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Estado de Minas MEDICINA

O ABC da hepatite

A doença e suas variantes estão altamente disseminadas no país, mas os casos são subnotificados. Cada tipo merece um conjunto de cuidados e a falta de conhecimento do vírus pode ser fatal


postado em 17/08/2014 08:00 / atualizado em 16/08/2014 17:27

A hepatite não pode ser considerada um mal desconhecido, embora ainda não tenha sido completamente desvendado. As dúvidas mais comuns pairam sobre os diferente tipos. Formas de contágio, evolução e consequências do não tratamento são informações primordiais para entender do que a doença é capaz. Os tipos mais estudados são a hepatite A, a B e a C, sendo esta a mais severa manifestação do vírus. Atualmente, estão mapeadas outras variações (E, F e G), o que demonstra o empenho da medicina em atualizar suas armas. A cada dia, novas pesquisas tentam encontrar medicamentos capazes de curar a enfermidade. A promessa mais recente é a cura da hepatite C, por meio de remédios em fase final de estudo.

Dados sobre a quantidade exata de infectados ainda carecem de precisão, já que o exame não consegue diferenciar os pacientes doentes dos que já se curaram, por conta dos anticorpos que continuam no organismo. De qualquer forma, de acordo com Edson Roberto Parise, presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, há cerca de 2,5 milhões de pessoas realmente infectadas por hepatite C no país. Trata-se de um tipo sorrateiro: geralmente assintomático, é rápido e potencialmente mortal. O vírus pode demorar de 25 a 30 anos para se manifestar. Enquanto isso, vai minando o fígado, pouco a pouco, até evoluir para um quadro de cirrose.

Muitas vezes, quando se descobre o hóspede indesejado, já é tarde demais. "Em indivíduos jovens e em mulheres em geral, a evolução é mais lenta", completa o médico. "Quando adquirido em uma idade em que a imunidade é boa, o vírus pode não progredir." Sofrem ainda mais pessoas que abusam do álcool, que já passaram por um transplante, as infectadas em idade avançada e também as soropositivas. De acordo com Parise, um aspecto que chama a atenção é a forma de contágio dos pacientes que estão atualmente em tratamento. Metade deles foi contaminada por conta do uso de seringas de vidro, comuns há 40 anos. Naquela época, o procedimento de avaliação de sangue doado também não existia — por isso, transfusões de sangue foram um vetor do vírus, com um impacto difícil de calcular. "Em 2030, teremos um aumento no número de casos de pacientes com câncer no fígado, cirrose e transplante de fígado", estima o médico.

"Achei que a medicina não poderia me ajudar"

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Toda a esperança da comunidade médica e, principalmente, dos pacientes, recai em novos medicamentos que prometem a cura em menos tempo e com efeitos colaterais mais brandos. Um dos grandes problemas do tratamento atual, explica Edson Roberto Parise, é a desistência. Porém, estudos mostram que vale a pena, sim, insistir. Pacientes infectados com a forma leve da doença, ao fim do tratamento, apresentam sobrevida igual à da população geral. "Mesmo entre os que estão em estágio avançado, a mortalidade por doenças hepáticas praticamente se estabiliza", completa. O médico espera que o índice de cura chegue a 95% num futuro próximo.

A bancária Ana Paula Barcellos, 36 anos, convive com a hepatite C desde 2005. A descoberta veio por acaso: após sentir fortes cólicas, ela resolveu ir ao médico. Em um dos exames, foi constatado que algo estava errado com o fígado dela, porém, nenhum especialista quis dar prosseguimento a uma investigação mais minuciosa. Muitas consultas depois, a gastroenterologista que a atendia desconfiou que o problema poderia ser hepatite. "Ela quis investigar e recebi o diagnóstico positivo para hepatite C", relembra Ana Paula.

A contaminação aconteceu quando Ana Paula tinha apenas 8 anos e precisou de uma transfusão de sangue. À época, ela lutava contra uma pneumonia severa e precisou passar por um procedimento cirúrgico. "Naquele tempo, o sangue (usado em transfusões) ainda não era testado", completa. A situação de Ana Paula foi atípica: dos 8 anos de idade, quando foi infectada, aos 27, quando a doença foi descoberta, a hepatite ainda estava no estágio inicial. "Os médicos não souberam explicar por que, mas parece que, quando uma pessoa é infectada criança, a doença progride devagar", explica.

