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Estado de Minas CAPA

Velhice sem tabus

Dados do IBGE confirmam: o brasileiro está vivendo mais - em média, 74,6 anos - e com mais saúde e vigor. Diante de tal cenário, muitos idosos insistem em manter a independência e se recusam a morar com os filhos. No DF, 26.426 vivem sozinhos. Contamos a história de nove deles, que não abrem mão da autonomia


postado em 05/01/2014 08:00 / atualizado em 05/01/2014 10:31

Os anos passam, a nossa pirâmide etária — aquela que mede a população por faixa etária e que tem na base os mais jovens — já está em vias de se tornar um retângulo e, ainda assim, envelhecer segue um tabu. Envelhecer livre e solitariamente, então, deve causar discussões quase tão inflamadas quanto o futebol. O que fazer com os idosos que, indo cada vez mais longe em seus aniversários e com saúde sobrando — graças aos avanços da medicina —, escolhem simplesmente seguir a vida sozinhos e independentes, ignorando os clichês de se abrigarem em asilos ou em quartos nas casas dos filhos? O assunto rende. O que é óbvio, embora às vezes difícil de enxergar, é que a velhice será cada vez mais uma realidade presente, basta acompanhar os cálculos sobre a expectativa de vida do homem. No último 2 de dezembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atualizou os dados: hoje, os brasileiros vivem, em média, 74,6 anos, exatamente cinco meses e 12 dias a mais que em 2011.

Mas não é apenas a vida um pouco mais longeva que tem feito o cenário da população de idosos mudar. Os anos a mais de vida têm sido, em boa parte, sem doença e debilidade. Os idosos trabalham, mantêm a agenda ocupada, estão mais atentos à saúde. O mesmo IBGE divulgou, em novembro passado, um estudo que mostra que 27% dos idosos brasileiros — pessoas com 60 anos ou mais — estão no mercado de trabalho. O próximo número é apenas uma consequência de todos os outros aqui expostos: existem no Brasil 2.816.470 idosos morando sozinhos. No Distrito Federal, são 26.426 cuidando da própria vida e pouco dispostos a abrir mão da liberdade e da independência em nome de uma vida "mais segura" — mas também, muitas vezes, menos confortável — ao lado de familiares ou em instituições de longas permanência, os antigos asilos.

Nesta edição, a Revista conta histórias de pessoas que decidiram se manter donas de suas vidas, mesmo depois de entrarem para as estatísticas da terceira idade. Elas perderam o companheiro em algum momento da vida, mas não necessariamente entregaram os pontos quando a solidão bateu à porta. Algumas moram sozinhas, outras descobriram a paixão por viajar ou arrumaram soluções para driblar os cômodos da casa vazios: foram para flats ou, conscientes de suas fragilidades, contrataram um cuidador.

"As gerações que hoje têm entre 60 e 75 anos desfrutam de condições de vida muito melhores: os sistemas de pensões e de saúde, o acesso à educação, à tecnologia de informação e de comunicação e a melhoria da infraestrutura urbana e rural permitem que os cidadãos, quando envelhecem, possam empreender novos projetos de vida, cuidar-se, desfrutar dos bens sociais e culturais e aprender coisas novas", analisa Mayte Sancho, diretora científica da Fundación Matía, uma instituição espanhola sem fins lucrativos dedicada a cuidar de idosos e a produzir conhecimento a fim de melhorar sua qualidade de vida.

Ela lembra, no entanto, que, normalmente, o momento em que as famílias passam a pressionar o idoso para que ele saia da própria casa e passe a morar com um parente, um cuidador ou em uma instituição é justamente aquele em que julgam que o idoso já não consegue mais cuidar de si — esteja esse julgamento certo ou não. "Atualmente, o número de idosos morando sozinhos aumenta sem parar. O que é, a princípio, um indicador de competência para esse grupo da população cada vez mais longevo, mas também autônomo, capaz e independente", observa a cientista. "Mas, quando a solidão se une à dependência, tudo muda. Aparece a fragilidade e, claro, as famílias passam a buscar soluções mais seguras e confortáveis para seus velhos", diz.

A convivência com os filhos hoje, no entanto, não é mais como em tempos passados. As mulheres, cuidadoras natas, estão inseridas no mercado de trabalho e já não têm mais tanta disponibilidade para dar a atenção necessária ao familiar. Além disso, lembra Mayte, as casas são menores e, muitas vezes, hostis a uma pessoa que precisa de cuidados. "E o mais importante: o idoso perde suas referências e seu espaço de poder e decisão, que é a sua casa. Por isso, pelo menos na Espanha, cada vez menos pessoas aceitam ir morar com os filhos quando perdem sua independência", conclui a especialista.

