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Estado de Minas ENTREVISTA

O designer Guto Índio da Costa fala com exclusividade à Revista


postado em 30/06/2013 08:00 / atualizado em 29/06/2013 15:46

(foto: Igor Estrela/Divulgação)
(foto: Igor Estrela/Divulgação)


Sabe aquele recipiente na máquina lavar-roupa onde se coloca a roupa íntima, separada das peças do dia a dia? Para chegar à conclusão de que as brasileiras tinham a necessidade desse espaço para peças delicadas no tanque, até desenhar e tornar essa alternativa viável em larga escala, o designer Guto Índio da Costa percorreu muito chão. Um dos nomes brasileiros de maior destaque no cenário internacional de design de produtos, esse carioca de 44 anos já sonhou em projetar aviões, mas mergulhou de cabeça mesmo no desenho industrial, numa época em que o curso ainda era novidade no Brasil. Reconhecido por um trabalho inovador e ousado, o designer aposta na soma de influências que permeiam sua carreira. Fosse da mãe, designer de interiores, do pai – o famoso arquiteto Índio da Costa –, ou mesmo da racionalidade e do minimalismo herdados da Art Center College of Design, na Suíça, onde se graduou. O resultado? O necessário para que pudesse criar produtos premiados mundo afora. Caso do ventilador de teto Spirit, feito de policarbonato injetado, mesmo composto das janelas dos aviões e dos escudos da Polícia Militar, criado em 2001. Totalmente reciclável, o ventilador de duas pás é resistente e tem capacidade de ventilação 30% superior. À Revista, ele fala sobre o que é preciso para que o design industrial brasileiro dê um salto qualitativo no mercado internacional. Mais do que um investimento em estética, é preciso que os brasileiros voltem os olhos para a sustentabilidade e a tecnologia. “Vamos acabar com essa cultura do descartável. O que realmente é bom é sempre bom. Pode até ter sua época, mas é bom”, afirma.

Como você vê o atual cenário de design de produtos no Brasil?
Desde que me formei e entrei no mercado, houve uma longa evolução. De lá para cá mudou muito coisa. Em primeiro lugar, há um grupo muito maior de designers formado do que havia na minha época. Segundo, acho que a indústria também se modernizou e aquela ideia de que tudo que era feito no Brasil era mal-feito ficou para trás. Hoje não. Temos coisas bem feitas no país, a indústria se tornou competitiva e a qualidade deixou de ser um problema. Por isso, acho que esses fatores foram importantes para que a profissão crescesse, e de fato cresceu muito. Hoje temos um grupo atuante e diverso. O design brasileiro tem essa característica de ser bastante diversificado. No fundo somos tantos países dentro de um país. Há ícones como Sérgio Rodrigues ou os irmãos Campana, além de um grande grupo de designers sendo premiados lá fora, produtos brasileiros sendo reconhecidos lá fora. Evidentemente há um interesse enorme pelo Brasil e isso nos coloca em evidência. Então, acho que esse é um momento vibrante do design nacional.

Há críticos que associam o design brasileiro ao saber popular no artesanato e à natureza como principal matéria-prima. Seriam essas características capazes de definir o design nacional?
O design brasileiro é muito ligado à madeira e a processos artesanais que temos, sim, em abundância. De fato, qualquer leigo reconhece o design brasileiro em um móvel antigo de Jacarandá, por exemplo. Mas quando você parte para uma afirmação sobre processos e materiais de maior escala, você tem uma gama de opções compartilhadas mundo afora. Porque o mundo inteiro trabalha com metal e plástico, ou seja, não há mais esse diferencial da matéria-prima. É difícil uma pessoa não especializada dizer que isso aqui é design italiano, dinamarquês ou alemão, mas essas nuances existem. Assim como existem nuances do design brasileiro, no entanto quando elas fogem do óbvio, do uso de uma matéria- prima tradicional é mais difícil distinguir o design. Acho que o design brasileiro tem um rebolado, uma ginga que lá fora não se acha. Vejo essa característica, por exemplo, na cadeira do Sérgio Rodrigues, que por acaso é de madeira, mas cujo desenho tem um rebolado, algo doce, curvilíneo que é brasileiro. Isso permeia um pouco a produção nacional de design. No meu caso, a minha formação foi fora do Brasil e por isso compreende uma linguagem internacional. No entanto, reconheço que no meu trabalho, apesar de uma certa obsessão pelo minimalismo e pelo que é racional, há uma ginga que eu não vejo tanto no design lá fora.