Na época em que Ana foi diagnosticada, pacientes com baixo grau de fibrose não eram candidatos a receber o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por conta da agressividade dos medicamentos, apenas aqueles que estavam com fibrose severa — ou seja, paciente cirróticos — estariam autorizados a receber os remédios e fazer o acompanhamento necessário. Em 2008, após ter a cirrose detectada por uma biópsia, Ana Paula pôde começar o tratamento. Ela passou a tomar doses de Interferon na veia uma vez por semana e comprimidos de Ribavirina, os dois únicos medicamentos existentes contra hepatite C até então.

Os efeitos colaterais dos dois remédios são severos. Ana descreve a sensação como "uma gripe muito forte, que dura 24 horas por dia, por seis meses". Os dias posteriores à injeção de Interferon eram sinônimo de prostração. Ainda assim, ela esforçava-se para ficar de pé e continuar indo ao trabalho. "Nunca consegui trabalhar oito horas seguidas durante o tratamento. Estava sempre cansada, com dor e febre", relembra. "Ficava também indisposta e bastante irritada. É algo orgânico, não tem como controlar."

Ao todo, o tratamento deveria durar 48 semanas. Porém, ao fim do prazo, os exames indicaram que Ana Paula não estava respondendo bem. A medicação foi suspensa. "Bateu muito medo. Achei que a medicina não poderia me ajudar." Sem perder as esperanças, ela continuou a pesquisar sobre a doença por conta própria. As dicas e as orientações que encontrou, ela compartilha no blog Animando-C e na página do Facebook de mesmo nome. Ana ainda não está curada: espera pelos novos remédios que estão por vir, que prometem mais de 90% de chance de cura em menos tempo. O vírus ainda está presente no organismo, lesionando o fígado aos poucos. Mas isso não quer dizer que todo o tempo foi perdido. "Mesmo quando o tratamento não dá certo, a carga viral reduz e isso dá um alívio para o fígado", justifica. Por isso, é como se a doença estivesse novamente em seu estágio inicial.

Ao longo do tratamento, o foco era não ceder à depressão. "Quando descobri, perdi o chão, entrei em desespero e achei que fosse morrer", descreve Ana. "Mas é um sentimento combatido com informação." À medida que pesquisava e entrava em contato com outros pacientes, a angústia passou a dar lugar à vontade de vencer. Já que não havia como evitar que a doença progredisse, ela resolveu fortalecer o corpo com treinos de musculação, cinco vezes por semana. "Não deixo ninguém pegar leve comigo, porque não sou doente. Estou doente."

As vacinas disponíveis
Técio Genzini, hepatologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que, atualmente, a hepatite já foi classificada até o tipo G. A diferenciação é feita pelas formas de contágio, avanço e consequências da doença. No Brasil, os tipos mais comuns são o A, o B, o C e o D. "A hepatite A é endêmica no Brasil inteiro: de 60% a 70% da população entra em contato com o vírus ao longo da vida", completa. O tipo B também se manifesta no país inteiro, contudo, se diferencia do A pela possibilidade de cronificação, que pode ocorrer em 10% dos casos.

Ainda de acordo com o médico, após a identificação correta do vírus, o objetivo é frear e, se possível, encerrar a sua multiplicação. Melhorar a imunidade do paciente é a primeira providência a ser tomada para que o tratamento dê certo. Pacientes com má alimentação, condições higiênicas e sanitárias deficientes, que têm doenças crônicas associadas (como tuberculose, câncer e Aids), que tenham passado por transplante ou que façam uso de imunossupressores veem a doença progredir mais rápido. "O que tratamos nos pacientes é o vírus, mas também os hábitos", completa Genzini.

Já existem vacinas para as hepatites tipo A e tipo B. Inclusive, a primeira acaba de ser incluída no Calendário Nacional de Vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS). Para o tipo C, porém, ainda falta muita pesquisa. "O que acontece é que a hepatite A e a B datam da década de 1960, então, houve mais tempo para desenvolver medicações", justifica Genzini. "A tipo C foi descoberta em 1989. O diagnóstico no Brasil começou em 1993 — é um período muito curto."

