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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Ah, essa tal felicidade

Buscada por todos e uma incógnita para muitos, a felicidade pode ser algo subjetivo. Mas, para nove pessoas ouvidas pela Revista, ela não só é palpável como foi atingida após uma mudança radical de vida


postado em 22/12/2013 08:00 / atualizado em 20/12/2013 18:24

Na televisão, a propaganda indaga o telespectador à queima-roupa: o que você faz para ser feliz? A pergunta intriga e provoca questionamentos provavelmente desde que o homem sentiu um frio na barriga pela primeira vez. Para alguns, felicidade é sinônimo de conta bancária azul da cor do mar. Para outros, um estado de espírito, não importa quanto você ganhe. Os mais românticos defendem que o “conceito” se refere a experiências pessoais, companheiros, amigos, enfim, ao amor. Fato é que o tema desperta interesse não só no campo filosófico: ao redor do mundo, pesquisadores se desdobram para entender do que se trata essa tal felicidade — e o que é preciso fazer ou ter para se considerar um sujeito feliz.

Uma das maiores pesquisas sobre o tema foi feita pela Universidade de Harvard. O estudo, publicado pela revista francesa Geo Savoir em novembro de 2011, teve mais de 800 participantes acompanhados por 80 anos, desde 1938. O objetivo principal do Grant Study foi entender a influência que o estilo de vida que cada um escolhe impacta na percepção de felicidade no futuro. Levando em conta hereditariedade, infância, ambiente social, histórico familiar, estudos, casamentos, problemas de saúde, vida profissional e mais uma infinidade de detalhes, os pesquisadores — 50 ao todo — mapearam os dados.

Os resultados, como esperado, foram complexos: no começo da pesquisa, tudo levava a crer que a renda familiar seria sinônimo de uma longevidade maior de 10 anos, em média. Os mais pobres eram três vezes mais propensos a serem obesos, alcoólatras e tabagistas. Quando a vida dos pesquisados era analisada individualmente, porém, a coisa mudava de figura. Primeira conclusão: não dá para se basear pela média. Quem tinha tudo para se considerar infeliz, como problemas de saúde ou péssimo histórico familiar, dizia-se sereno e feliz.

É claro que os cientistas não conseguiram montar uma receita para a felicidade, mas foram capazes de apontar alguns comportamentos que tendem ao fracasso. O alcoolismo, por exemplo, foi o grande responsável por doenças, divórcios e mortes. O grau de inteligência não influencia na felicidade, assim como a posição política ou ideológica. O relacionamento com a mãe, sim: segundo a pesquisa, se a sua infância foi repleta de amor, há grandes chances de você ser um adulto feliz. E o velho ditado “dinheiro não traz felicidade” procede: ter tido uma juventude animada e feito uma faculdade vale mais do que dinheiro, no que diz respeito a ser feliz no futuro.

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

Quem: Fred Di Giacomo e Karin Hueck
Felicidade é:
Fred: ”Há duas definições que eu gosto bastante, uma é de Freud que diz que a felicidade seria a busca pelo prazer e a tentativa de evitar o
desprazer. Outra é do cantor punk brega Wander Wildner: ‘Vida é muito simples, basta achar algo que se gosta para fazer’.”
Karin: “A felicidade não é um objetivo final. Não é algo que está parado lá na frente e que basta você esticar a mão para encontrar. Pelo contrário, a felicidade é tudo, menos estática.”

Fred Di Giacomo e Karin Hueck, 29 e 28 anos, tinham bons empregos. Os dois são jornalistas e escritores, já publicaram livros, ganharam prêmios e realizaram pesquisas importantes. Um belo dia, resolveram ir atrás dessa tal felicidade. O casal pediu demissão, fez as malas e, há quatro meses, foi viver em Berlim, na Alemanha. O projeto foi batizado de Glück Project, ou Projeto Felicidade, em tradução livre do alemão. No site da iniciativa, os dois catalogam o que encontram por aí, como exemplos de pessoas que tiveram a coragem para investir no que as fazia felizes.

