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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

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Ter amizades fortes ao longo da vida é certeza de ganhos físicos e psicológicos. O ser humano só se realiza plenamente no diálogo com o outro, garantem estudos diversos


postado em 06/07/2014 08:00 / atualizado em 04/07/2014 13:52

Um estudo da Universidade de Harvard, feito desde os anos 1930, tem provado seguidamente que uma vida sentimental bem resolvida, e isso inclui ter amigos, contribui para a longevidade. Para eles, ser velho, saudável mas sem amigos não tem a menor graça. E descobriram que os indivíduos que eram socialmente isolados acabavam morrendo mais jovens.

Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo, acrescenta que, hoje, promover longevidade com qualidade é uma preocupação central para a ciência médica. "Antes, você ouvia muito ‘nossa, fulano durou 100 anos’. Mas não é que ele viveu 100 anos. Ele sobreviveu. A ciência médica vem provando que as relações positivas, além de promover longevidade, promovem também qualidade de vida", diz o especialista.

Sem dúvida, ter bons companheiros pode fazer você viver mais e melhor. A questão é: num mundo em que a internet dá de bandeja a possibilidade de um sujeito ter um milhão de amigos, trocar likes até com desconhecidos, como reconhecer uma verdadeira amizade? Aquela que, de fato, exerce algum efeito sobre a saúde, que injeta porções generosas de oxitocina no organismo, que nos dá amparo?

A Revista do Correio ouviu um psicólogo, um antropólogo, uma coach e brasilienses de todas as faixas etárias e círculos sociais para responder à pergunta: como reconhecer e manter uma verdadeira amizade?


(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Os brothers de carne e osso
Se para Aristóteles era impossível ter mais do que cinco amigos íntimos ao mesmo tempo, não se pode dizer o mesmo em tempos de Facebook. O pesquisador Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, garante que o número máximo de amigos que uma pessoa pode ter é 150. E a explicação faz sentido. Para ser amigo mesmo, é preciso guardar várias informações sobre a vida do outro, além de situações compartilhadas, e o cérebro humano não é capaz de armazenar tantos dados assim.

O consultor empresarial Pietro Politi, 26 anos, tem 2.250 amigos no Facebook. E ele garante: conhece todos. "Eu não adiciono quem não conheço. Tenho que ter conversado com a pessoa pelo menos uma vez, inclusive nego alguns pedidos de gente que já encontrei várias vezes, mas nunca conheci de verdade", conta. Pietro fez um intercâmbio no Canadá e, lá, aumentou muito sua rede — por não conseguir conversar por telefone com os amigos estrangeiros, o jeito encontrado pela turma foi se adicionar no Facebook para manter contato ou, pelo menos, contar notícias de cada um em seus respectivos países.

Mas, entre os 2.250 "conhecidos" do Facebook, são sete os que são íntimos mesmo. Os que atendem o telefone de madrugada, consolam nos momentos tristes, comemoram as conquistas, estão sempre aptos a fazer companhia em festas, partidas de futebol ou tardes à toa e até dão uma escapada da rotina corrida para tirar uma foto com o amigo para a matéria da Revista. Como cada um tem uma profissão, os conselhos e as dúvidas são sempre sanados com rapidez e confiança — diante de qualquer dor, por exemplo, Pietro liga para o amigo médico; o amigo bancário é quase um gerente pessoal.

E nenhuma dessas amizades começou por conta da rede social. Algumas vêm da época da escola, outras da prática do handebol e até da própria família — o irmão Gabriel está no rol de pessoas em que Pietro pode confiar. "São os meus amigos antigos, que eu conheço há anos, encontro sempre e sei quem são porque sei que posso contar com eles para qualquer coisa. Mesmo quando não nos vemos há muito tempo, sei que eles vão fazer o possível para me ajudar se eu precisar de qualquer coisa. Estão sempre presentes, mesmo de longe", conta.

Quem olha o Facebook de Pietro não identifica quem são esses amigos íntimos — e a maioria das pessoas que se rendeu à rede social pode dizer o mesmo. Aqueles que estão presentes na alegria e na tristeza não costumam trocar mensagens públicas. O contato é mais íntimo. "Meus amigos estão no mesmo patamar de importância que a minha família, prefiro telefonar ou mandar mensagem pelo WhatsApp", explica.

O que dizem os estudos

  • Segundo uma pesquisa da Universidade da Califórnia (Ucla), as mulheres respondem de forma diferente ao estresse. Enquanto eles têm o instinto de lutar ou correr, elas procuram a família e os amigos. A explicação vem dos tempos das cavernas: as mulheres tinham que proteger os filhos e se unir com as outras mulheres do clã para se defender enquanto os homens atuavam na linha de frente. Seria por isso que, quando nervosas, as mulheres preferem sair com as amigas ou encontrar a família como válvula de escape.
  • O pesquisador Nattavudh Powdthavee, da Universidade de Londres, criou uma fórmula que garante: quem só encontra com os amigos e a família uma vez por mês deveria ganhar pelo menos 85 mil libras (mais ou menos R$ 320.450,00) por ano para ser tão feliz e satisfeito quanto aqueles que veem os mais queridos com frequência.
  • O pesquisador americano Tom Rath estuda as amizades no ambiente de trabalho. Para ele, aqueles que trabalham junto de pelo menos um bom amigo é sete vezes mais produtivo, criativo e engajado — e é 50% mais satisfeito com a empresa em que trabalha. Quanto mais, melhor: quem tem três amigos no trabalho tem 88% mais chance de ser feliz na vida do que aqueles isolados.
  • O Alsa, um estudo australiano longitudinal de estudo do envelhecimento, descobriu que entre os sujeitos participantes da pesquisa, 69% declararam que tinham pelo menos quatro amigos próximos e que pessoas com mais de 70 anos tinham 22% menos chance de morrer durante o período de estudo do que aquelas com menos amigos. Ou seja, pessoas com fortes ligações sociais com amigos vivem por mais tempo.
  • Um estudo publicado em 2006 pela American Sociological Review descobriu que os americanos têm menos amigos do que tinham há 20 anos. Em 1985, os pesquisados relataram ter pelo menos três amigos próximos, enquanto em 2004, apenas dois. Segundo a pesquisa, 25% revelaram não ter nem uma pessoa para conversar.
  • Um estudo da Universidade de Chicago afirma que pelo menos uma vez na vida, 20% das pessoas são infelizes por estarem socialmente isoladas.
  • Um estudo de 2006 feito com cerca de três mil enfermeiras portadoras de câncer de mama revelou que aquelas com muitos amigos íntimos têm probabilidade quatro vezes menor de morrer por conta da doença. As participantes da pesquisa contam que as amigas criam um ambiente confortável e seguro, no qual não há medo de discutir os problemas decorrentes do câncer.
  • Uma pesquisa da Universidade da Virgínia colocou 34 estudantes munidos de pesadas mochilas para subir uma colina. As pessoas que subiram sozinhas relataram que a colina era muito íngreme, enquanto aqueles que subiram com os amigos acharam a subida mais confortável — quanto mais amigos eram os estudantes, menos íngreme eles perceberam a colina.


Leia a reportagem completa na edição nº 477 da Revista do Correio.

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