Ter o poder de decidir o que fazer quando esses tempos chegarem, no entanto, está mesmo nas mãos dos jovens. Planejar uma velhice saudável e segura enquanto ainda é tempo, dizem médicos e estudiosos, ainda é a melhor forma de não se ver obrigado a aceitar decisões tomadas pelos outros no futuro.

Boas companheiras

(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A.Press)
Uma casa grande, construída ao lado do marido, muitos anos vividos, uma lembrança em cada cômodo. Para muita gente, depois da viuvez, tanto espaço e tanta saudade passam a não fazer mais sentido. A casa fica grande demais para uma pessoa só e vender ou alugar o lugar acaba sendo a alternativa mais óbvia. Não para dona Lia Abreu Veiga, de 78 anos, e a irmã mais nova, Marlene, de 76. Lia já tem 50 anos de Brasília, 30 deles vividos na casa em que mora, no Park Way. Mas arredar o pé do pedaço de chão que ergueu na cidade, nem pensar. Marlene, que veio para a capital quando o marido, militar, foi transferido, também nunca traçou planos de deixar o apartamento em que viveu com ele e os três filhos, na Asa Sul. E não, mesmo viúvas e morando sozinhas, juntar os trapos e dividir a vida e o espaço jamais passou pela cabeça dessas irmãs.

Não que morar sozinha signifique ser sozinha. A rotina continua ocupada por encontros com as amigas — as sextas-feiras são para o cinema, as quartas para a manicure e o cabeleireiro no apartamento de Marlene — e pelos afazeres do dia a dia. Além disso, sempre nas primeiras segundas-feiras do mês, a mulherada da família tenta se reunir para um chá e um bom papo. Estão convidadas filhas, noras, netas e demais agregadas à grande família. Tão grande que se espalhou pelo quintal de dona Lia.

No terreno onde construiu sua casa, dois dos três filhos ergueram seus "puxadinhos". Cada um na sua, a apenas uma batida de distância da porta do vizinho. Morar tão perto dos filhos é, para dona Lia, não apenas um acalento para a saudade, mas uma segurança. Foi justamente para o colo do vizinho que Lia correu quando perdeu o marido. "Quando ele faleceu, não queria voltar para casa, era triste. Fiquei um mês dormindo na casa do meu filho. Mas, depois, passou e eu voltei." Além disso, foi lá que ela bateu quando precisou de ajuda médica certa vez que passou mal. "Pedi ajuda e foi meu neto quem chamou a UTI móvel." O susto, causado por um pico de pressão, passou. Mas, só por segurança, ela mantém a assinatura com o serviço de atendimento móvel.

Marlene também já soube o que é morar quase junto dos filhos, ainda que separado. Antes de se casar, uma das filhas era sua vizinha de porta. "Depois que se casou, ela se mudou e eu fiquei sozinha."

Ela não pretende se mudar tão cedo. Apegou-se à quadra, à proximidade com os médicos e aos serviços que encontra por ali. "Ando para todos os lados. Por enquanto, não preciso incomodar ninguém, então não incomodo. A gente, quando fica velho, fica cheio de mania. Morando com alguém, vamos acabar discordando das coisas, se metendo nos assuntos. Prefiro assim", diverte-se.

Sozinha, mas não solitária
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Não há ninguém com quem dona Neuza Lamego divida o apartamento de dois quartos onde mora no Sudoeste se não com ela mesma. Não que uma companhia ande fazendo falta. No raro tempo em que passa em casa, é a empregada, com quem a aposentada conta há 14 anos, e as dezenas de palhacinhos coloridos feitos de sucata que moram no quarto de visitas — dona Neuza confecciona os brinquedos e distribui com crianças carentes — que lhe fazem companhia. Pode parecer solitário, mas não é. Morar sozinha foi opção de dona Neuza depois que o marido morreu, há 10 anos.

"Meu filho tem uma empresa e quatro filhos para cuidar. Você acha que eu vou pedir alguma coisa a ele?", afirma, categórica. A família, no entanto, vive por perto. Os retratos dos dois filhos, oito netos e da primeira bisnetinha, de 1 ano, que dona Neuza exibe com orgulho, ocupam álbuns de fotografia e porta-retratos por toda a casa.

