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Estado de Minas CASA

Laboratório criativo

Uma arquiteta e uma designer brasilienses deram uma volta no evento de design mais badalado do mundo e contam o que o setor nos reserva


postado em 27/04/2014 08:00 / atualizado em 25/04/2014 17:26

Por Clarice Semerene e Erica Moreti *
Especial para a Revista do Correio

Já imaginou se a cidade se transformasse em um museu, em que cada bairro funcionasse como uma galeria temática, reunindo obras de arte de diferentes artistas? É isso o que acontece em Milão, na Itália, todos os anos em abril, quando a cidade recebe a maior evento de design do planeta: a Semana de Design de Milão. Enquanto a programação oficial — o Salão do Móvel — apresenta novidades em mobiliário, luminárias e objetos decorativos, do lado de fora da feira, as ruas são tomadas por artistas, designers independentes, artesãos e também grandes marcas. Ali, temos uma amostra do que será tendência nos próximos anos.

Neste ano, o Fuorisalone — como é conhecida a programação paralela — propôs uma discussão que vai além de objetos, formas e cores, e pode ser resumida na pergunta: “Qual é a função do design na criação de um estilo de vida que se adapte às novas realidades econômicas e sociais do mundo?”. Cada um ensaia uma resposta. Os designers italianos do Studio Ventotto, por exemplo, se especializaram no desenho de objetos simples e acessíveis, como bancos que se transformam em escadas. “Nos baseamos em nós mesmos ao projetar para jovens, que, diante da crise, mudam-se constantemente, estão à procura de trabalho, vivem em casas alugadas, pequenas e divididas com outros moradores. Tentamos resolver pequenos problemas, aproveitando cada espaço”, explica Elena Albricci, designer do estúdio.

Os materiais ditos “pobres”, como papelão, juta e plástico, ou os orgânicos, que normalmente seriam descartados (como lava de vulcão ou casulos de bicho de seda), passam a ter outro status. O uso de novas tecnologias, como a impressão 3D, reduz o desperdício de matéria-prima e facilita o processo de produção e de montagem. São soluções econômicas, que convêm em tempos de crise. “A minha intenção foi projetar uma cadeira que pudesse ser feita com três partes iguais, sem pregos e parafusos, com apenas uma junção. O objetivo é criar móveis funcionais, simples, que facilitem o processo de produção: podem ser realizados por um marceneiro, impressos em 3D ou fabricados em grande escala”, justifica o designer Matteo Beraldi.

Integração com a natureza

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

O Estúdio Dossofiorito interpretou a mudança no paradigma socioambiental trabalhando a reaproximação entre homem e natureza no ambiente doméstico. Apresentaram um vaso que emite vibrações para deixar as plantas felizes, lupas para as folhas e um espelho que permite olhar o verde por diferentes ângulos — elementos que possibilitam a interação, a observação e o cuidado com as plantas. “Estamos em um momento importante de mudança do modo que vemos e nos relacionamos com a natureza. Há um grande debate científico sobre como as plantas são sensíveis. Elas não são objetos inanimados, mas como seres vivos com os quais se cria uma relação”, defende a designer Livia Rossi.
Hortas espalhadas pelo espaço urbano, invadindo terraços de prédios, reforçam a simbiose entre homem e vegetação. Esse é o futuro idealizado no projeto Feeding, que tem como objetivo nutrir o planeta, incentivando a plantação para alimentar a população urbana. Por isso, a opção por jardins verticais, revestimentos verdes, como os azulejos feitos de alga, que transformam ar poluído em oxigênio.

Poesia cotidiana

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Foi unindo tecnologia da interação com design emocional que a escola suíça Ecal venceu como melhor exposição da Semana do Design de Milão. A mostra Delirious Home inovou com seu conceito bem-humorado de “casa maluca”, na qual as pessoas interagem ativamente com objetos domésticos. Para os idealizadores Allain Bellet e Chris Cabel, a tecnologia se tornou inteligente, mas sem senso de humor. “Essa falta de humanismo foi o ponto de partida para imaginarmos uma casa realmente original, onde os objetos se comportam de uma maneira inesperada.” Na mesa de jantar, a colher está disposta a perseguir a xícara onde quer que ela vá. Os cactos de estimação ficam felizes ao receber carícias. O relógio acompanha os movimentos das pessoas. “Esses objetos e móveis aparentemente comuns foram cuidadosamente projetados para nos fazer questionar sobre nossa relação com eles.”

O estúdio YOY também propôs uma nova relação com os produtos e os espaços, criando situações normalmente impossíveis, como um tapete que pode virar banco ou uma mesa que aparenta ter uma bandeja prestes a cair. “Tentamos criar sensações de estranhamento dentro da vida comum”, defende o designer Yuki Yamamoto. A luminária minimalista surpreende ao ser acesa: ela projeta a sombra de um abajur tradicional, presente no imaginário de todos nós.
O cotidiano foi também inspiração para o estúdio japonês Nendo na exposição realizada em parceria com a marca de moda COS. A coleção de camisas que viravam esculturas ou os potes feitos de um material misterioso foi exposta para traduzir o processo de criação e os valores da marca. “Meu objetivo é criar pequenas maravilhas escondidas na chatice da rotina”, diz, sem modéstia, Oki Sato, designer da Nendo. E arremata: “A ideia é criar riqueza, mas não riqueza econômica — trata-se de produzir sorrisos”.

Alimentação reinventada

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

A invasão verde passa a fazer parte também de espaços íntimos, graças a jardins suspensos, hortas e minipomares domésticos para consumo próprio. Um novo cenário se abre para discutir não somente os estilos gastronômicos, mas os rumos da alimentação, revisando as tradições culinárias e criando espaços e atividades de socialização em torno da comida.
O estúdio Esterni, focado em design público, comissionou 13 projetos com o tema “comida de rua” e transformou uma praça pública em um restaurante temporário. Ali, uniu projetos socializadores que buscam ampliar a noção de coletividade e colaboração, com atividades como o Juicy Pedal Bar. A instalação convidava as pessoas a pedalarem. Assim, elas geravam energia para a preparação de sucos frescos. Na mesma linha, o projeto Contemporary Prophecy (Profecia Contemporânea) distribuía biscoitos da sorte feitos na hora — recheados com notícias dos jornais do dia.

Já a mostra Mondopasta explorou os limites da culinária, afrontando com ironia a tradição da pasta italiana. “Para os italianos, a pasta é algo intocável, que se deve pedir a permissão para a nonna antes de fazer”, brinca Stefano Maffei, responsável pela curadoria dos projetos. Havia desde biscoitos feitos com farinha de grilo a uma máquina para “tatuar” lasanhas com tinta sépia. “O tema da comida está parado há anos e tem muito a ser desenvolvido. Tudo que existe um dia foi inventado e está em constante transformação tecnológica”, justifica o curador.

» Clarice Semerene é arquiteta e mestre em design de interiores pela universidade Politecnico di Milano.
» Erica Moreti é designer, mestre em design estratégico e professora da Politecnico di Milano
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