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Estado de Minas CAPA

A década em que a fotografia deu um clique

Num mundo em que até seu telefone faz imagens, ainda é possível pensar na fotografia como uma técnica? Uma forma de arte? Na nona reportagem da série "Nosso Tempo", abordamos a questão sob novo prisma


postado em 29/09/2013 08:00 / atualizado em 28/09/2013 22:57

Toda forma de arte passa por momentos de transformações e de tensões. No caso da fotografia, a tecnologia foi a responsável por dar um novo sopro de vida às imagens nesses primeiros anos do século 21. Das câmeras digitais aos tablets e smartphones, passando pelo tratamento digital, a fotografia passou a ser popular — e acessível. Se antes eram necessários conhecimentos específicos para manusear produtos químicos que passariam o que foi "capturado" para o papel, hoje basta uma impressora doméstica para se ter uma foto em mãos. Isso para quem faz questão de ver a foto em formato físico, uma vez que o grande banco de imagens, atualmente, é virtual.

Para Marcelo Feijó, fotógrafo e professor da Universidade de Brasília (UnB), a fotografia vive hoje um paradoxo. Por um lado, a tecnologia transformou o ato de fotografar em algo corriqueiro, incorporado ao dia a dia. O resultado é uma imensa circulação de imagens — consequentemente, um maior interesse pela fotografia em si. "O outro lado da moeda é que essa grande produção está em uma cegueira total", analisa. "Há um excesso de imagens produzidas, mas pouco vistas, analisadas, pensadas." Por dia, mais de 350 milhões de fotos são postadas no Facebook — cerca de 14,58 milhões de fotos por hora, ou 243 mil imagens por minuto.

Para refletir sobre essas e outras questões relacionadas à força das imagens neste século, a fotografia é o objeto da nona reportagem da série "Nosso Tempo", que se propõe a apresentar pessoas e a refletir sobre temas importantes do comportamento humano nos anos 2000.

(foto: Paul Hansen/Divulgação)
(foto: Paul Hansen/Divulgação)
 

 Instantes decisivos
O fotojornalismo continua sendo uma fonte de imagens espetaculares. Atenta à riqueza desse material, a organização independente World Press Photo Multimedia, com sede em Amsterdã, promove há 55 anos um dos principais concursos do gênero. Uma vez feita a curadoria, as obras em destaque rodam o mundo em mostras itinerantes e são reunidas em um concorrido anuário.

Apesar de todo o prestígio, a organização não escapou de uma polêmica envolvendo a suposta manipulação da foto campeã da edição 2012. Nela, o fotógrafo sueco Paul Hansen registra o instante em que uma multidão indignada carrega os corpos de duas crianças palestinas mortas por mísseis israelenses. A luminosidade dramática dos personagens gerou a especulação de que o autor teria feito uma montagem, combinando mais de uma foto para "encher" a cena.

A questão ficou sub judice até maio passado, quando a World Press divulgou o resultado de uma perícia em que foi analisada a imagem bruta, ou seja, sem filtros ou retoques. "Integridade confirmada", atestou a comissão investigadora. "Fica claro que a foto publicada foi retocada com respeito às cores. Fora isso, não identificamos evidência significante de manipulação ou composição." E não se fala mais nisso.
Saiba mais: http://www.worldpressphoto.org/
 


Nomes em foco no século 21

(foto: Ruud van Empel/Reprodução da internet)
(foto: Ruud van Empel/Reprodução da internet)

Ruud van Empel
Quem é: Ruud van Empel, ou Rudolph Franciscus Maria van Empel, é um fotógrafo holandês que já foi de tudo um pouco: designer gráfico, diretor televisivo, produtor de filmes e cenógrafo de teatro.
Por que prestar atenção: o artista mistura referências de todas as suas outras ocupações para criar imagens híbridas. Após fotografar os modelos, Empel fotografa plantas, flores e animais e faz sobreposições com a ajuda do Photoshop.
Temas habituais: crianças, natureza e animais.
(foto: Martin Parr/Reprodução da internet)
(foto: Martin Parr/Reprodução da internet)


Martin Parr
Quem é: fotógrafo inglês
Por que prestar atenção: cores berrantes, sobreposições, e muito Photoshop: o artista mistura tudo isso para criar fotografias bem-humoradas e que refletem sua visão de sociedade. Críticas ao lazer, consumo e comunicação são conceitos comuns em seu trabalho. "Ele colocou o humor dentro da fotografia ao mesmo tempo em que mostrou as contradições da sociedade de consumo. Acho importante essa parte mais crítica sem ser cívica", analisa Claudi Carreras, fotógrafo e curador do Paraty em Foco.
Temas habituais: pessoas, cidades, paisagens e alimentos.

(foto: Marcos López/Reprodução da internet)
(foto: Marcos López/Reprodução da internet)

Marcos López
Quem é: fotógrafo argentino
Por que prestar atenção: o fotógrafo usa o kitsch para retratar cenas inusitadas da cultura latino-americana. Seus ensaios são resultado de suas viagens constantes pela América Latina, em que ele garimpa personagens comuns — camareiras, cabelereiros, barbeiros — e os retrata em ambientes exóticos. Apesar do bom humor, as imagens também têm como objetivo traduzir seu olhar melancólico com relação à decadência da sociedade latino-americana. Sua linguagem única ganhou o apelido de pop latino. "O pop latino é a classe média vista pela classe média", completa o fotógrafo Iatã Cannabrava.
Temas habituais: pessoas, cidade e cenários.

 

Nosso time de curadores
Alexandre Belém, jornalista, fotógrafo, editor de imagens e um dos criadores do site especializado em fotografia Olhavê
Eduardo Bentes, fotógrafo e professor do Departamento de Audiovisuais e Publicidade da UnB
Marcelo Feijó, fotógrafo e professor da Universidade de Brasília (UnB)
Eduardo Muylaert, fotógrafo envolvido com a fotografia artística há 23 anos
Paulo Fehlauer, fotógrafo e membro do coletivo Garapa, de São Paulo
Iatã Cannabrava, diretor geral do Paraty em Foco — Festival Internacional de Fotografia
Claudi Carreras, curador e editor independente, assim como pesquisador de fotografia formado em Belas Artes pela Universidade de Barcelona (Espanha)
Usha Velasco, fotógrafa brasiliense, fez parte do coletivo Ladrões de Almas

Leia a reportagem completa na edição nº 437 da Revista do Correio.

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