De uma década para cá, como a linguagem do seu trabalho mudou?
Acho que meu trabalho continua minimalista, muito denso em conceito, talvez pela minha formação que mistura um pouco do design germânico, a preocupação em criar um produto inovador, diferente e não mais um produto com uma gracinha qualquer. Sou muito crítico com produtos cuja diferença seja apenas a estética. Quer dizer, sempre tento agregar algo além da estética. Seja na maneira de usar o produto, na maneira de fabricar, na matéria prima…Isso tudo veio muito da minha formação, afinal de contas sou um designer industrial. Durante muitos anos, trabalhei exclusivamente para a indústria de larguíssima escala, então, pensava em milhares de peças. Quando você chega nesse patamar, tudo é muito crítico. Você pesa e questiona todas as decisões. Um parafuso a mais significa cem mil parafusos a mais por mês. Isso explica um pouco a minha linguagem minimalista, essa racionalidade industrial.

Por conta desse design voltado para uma produção em larga escala, esse conhecimento e a busca pelo que há de mais novo em matéria-prima e tecnologia faz parte do seu cotidiano?
Sim. A gente busca o tempo todo a razão para aquele objeto. Por que mais um sofá? Por que mais uma cadeira? O que aquilo tem que traga realmente algo novo. E essa parte de processo, de tecnologia de materiais é uma parte muito importante do projeto. Recentemente fizemos uma linha de bancos para a Solarium, uma fábrica de pisos. Quando me chamaram para conhecer a fábrica e vi eles moldando placas de cimento, questionei: “Vocês fazem isso com molde e desse jeito? Então para que tem que ser placa se podemos fazer produtos”. Tiramos a Solarium do bidimensional fazendo formas complexas, bancos sofisticados. Agora, recentemente fizemos uma proposta de abrigo de ônibus para São Paulo, usando a tecnologia da Solarium, que faz um concreto de alta performance. Então, esse meu histórico industrial me deu conhecimento técnico e a capacidade de ousar em uma outra escala. Acho que isso faz parte do nosso trabalho. Cada vez mais estamos sendo mais inovadores no uso de materiais.

Qual o desafio do design hoje?
Na verdade, vivemos em um mundo imediatista. As pessoas querem tudo para ontem. Quero o resultado amanhã, preciso lançar agora. Mas quando você fala de inovação, é preciso tempo para testar para dar certo, para dar errado, para substituir o que está errado, para tentar de novo. E esse tempo é raro no Brasil. Não digo no mundo em geral, porque essa dificuldade de planejamento é um dos maiores males do nosso país. Em todos os sentidos e níveis. Está aí a Copa do Mundo e o estado dos nossos aeroportos. Ninguém lembrou? Ora, meu Deus! Há quantos anos sabemos que a copa vai acontecer que vai ser em 2014 e o que se fez e se planejou? Nada. A porta de entrada vai ser vergonhosa. E isso por incrível que pareça não é exclusivo do setor público. O setor privado também tem esse ranço. Por isso acho que precisamos rever essa cultura da falta de planejamento no Brasil e isso é fundamental para que o design seja cada vez melhor e de melhor qualidade. Porque um produto bom fica por anos no mercado.

Você arrisca um palpite de como será o design daqui a uma década?
Vejo o design sendo cada vez mais uma forma de pensar, influenciando decisões, tomadas de decisões. E vejo o designer como um intermediário da cultura, das pessoas, do mercado e da indústria. Vivemos juntando as pontas.

Além dessa ginga que você descreve, há também espaço para o humor no design brasileiro?

Há um grupo muito ligado ao humor. Uma forte vertente no design brasileiro que é divertido, engraçado. Como eu lido com um design de grande escala, não há espaço para grandes brincadeiras (risos). Porque ainda tem isso: o design brasileiro é muito misturado, mas tem esse lado artesanal muito forte ainda, então há produções pequenas que tem uma liberdade maior. Diferente do trabalho que faço. Nosso produtos são feitos com moldes enormes, super sofisticados, que tem que agradar um grande público. Então, às vezes não temos o espaço da brincadeira por conta desse processo como um todo.

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