O apartamento em que mora hoje, na verdade, pertencia ao filho mais velho. Com a morte do pai, a família decidiu que seria mais confortável para Neuza se ela trocasse a antiga morada, maior e cheia de lembranças, por uma menor e mais aconchegante. Dona Neuza se instalou no apartamento do filho, e ele foi para um na Asa Norte, perto o suficiente para matar a saudade sempre que necessário, mas longe o suficiente para que cada um preservasse o seu espaço. "Não me senti sozinha com tudo o que aconteceu, até porque meu filho assumiu muito o lugar do pai depois da morte dele. Hoje, é ele quem cuida de mim."

Mas só de vez em quando, porque na maior parte do tempo é a própria dona Neuza quem dá conta da sua rotina cheia de atividades. Aos 74 anos, ela é, como costuma dizer, uma "refém do carro". É ele quem a leva e traz dos compromissos nas casas de caridade em que trabalha duas vezes por semana — hábito que mantém desde os tempos em que se mudou do Rio de Janeiro para Brasília, em 1977 — e nos encontros com as amigas durante a semana ou nas visitas aos médicos para cuidar dos exames periódicos de saúde. Uma vez ao ano, religiosamente, a aposentada se submete a um checape para se certificar de que tudo continua em ordem. E, até agora, vai tudo muito bem. "Peço a Deus que me dê muita saúde para que eu consiga continuar me virando", torce.

Mas, se a família não precisa se preocupar com a saúde de dona Neuza, é ela quem se preocupa com a dos familiares. A aposentada deixou no Rio uma irmã, dois anos mais velha, que hoje também mora sozinha, em Saquarema, interior do estado, e não tem a mesma atenção com a saúde. "Ela tem pressão alta e, se eu ligo e ela não atende, quase morro de preocupação, mas ela também se recusa a ir morar com qualquer pessoa", continua.

Teimosia que Neuza não pretende ter no futuro, se um dia precisar de atenção e cuidados extras. Embora ainda desnecessária, a preocupação com o que pode vir pela frente existe — e longe de tabus e preconceitos. "Eu vejo algumas das minhas amigas, já mais velhas, ficando dependentes, e começo a fazer minha cabeça. Se um dia precisar, devo colocar uma cuidadora no quarto de hóspedes", planeja. "Iria também para uma casa de repouso. Mas não qualquer casa! Uma boa casa", finaliza, com humor.

Uma cidadã do mundo
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Aos 84 anos, Carolina Castello Branco tem mais carimbos no passaporte que a maioria das pessoas que se julgam viajantes assíduas. Pelo menos uma vez por ano, sai pelo mundo rumo a um novo destino com um grupo de amigas de uma agência de viagens para a terceira idade. Só nos últimos anos, Carol, como é chamada pelos amigos, esteve na Itália, nos Estados Unidos, na Rússia, na França, na Turquia e na Escandinávia. Fora os destinos em terras brasileiras: de vez em quando, visita os familiares em São Luís, no Maranhão, terra natal, ou a sobrinha em Salvador. No aniversário de 80 anos, um mapa múndi com os dizeres "Os caminhos por onde andei" e alfinetes por todos os lugares por onde já havia pisado enfeitavam a parede.

Uma vida social tão intensa mal permite que Carol aprecie a liberdade e a privacidade que tem em casa, tão poucos são os dias que fica em Brasília. "Já cuidei dos meus filhos. Agora, vou fazer o que eu quiser!", diz, sorridente. Desde que ficou viúva, aos 49 anos, a aposentada vive sozinha no apartamento que antes dividia com a família, na Asa Sul. Está lá desde 1963, quando Brasília ainda se desenhava como cidade. Viu os três filhos crescerem, se casarem e deixarem seus quartos vazios e o marido se despedir precocemente da vida. Nada disso a fez procurar por outro lar, menor ou com menos lembranças. Muito menos significa que sua vida tenha se tornado solitária. Os netos — são oito — lhe fazem companhia nas tardes depois do colégio. Além disso, todos os filhos têm uma cópia da chave. Livre acesso à casa de toda a vida.

Como nunca foi muito de dirigir, Carol se vira como pode. Andar, ela diz, faz bem para sua pressão alta. "Já estou acostumada com a vizinhança. Vou ao supermercado, ao banco, à hidroginástica, tudo a pé", conta. De fato, os vizinhos estão acostumados a ver os cabelos vermelhos de Carolina passeando pelas redondezas. E, enquanto a saúde lhe permite — e ela faz questão de dizer que cuida muito bem dela —, as caminhadas, pela quadra ou pelo mundo, não devem parar tão cedo. "Eu não penso nesse negócio de doença, de velhice. Gosto de pensar positivo. Daqui dessa casa agora, eu só saio para o cemitério", ri.

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