como Guangzhou, Xangai, Hong Kong, Cingapura, Filipinas, Pequim (Beijing), Taipei. Por lá, há inúmeras marcas locais, além das grandes grifes, que promovem desfiles, produzem comerciais, look books e campanhas por aquelas bandas. Com muita ralação, esses meninos conseguem reunir material suficiente para mostrarem o talento e disputarem um lugar nas passarelas europeias ou nos maiores eventos de moda do Brasil. "Todas as nossas grandes tops começaram pela Ásia", afirma Ming.

Reforçar a própria imagem é o objetivo do jovem Tiago Pinheiro, 19 anos. Ele desfila e é fotografado desde os 15 anos. Com um 1,90m, olhos claros e pele muito alva, é o protótipo do fashion. Já morou em Londres e em Nova York. Também trabalhou em Hong Kong em 2011. De volta ao Brasil, quis deslanchar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Não deu certo. "Fui desfilar no São Paulo Fashion Week e acharam que estava muito magro. Não consegui quase nada", lamenta.

Se o biotipo longilíneo de Tiago não combina com o padrão de beleza brasileiro, que prefere corpos sarados, na Ásia ele é bem requisitado. Fez catálogos, desfiles e inúmeros look books. Amanhã, segue em direção à China outra vez. Quer tentar mais, de novo, rechear o portfólio e ter vasto material para apresentar quando voltar. "O mercado asiático é mais rigoroso. Lá, a gente trabalha de oito a 12 horas por dia. O bom é que eles pagam por hora, dá para fazer dinheiro", diz o bonitão, que pretende ficar em Xangai por três meses.

A vida do outro lado do mundo, porém, não é feita só flashes e curtição. Vanessa Lippelt, manager internacional e diretora da agência Glam Model, de Brasília, é uma das profissionais responsáveis por fazer o contato entre as agências do exterior e modelos brasileiros. Ela monitora os trabalhos e também o comportamento dos iniciantes que saem da casa dos pais para morar em um apartamento dividido com modelos de todo o mundo, muitas vezes sem conhecer a língua local e com a missão de fazer render o dinheiro para se manterem. "A Ásia é uma escola. Para eles, tempo é dinheiro, então quem quer ir para lá terá que trabalhar muito", avisa. "Eles exigem muita disciplina e há um número enorme de castings por dia. O modelo precisa se organizar para cumprir todos os compromissos, posar rápido, ter responsabilidade e amadurecer como ser humano."

A agência do Brasil faz contato com a agência internacional, que vai financiar o modelo lá fora. A agência banca a passagem; a moradia, em geral um apartamento que o jovem divide com outros, vindos de vários cantos do mundo; paga o transporte para chegar aos locais de trabalho, e dão um pocket money, uma espécie de semanada, que não passa de 100 dólares para a alimentação. São três meses de contrato em cada país e, no fim de pouco mais de um ano, é feita a matemática. Desconta-se o que ele ganhou do investimento inicial feito pela agência. Se o modelo não trabalhou o suficiente, a conta fica zerada. A empresa arca com o custo e a pessoa volta.

A rotina de modelo em solo asiático exige adaptação para esses profissionais, muitas vezes imaturos e inexperientes. É preciso saber regrar os convites para baladas e até recusar as drogas. Para modelo, festa é sempre de graça e tem evento de sobra. Formalmente, eles são orientados a evitar as noitadas e quem compromete o trabalho por causa da farra é mal visto no meio. Nivaldo Oliveira, da agência Mega Model, conta que as agências podem mandar de volta para casa os jovens têm comportamento inadequado. O risco é o de a carreira, que nem bem começou, parar por aí.

O emocional também fica fragilizado. A estudante de relações internacionais Sharon Emilly, 19 anos, sabe quanto pesa a saudade de casa, a pressão de lidar com a concorrência e até com a rejeição. Aos 16 anos, a brasiliense largou o conforto da casa do pais e foi correr atrás do sonho de ser uma badalada modelo conhecida internacionalmente. Deveria ficar na China por quase um ano. Nos três primeiros meses, foi uma curtição. Estar longe da vigilância de adultos, conhecer o mundo e pessoas tão diferentes. Era tudo novidade.

Modelos brasilienses partem rumo à Ásia, um dos maiores mercados para a carreira no exterior. Conseguir sucesso, no entanto, requer extrema disciplina e foco
A língua era um obstáculo a superar. Sharon falava pouco o inglês. Com o passar do tempo, não gostou tanto assim. Sentia-se sozinha. Entristeceu, engordou 10kg e não conseguia mais trabalhos. Decidiu ir embora e ainda ficou com o prejuízo de ter que pagar a diferença da passagem, já que rompeu o contrato antes do tempo.

Três anos depois, ela planeja voltar ao mesmo destino, ainda este ano. Acredita que está mais madura, mais centrada. Quer fazer dinheiro, como viu uma amiga conseguir juntar "5 mil dólares em quatro meses e a outra ganhar R$ 40 mil após fazer três comerciais".

Para conseguir juntar dinheiro é preciso foco. A brasiliense Gabriele Paraízo, 19 anos, é um exemplo. Está há quase dois anos fora de casa. Já morou em seis países da Ásia. Atualmente, está em Manila, nas Filipinas. Determinada, a morena de formas curvilíneas se diverte com o trabalho, que lhe traz dinheiro, certa fama e liberdade, mas sua prioridade é construir uma carreira. "A rotina é acordar cedo, participar de vários castings por dia, ter alimentação balanceada, ir para a academia, muito trabalho e correria, que dependem da temporada ou do lugar em que você está", comenta.

O resultado é que sempre tem fotos para fazer e desfiles para participar. Gabriele já brilhou em comerciais de grandes marcas como Pepsi e foi garota-propaganda de outras, como Avon e Nike. "Ela sempre recebe convite para trabalho. Não querem me devolver minha filha", brinca a mãe da modelo, Gisele Paraízo, que já foi visitar a filha mais de uma vez, para se certificar que tudo anda bem.

Aliás, estrutura familiar também determina o sucesso da empreitada. "O foco e a responsabilidade dependem dos princípios de cada um e da educação que tiveram em casa. Agradeço a meus pais pela excelente educação e apoio que me deram para me manter focada no trabalho e não somente em diversão, como é comum por aqui", comenta. Com tanta determinação, a jovem já conseguiu poupar dinheiro, comprou um carro que a família usa aqui no Brasil e pretende, quando voltar, adquirir outros bens. Os planos não param por aí: "Volto no final deste ano e pretendo descansar. Quero rever e curtir minha família e amigos; fazer trabalhos no Brasil para colocar em prática as técnicas e performances aprendidas aqui na Ásia, e depois trabalhar na Europa", diz, confiante.

Para ter sucesso na Ásia
- Falar inglês é imprescindível.
- Manter-se rigorosamente nas medidas. Isso serve para garotas e rapazes. Não adianta chegar no país de destino com as medidas perfeitas e depois descuidar da alimentação, passar noites em baladas, achando que o booker nem vai perceber a diferença. A agência pode e tem o direito de romper o contrato e mandar o modelo de volta para o Brasil. É preciso lembrar que algumas agências checam as medidas dos modelos semanalmente.
- Ter controle de todos os trabalhos que fizer. Saber o valor do cachê, perguntar ao booker sobre o cliente, do que ele gosta etc.Ser pontual, honesto, profissional.

Fonte: Vanessa Lippelt, manager internacional e diretora da agência Glam Model, de Brasília

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