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Estado de Minas COMPORTAMENTO

A superquadra criativa

Uma série de ações colaborativas e sustentáveis está transformando a 307 Sul numa "quadra feliz". Entenda o porquê


postado em 27/04/2014 08:00 / atualizado em 25/04/2014 12:33

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
A fama de que o brasiliense é frio e não conhece os vizinhos pode estar com os dias contados. Pelo menos no que depender dos idealizadores do projeto Superquadra criativa, lançado em outubro do ano passado na 307 Sul. O local pode parecer comum à primeira vista, mas os indícios de que existe algo diferente aparecem logo na entrada da quadra. O quiosque da costureira abriga também uma videolocadora colaborativa com empréstimo de filmes compartilhados pelos moradores sem custo nenhum. Ao lado da banca de revistas, está uma horta comunitária pensada para servir a todos que quiserem pegar algo que cresceu ali, como cheiro verde e manjericão.

“Queremos inspirar uma cultura local mais criativa, promovendo microssoluções voltadas para o bem comum e realizadas de forma colaborativa. Superquadra criativa pode ser entendida como a continuação prática de um sonho comum de pessoas e organizações das mais diversas gerações e tipos que acreditam que as quadras podem ser mais criativas, humanas, sustentáveis, colaborativas, alegres e educadas”, explica João Paulo Barboza, 32 anos, um dos seis idealizadores do projeto. Todos já tinham histórico de participação em lideranças comunitárias, mas apenas um deles era morador da 307 Sul. Segundo Barboza, a quadra foi escolhida por conta do espírito comunitário presente por lá.

O projeto foi apresentado aos síndicos. Depois, num evento de lançamento, os moradores foram convidados a participar. Uma das árvores foi transformada numa “árvore de ideias”. Lá, ficam expostas as sugestões da comunidade. Entre as propostas, estão a criação de um concurso de fotografias, a promoção de uma gincana entre famílias e a organização de um sistema de carona solidária entre os moradores que trabalham perto.

Um exemplo de atividade que funciona hoje na quadra é a troca divertida de brinquedos. Uma vez por mês, a assistente social Márcia Diniz, 40 anos, organiza o evento, em que as crianças levam brinquedos que já não querem mais e saem de lá com novas distrações. “As mães ficaram tão animadas que foram visitar as lojas do entorno e conseguiram várias parceiros, que deram pão de queijo e bolo para o café da manhã do encontro”, conta Márcia. A artesã Ana Paula Altman, 40 anos, sempre leva os filhos Pedro e Júlia, de 6 e 4 anos, respectivamente, para participar. “Na última vez, o Pedro pegou um carrinho de controle remoto novinho e a Júlia saiu com uma cozinha de plástico”, lembra Ana Paula. “Sempre que tem alguma atividade, eu participo. É uma forma de aproximar os moradores, descobrir que temos coisas em comum. Estamos muito satisfeitos. É bom ver que a quadra não está tão abandonada.”

Fátima Sousa, prefeita comunitária da 307 Sul, está entre as entusiastas. “Nunca vi a prefeitura comunitária como uma substituta do governo. A minha preocupação vai além de melhorias na estrutura física. Quero promover a integração dos moradores, criar oportunidades de troca de saberes de cada um e estimular o sentimento de coletividade”, afirma Fátima. A caixa de trocas entre vizinhos é uma das ideias pensadas por ela que será colocada em prática. Caixas serão fixadas na quadra e os moradores poderão depositar nelas objetos que não usam mais, mas que podem ser aproveitados pelos vizinhos.

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Em andamento também está um projeto de empréstimo de bicicletas dentro da quadra e o de transformar a banca de revistas numa banca de ideias, por meio da colocação de um mural com depoimentos dos moradores e fotos contando a história da quadra. Também haverá um espaço dedicado a novas ideias de melhorias. A principal solução pensada pelos idealizadores da superquadra criativa já foi premiada no Festival da Ideia de 2012: é a criação de um site de compra coletivas, em que a comissão que seria paga às páginas tradicionais é revertida para o financiamento de projetos de melhorias sociais.

Para conseguir colocar em prática, os gestores do projeto apostam no empreendedorismo social, ou seja, na realização de projetos que geram impacto positivo na comunidade dentro de um modelo profissional com escalas de trabalho e remuneração. No lugar do lucro, o objetivo maior é a ampliação da Felicidade Interna Bruta (FIB), conceito usado pela equipe da superquadra criativa, que envolve a vitalidade comunitária e ocupação do tempo livre. “O empreendedorismo social tem três etapas básicas. Primeiro, transformar ideias em soluções, depois conectá-las a empreendedores sociais, aqueles que vão desenvolver as atividades. Por último, buscamos parcerias com prefeituras comunitárias, marcas e comércio locais que possam impulsionar o projeto investindo economicamente ou de alguma outra forma”, explica Barboza.

O próximo passo do projeto será o lançamento da plataforma de empreendedorismo social, marcado para o próximo dia 27 na 307 Sul, num evento com música, poesia e troca de ideias. A realização é dividida com a prefeitura comunitária e com o Movimento Inspiracéu, trabalho de conclusão de curso dos estudantes de publicidade Déborah de Andrade e Ricardo Tarchetti, que tem como objetivo espalhar inspiração por Brasília por meio de intervenções urbanas e outros projetos. “Somos daqui e estávamos incomodados com problemas da cidade. Por isso, decidimos criar um produto para impactar Brasília”, explica Déborah.

“Existe em Brasília um movimento subterrâneo de inspiração em redes, que está sendo construído com a junção de vários coletivos, mas que a população não acompanha. Vamos fazer emergir essas ideias e coletivos”, afirma Everardo de Aguiar, outro idealizador da superquadra criativa. No evento, o grupo pretende cativar voluntários, moradores e possíveis parceiros comerciais. “As marcas locais vão poder se associar aos projetos, que poderão ser acompanhados na nossa página na internet”, adianta João Paulo Barboza.

Na visão desses mobilizadores, a 307 Sul é apenas o começo para uma transformação geral de Brasília. “Uma vez que a cultura comunitária for instalada na quadra, o nosso objetivo é seguir em frente e espalhar o empreenderismo social para outras regiões”, garante Barboza. As prefeituras comunitárias e estabelecimentos comerciais interessados já podem agendar um cafezinho com equipe da superquadra criativa pelo site http://www.superquadracriativa.net.

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