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Estado de Minas TRADIÇÃO

Uma bela trama

Técnica milenar, a tecelagem passou anos no ostracismo, mas, aos poucos, tem despertado a curiosidade e recebido o merecido valor como uma forma de arte


postado em 08/09/2013 08:00 / atualizado em 06/09/2013 17:39

(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
A tecelagem é uma técnica milenar. Começou como cultura de sobrevivência do homem, que precisava de tecido para se aquecer e se proteger. As fibras de algodão, lã e linho tramam-se por meio de máquinas de tear — construídas desde uma folha de papelão até grandes aparelhagens de madeira e ferro. Hoje, a técnica sobrevive da curiosidade de pessoas que buscam no tear novas possibilidades de renda por meio da moda e da decoração. Com as habilidades dos artesãos, a trama ganha formas e se converte em tecido. E o que antes era uma necessidade transformou-se em questão estética, fonte de renda, criatividade e até terapia.

"Na minha família já é tradição. Há mais de 100 anos tecemos roupas e artigos para casa", comenta a artesã Marinalva Salviano, 50 anos, que tece desde criança. O ofício é herança da mãe, com quem aprendeu tudo o que sabe sobre a arte do tear, no interior da Paraíba. Marinalva abandonou a profissão de bancária há 20 anos para se dedicar exclusivamente à técnica. Construiu um ateliê, onde dá aulas e produz peças, entre elas, roupas, cortinas, pufes e jogos americanos feitos manualmente. "Acho que falta um pouco de conhecimento por parte das pessoas sobre o ofício. A arte é milenar, mas ainda assim desconhecida e desvalorizada pelas cidades grandes." O processo para fazer um vestido, por exemplo, dura em média cinco dias.

(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
Diferentemente do tricô, a tecelagem é feita a partir de fios contínuos e, por isso, é mais demorada do que a costura tradicional. No tear mais comum, chamado tear pente liço, o tecido se constitui por meio de dois conjuntos de fios: a trama e a urdidura. "O trabalho manual é demorado e detalhista e tem de ser assim para poder sair benfeito", ressalta Marinalva. A urdidura é um aparelho de madeira, em forma retangular, que tem como função determinar o comprimento do tecido. Pela urdidura, o artesão passa os fios de forma que fiquem tencionados e, assim, ele determina o tamanho da peça. O conjunto de fios da urdidura é transferido para a máquina de tear e preso ao pente. Por meio de um pedal, os pentes abrem e fecham a distância entre os fios. Dessa maneira, o tecelão entrelaça o outro conjunto de fio chamado de trama. Assim, o tecido é construído — um tipo de costura em que não existe agulha nem tesoura. O desenho vai depender da criatividade de cada artesão.

"Tecer e fabricar fios naturais são experiências que se mantêm há séculos e acompanham principalmente os habitantes do interior do Brasil", afirma Luciana de Maya, professora de tear há mais de 30 anos. Por questões de sobrevivência, a tecelagem manual chegou ao Brasil no período de colônia, em que não havia intercâmbio nem mercado suficiente de vestimenta para abastecer todos os trabalhadores e escravos no país. "Antigamente, todas as casas de interior, principalmente em Goiás e em Minas Gerais, tinham um tear de madeira. Era um orgulho poder produzir a própria roupa", explica a professora. No entanto, a técnica perdeu o prestígio depois da Revolução Industrial e da abertura mercadológica no Brasil. "Pensava-se ser muito mais chique comprar algo de fora do que produzir, então essa prática se tornou algo ligado ao conceito de pobreza, quando na verdade é uma prática de arte, de expressão regional", ressalta Luciana.

Hoje, apesar da facilidade para adquirir roupas, o interesse pela técnica ainda não acabou. O curso com mais de 15 alunos no Museu Vivo da Memória Candanga busca ensinar desde um pouco da história até o básico da tecelagem. Com a maioria de alunos constituída por mulheres aposentadas, Thalyta Fraga se destaca pela pouca idade: 20 anos. A estudante se interessou pelo curso depois de pesquisar um pouco sobre tecelagem. "Li sobre o assunto e achei superinteressante a prática. Já costurava em couro e vim fazer o curso mais pela a curiosidade", comenta. Colega de Thalyta, Maria Beli, 70 anos, entrou para a oficina em busca de algo novo para aprender. "Eu me aposentei e estava com tempo ocioso. Sempre fui apaixonada pela técnica, mas nunca tive oportunidade de aprender. Agora penso até em complementar a minha renda com esse novo ofício", diz.

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