A dupla entrevista ainda médicos, psicólogos e especialistas sobre temas relacionados à felicidade, como medo e arrependimento. A ideia é juntar tudo em um livro. “Cada entrevista feita ou livro lido gera um post no blog”, explica Fred, que frisa: o resultado prático não é o principal objetivo da busca. “Existe um objetivo pessoal, que é repensar nossas vidas, nosso modo de viver, nossa forma de encarar o mundo”, resume.

Quando a notícia de que largariam os empregos para se debandarem para a Alemanha foi anunciada, as reações, surpreendentemente, foram positivas. Nada de perguntas, acusações ou tentativas de sabotagem (ainda que não intencionais). Na verdade, o casal conta que sentiu amigos próximos e parentes inspirados pelo exemplo. “As pessoas que ficaram mais surpresas foram as que não nos conheciam direito, que achavam que éramos muito satisfeitos e realizados, por exemplo”, diz Karin.

Os dois já contabilizam momentos marcantes, tanto com relação à cidade quanto às experiências que tiveram. Debates com escritores, cineastas e pesquisadores são alguns dos legados da viagem. Para os dois, a maior epifania do autoconhecimento foi o que fazer com o tempo livre. “Eu tinha curiosidade em saber o que faria da minha vida se tivesse mais tempo livre. A resposta que encontrei foi que tenho vontade de fazer muito mais coisas do que fazia antes: aprender a desenhar, fazer filmes, cozinhar, andar de bicicleta”, enumera a jovem. “Hoje, a sensação que tenho é que a vida é um corredor com diversas portas esperando para serem abertas e nós estamos abrindo várias delas para dar uma espiadinha. Se gostarmos de alguma, podemos entrar e ficar”, finaliza Fred.


(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Quem: Pierre Marcovicz
Felicidade é:
“Encontrar o que se deseja de verdade e ir em frente.”

Pierre Marcovicz, 37 anos, levava uma vida comum. Acordava, tomava banho, arrumava-se e seguia para o trabalho. O problema era o intervalo entre o serviço e a volta para casa: raramente se passavam menos de 10 horas entre uma coisa e outra. A rotina se repetiu por cerca de 14 anos. Pierre trabalhava com suporte de TI (tecnologia da informação). Além da imensa quantidade de trabalho, Os horários de Pierre não eram convencionais. O recorde foram 24 horas em frente ao computador. Horas extras? Nem pensar. “Nem o salário era bom. Sentia que estava desperdiçando minha vida.” O excesso de trabalho somado às relações não muito amistosas entre os colegas de ofício o deixavam extremamente estressado, frustrado e sem vontade de continuar com a vida que levava. As cartas do tarô, atividade que despertava seu interesse desde a infância, serviam como válvula de escape.

A rotina estafante, finalmente, fez com que Pierre chegasse ao limite. Resolveu transformar o hobby em algo profissional e, há um ano, usa as cartas como ganha-pão. O dinheiro da rescisão de contrato do antigo emprego serviu como amparo para os primeiros meses de empreitada. “Fiquei tranquilo. Se desse errado, pelo menos tinha tentado.” Os amigos e familiares o apoiaram incondicionalmente. Por enquanto, as consultas são feitas no apartamento em que mora. A ideia é transferi-las para um consultório próprio no futuro. A carga de trabalho diminuiu e o prazer aumentou — bem como a conta bancária. Ainda que as contas não estivessem estabilizadas, a tranquilidade que a nova vida trouxe teria valido a pena. “Não fico mais estressado ou nervoso.” Além das cartas, ele usa o tempo livre para estudar para concursos que o interessem. Ao contrário de muitas pessoas, contudo, esse é, agora, seu “plano B”.

Na internet
» www.caseiecompreiumabicicleta.com
» www.gluckproject.com.br
» www.cacadoresdebonsexemplos.com.br
» www.worlddatabaseofhappiness.eur.nl
» www.eumaior.com.br

Leia a reportagem completa na edição nº 449 da Revista do Correio.

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