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Estado de Minas PONTO A PONTO

Marceneiro de luxo

O arquiteto Carlos Motta, pai de um dos ícones do design nacional, a cadeira São Paulo, fala de criação, meio ambiente, novos talentos e até de surfe


postado em 04/05/2014 08:00 / atualizado em 02/05/2014 17:43

No dia da entrevista, o designer e arquiteto paulista Carlos Motta se levantou cedo. Caía um temporal em Brasília, daqueles de inundar a cidade. Mas Carlos, surfista, não se intimidou — saiu para correr na chuva mesmo. A cidade não é inédita para ele, que morou nas superquadras com os avós por pouco tempo enquanto era criança. O arquiteto guarda na memória os móveis de pé palito da época.

Depois de terminar a faculdade de arquitetura, Carlos foi para a Califórnia aprender o ofício de marceneiro. Tinha dificuldades com o desenho das peças, e o contato com a madeira o ajudou a enxergar em três dimensões. Um dos hobbies da época era visitar os mercados de pulgas, que vendem móveis usados, para comprar cadeiras antigas. Em casa, as desmontava para entender o projeto e as revitalizava com toque pessoal. Foi revendendo as cadeiras que ganhou os primeiros “trocados”.

De volta a São Paulo, em 1978, o arquiteto abre o ateliê. Hoje, não é difícil reconhecer seu trabalho. A preocupação com a sustentabilidade e o contato com a natureza por meio do surfe caracterizam suas peças e seus projetos arquitetônicos. Um dos designers e arquitetos mais importantes do mobiliário brasileiro, Carlos já ganhou mais de uma vez o prêmio do Museu da Casa Brasileira, entre tantos outros, e em 37 anos de carreira não se cansa. Coloca a mão na massa — ou na madeira, matéria-prima principal de suas peças e que ele define como um material no qual a fibra, o cheiro e a cor são sedutores — e fabrica, ele mesmo, grande parte dos desenhos que faz no papel.

Antes de um bate-papo com estudantes e profissionais da área, realizado na Hill House, Carlos conversou um pouco com a Revista.

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

O surfe e a natureza
“Não é que o surfe influencia diretamente o meu trabalho, mas é o ambiente do surfe, a aproximação com a natureza, aquela fluidez toda, a sensualidade que existe no surfe, a pouca roupa, de ficar dependendo de condições da natureza. O que determina tudo é a ondulação, o vento, a maré. São condicionantes muito bonitas, é muito legal ver que a gente não tem controle sobre nada disso. De alguma maneira, é tão presente a coisa do surfe e da natureza na minha vida que não tem como isso não estar presente no trabalho. Inclusive, o primeiro trabalho que fiz de mobiliário foi encontrando madeira em praias muito isoladas, nas quais eu ia surfar, e o mar trazia. Eram madeiras lindas, que o mar maltratou e arrancou as partes ruins. E, com elas, eu fiz as primeiras peças. A ligação sempre foi muito intensa.”

Sustentabilidade
“A sustentabilidade está presente desde o início do meu trabalho. A minha geração — faço 62 anos no mês que vem — é exatamente daquela fase da contracultura. A palavra ecologia foi divulgada e conhecida nessa época, nos anos 1970. É uma coisa que está impregnada, que faz parte de mim, desde o meu primeiro movimento no design. Eu pegava as madeiras que eram trazidas pelo mar e transformava em móveis. Hoje, só uso reutilizadas ou certificadas pelo selo FSC (selo verde mais reconhecido em todo o mundo). A responsabilidade ambiental e a sustentabilidade estão presentes em todos os níveis do meu trabalho.”

A marcenaria
“Acho importantíssimo o meu trabalho com marcenaria, eu sempre gostei muito. Estudei sozinho, meio autodidata, até me formar em arquitetura. Depois, fui para a Califórnia e fiz um curso de marcenaria durante um ano e meio e virei marceneiro mesmo. Conhecer a técnica de marcenaria para madeira maciça, a técnica construtiva, me ajuda muito na hora de desenhar porque eu sei exatamente como ela vai ser executada. Não faço o desenho e deixo para um marceneiro resolver. Resolvo tudo.”

A madeira
“O Brasil sempre foi muito equivocado com as madeiras. O nome do nosso país é nome de uma madeira. Nós sempre vendemos tora, que é um superpatrimônio. Imagina ter uma floresta e vir um estrangeiro e cortar tudo, pagar e levar embora. Não é assim. A gente tem que saber tirar essa madeira, gratificar os ribeirinhos, as pessoas que moram em volta e vivem dessa floresta. É um processo difícil. Estamos aprendendo a fazer isso. Na época que eu fiz a cadeira São Paulo, o Brasil exportava muito para a Europa e as medidas eram em pés, e não em metros, e cada fardo se chamava amarrado. Para fazer esses fardos certinhos, como os europeus enjoados exigiam, eles tinham que cortar as pontas da madeira, e o que sobrava se chamava short. Era madeira de primeira qualidade, baratíssima, praticamente desprezada. Pedaços de 50 centímetros a um metro. Foi daí que nasceu o projeto da cadeira São Paulo, que tem 45 centímetros de altura, largura, de encosto e de diâmetro do assento.”

O design brasileiro
“Acho que estamos em um momento superlegal. O Brasil, em geral, apesar de todos os problemas, crises e ‘compliqueiras’ que a gente vem passando, está em uma posição melhor. Veio uma autoestima, isso de o brasileiro gostar mais das coisas próprias, enquanto há um olhar da Europa, dos Estados Unidos. É um conjunto de pequenas coisas que formou uma ação muito positiva, não só para o design brasileiro, mas para outras áreas também. O design sempre foi algo mais fraco, mais anêmico. A arquitetura do Brasil é mais conhecida. A moda, a gastronomia e o design sempre foram meio inexpressivos. Temos excelentes designers, mas é uma coisa nova, não temos um histórico. Considero novo o que foi feito no século 20, e é forte, representativo e se fortalece exatamente em uma época que a sustentabilidade vem se tornando mais forte. É uma série de conjunções muito positivas para nós neste momento.”

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