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Estado de Minas ENTREVISTA

Os caçadores de mitos

Um físico e um jornalista unem forças para desfazer conceitos errados propagados por livros de autoajuda e textos falsamente científicos


postado em 07/07/2013 08:00 / atualizado em 05/07/2013 20:37

(foto: Rafael Bezerra/Divulgação)
(foto: Rafael Bezerra/Divulgação)


Não é de hoje que a autoajuda e o esoterismo criam polêmica. Enquanto uns torcem o nariz, outros encontram nos dois gêneros conforto para momentos difíceis. Depositar todas as expectativas e esperanças nesse tipo de literatura, contudo, pode ser perigoso. A opinião é de Daniel Bezerra e de Carlos Orsi, autores do recém-lançado Pura picaretagem (Leya). Mas, calma, não precisa rechaçar toda mensagem otimista que cruzar seu caminho: basta aprender a discernir o que é real do que é armadilha, indica a dupla. Manter uma visão positiva com relação à própria vida ajuda, sim, a encarar dificuldades. Mas pensar que "tudo vai dar certo" não garante que as coisas realmente aconteçam da melhor forma possível. Foi justamente com o intuito de "trazer as pessoas de volta à realidade" que o bacharel em física Daniel uniu-se ao jornalista e escritor Carlos Orsi. Nesta entrevista, ambos explicam por que abominam o uso equivocado e fora de contexto de termos científicos.

Como surgiu a ideia do livro?
Carlos Orsi — De 2007 a 2010, fui editor de Ciência do portal de um grande jornal paulista. Fiz uma postagem sobre alguns assuntos que, volta e meia, reaparecem como assuntos místicos da mecânica quântica — a ideia de que a consciência define a realidade, essas coisas. Falei que não era nada disso e ele (Carlos Orsi), que é fisico, deixou um comentário dizendo que isso realmente acontecia o tempo todo.

Daniel Bezerra — Ele escreveu um artigo a respeito da presença e da existência dos picaretas quânticos, que são pessoas que usam jargões científico para engabelar as pessoas. Termos da moda, como ativismo quântico, que não têm a ver com a ciência que a gente estuda na faculdade. A partir desse artigo, eu sugeri quase que de maneira informal no Twitter um livro sobre isso. Ele respondeu que a gente devia mesmo escrever e começamos a conversar. Falamos com conhecidos e a editora comprou a ideia.

Por que há tanto engano na interpretação dessas obras de autoajuda e esoterismo?
Carlos Orsi — Acho que é uma confluência de fatores. Existe a tentação de usar a mecânica quântica, que tem realmente aspectos que são contraintuitivos, ou seja, que batem de frente com o mundo que estamos acostumados. As pessoas têm a tendência de tirar palavras de contexto. Por exemplo, uma das interpretações (da mecânica quântica) é que certas partículas só assumem formas quando observadas. Então as pessoas assimilam que essas partículas só existem quando alguém está olhando. Quando você esvazia as palavras do sentido técnico, cria margem para interpretações incorretas.

Seria, também, uma questão de má-fé dos autores dessas obras?
Carlos Orsi — Acho que tem muita má-fé, mas tenho receio de dizer que tudo é má-fé. A ciência hoje é compatível com o materialismo. Se você pegar explicações científicas, como "doenças são causadas por genética", todas começam e acabam no mundo da matéria e isso é frustrante, porque as pessoas gostam de imaginar que têm influência espiritual no mundo. Muita gente, que tem essa ansiedade de ver espiritualidade nas coisas, acaba vendo na mecânica quântica uma brecha por onde contrabandear coisas para a ciência. A ciência tem papel de autoridade forte, as pessoas acreditam no que o médico diz. As pessoas que têm essa visão espiritualizada do mundo acabam vendo um modo de cooptar a ciência para o que acreditam. Isso é desonesto. Mas não sei se é algo intencional, acho que é fragilidade psíquica.

Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a ciência para nos enganar?
Carlos Orsi — Tem muita coisa que se repete. Quando a pessoa diz que o universo é feito de possibilidades, ou que pensamentos atraem coisas, ou que a forma que você escolhe olhar as coisas muda os acontecimentos, por exemplo. São frases que podem ser verdade em determinado contexto, como olhar para um problema com otimismo, mas as pessoas tentam contrabandear a mecânica quântica. "As coisas mudam porque o princípio da incerteza diz", mas não é assim. As coisas mudam por motivos psicológicos, mas a ciência não diz isso. De repente, a psiquiatria pode afirmar que a pessoa otimista vai resolver melhor os problemas, mas a física com certeza não diz. Se a pessoa está lendo alguma coisa que fale sobre frequência, energia, harmonização, e se não for uma reportagem de gastronomia, cuidado. No contexto da autoajuda, são textos invocando partícula, cor e luz. Aí é sinal vermelho.

Daniel Bezerra — Existem também algumas palavras-chave. Toda vez que o livro tenta ligar a ciência a filosofias orientais, é um indício. Por exemplo, "a física quântica provou a existência da energia corporal que pode ser entendida e explicada através dos estudos orientais de cura". Colocou filosofia oriental no meio, dá para saber que ele (o autor) não entende de nenhum dos dois. As filosofias orientais afirmam uma série de coisas que, às vezes, podem ser comprovadas cientificamente e, em outras, religiosamente. Outra palavra é "energias". Quando falam "energias do campo quântico", mas não definem que energia é essa, começa o sinal amarelo. "Energia" tem um significado muito específico em física. Se ela não é especificada diretamente ou explicada em termos esotéricos, é papo furado. Outra palavra-chave típica é "harmonização", como as pulseiras de plástico que harmonizavam "campos energéticos". O que é harmonizar? Por que os campos devem ser harmonizados? É uma palavra jogada para dar aspecto de credibilidade, mas que não diz nada. Essas palavras são uma tentativa de ofuscação do discurso. Os autores, geralmente, nem entram em detalhes sobre o que é ciência de verdade porque não têm nada de ciência. Eles também não entram na questão das filosofias orientais. É um discurso ensaiado para enrolar as pessoas, se aproveitar da boa-fé delas e da falta de alfabetização científica. Vai ser mais fácil enganar a pessoa que não tem conhecimento mínimo dos termos científicos do que quem tem. Não é culpa das pessoas, mas, normalmente, não temos acesso a esse conhecimento. Mas, se a pessoa tiver um grau de entendimento, se ler a respeito, mesmo que não tenha estudado ciência na faculdade, estará melhor equipada para identificar o que é sério.

Quais seriam os perigos desse tipo de livro?
Carlos Orsi — Seguir uma informação falsa é sempre ruim. É aquela coisa: a gente decide coisas importantes com base no que acreditamos. Você ter uma informação falsa e acreditar já é uma predisposição para algum desastre. Tem também o lado moral, que é a pessoa acabar agindo em torno de uma mentira, o que pode ter consequências graves.

Daniel Bezerra — Há alguns anos, tivemos a onda de O segredo, que é isso, pura tapeação baseada no desconhecimento das pessoas. Esse livro é especialmente perverso porque pega conceitos da física, joga coisas controversas, como "a consciência do observador faz com que as coisas sejam alteradas", mas não é isso que a física quântica diz. Se a pessoa vê isso com o verniz da ciência, ela está disposta a engolir o resto, que a atitude positiva conserta tudo. Isso é prejudicial porque você está dando dinheiro para um picareta e porque, se você ficar parado, apenas pensando positivo, nada acontece. O pensamento positivo pode ser força para melhorar sua vida se você arregaçar sua manga e fazer acontecer.

Como se proteger dessas "armadilhas"?
Carlos Orsi — Uma coisa importante, especialmente em termos de matérias de saúde, são as que anunciam que o tratamento "x" ou a técnica "y" harmonizam a energia e ajudam no combate a alguma dor. É preciso dar uma olhada e ver se há a citação oficial e o teste científico da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) ou dos órgãos reguladores responsáveis, ver se existe essa refêrencia e ir atrás. Isso deveria ter sido o serviço da pessoa que fez a reportagem ou o livro, mas muitos não fazem. Muitas vezes, as alegações vêm em linguagem rebuscada e não estão dizendo nada. Um exemplo claro são frases como "pode auxiliar a digestão se a pessoa tiver uma alimentação saudável". Ora, se a pessoa tem uma alimentação saudável, é bem provável que a digestão dela também o seja. É preciso ver se há alegações concretas de que esse ou aquele produto ou técnica fazem bem e se é autorizada pelos órgãos de defesa do consumidor.

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