"Recebi dois litros de sangue. Provavelmente, estava contaminado"

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Oscar Campos, 56 anos, foi uma das vítima do desconhecimento médico da época. Ele é paulista e veio parar em Brasília em 2007, graças a um concurso público. Quando mal tinha pisado na capital, o nariz já começou a sangrar. Acreditando que era apenas um efeito da seca, não deu muita importância. O incômodo, contudo, não passava de jeito nenhum. Oscar, então, resolveu ir ao médico e descobriu que o problema, na verdade, era uma consequência do desvio de septo nasal. Era preciso uma cirurgia corretiva, mas os resultados dos exames pré-operatórios detectaram a hepatite C.

O servidor público acredita ter sido infectado em 1975, quando passou por uma operação para corrigir uma má-formação no coração. "Recebi pelo menos dois litros de sangue. Provavelmente, ele estava contaminado, porque a doença já estava circulando, mas não tinha sido classificada. Só se falava em hepatite A", relembra. Oscar começou a bateria de exames e o tratamento. Anemia, irritação, perda de memória, de cabelo e de peso — ele chegou a perder 25kg durante o processo — foram efeitos sentidos imediatamente. "Quando você recebe a ‘picada’ da injeção é que vem a pancada", recorda. Para que ele conseguisse estar de pé para trabalhar às segundas-feiras, as doses precisavam ser tomadas na quinta.

Além de lidar com os efeitos colaterais, Oscar precisou rever diversos aspectos da própria rotina que poderiam piorar consideravelmente o que já estava ruim. "Você recebe a notícia e, depois, é como se fosse recebendo mais um soco por vez", compara. A cerveja do fim de semana, por exemplo, transformou-se em mera lembrança, assim como o cigarro. Rodízio de carne ou de massas? Nem pensar. Até a roda de amigos mudou. "Não dá mais para sair com os que bebem. As pessoas começam a te achar chato, e você está mesmo."

Da contaminação à cura, Oscar passou por diversos tratamentos e até mesmo por uma peleja na justiça contra o Governo do Distrito Federal, pois precisava de autorização para importar os remédios. A experiência serviu como mote para ajudar outras pessoas. Oscar resolveu, então, criar o Grupo Candangos do C, para auxiliar portadores do vírus e informar sobre a doença. O plano é, além da divulgação de informações, organizar ações para realizar o teste rápido em vários locais da cidade. "Hoje em dia, a terapia é outra. Já existem remédios que elevam a chance de cura em 98% e há novos medicamentos no horizonte", anima-se. "Quero descobrir e ajudar novos portadores até que a associação vá a falência, por não ter mais gente para se tratar."

Tipos de hepatite
Hepatite A
O que é: Causada pelo vírus A (VHA), também conhecida como “hepatite infecciosa”
Transmissão: fecal-oral, contato entre indivíduos, água ou alimentos contaminados
Sintomas: geralmente assintomático, mas pode causar cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras
Tempo infecção-sintomas: 15 a 50 dias
Prevenção: lavar as mãos após ir ao banheiro; lavar bem os alimentos com água tratada, clorada ou fervida; cozinhar bem alimentos antes do consumo; lavar pratos, copos e talheres; não tomar banho ou brincar perto de valões, riachos, chafarizes, enchentes ou próximo de onde haja esgoto a céu aberto; evitar a construção de fossas próximas a poços e nascentes de rios

Hepatite B
O que é: causada pelo vírus B (HBV), também chamada de soro-homóloga. Está presente no sangue, no esperma e no leite materno
Transmissão: relações sexuais sem proteção; da mãe para o filho durante a gestação, parto ou amamentação; compartilhamento de seringas, agulhas e cachimbos; compatilhamento do objetos perfuro-cortantes (lâminas de barbear e de depilar) e de objetos de higiene pessoal; uso de material infectado em tatuagens e piercings; transfusão de sangue
Sintomas: geralmente assintomático, mas pode causar cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras
Tempo infecção-sintomas: um a seis meses
Prevenção: vacinação (três doses), uso de preservativos durante o sexo, não compartilhamento de objetos pessoais, pré-natal

Hepatite C
O que é: causada pelo vírus C (HCV). Já foi chamada de “hepatite não A não B”. Presente no sangue
Transmissão: transfusão de sangue; compartilhamento de seringas, agulhas, cachimbos ou objetos pessoais; uso de material contaminado na confecção de tatuagens ou piercings; da mãe para o filho durante a gravidez; relações sexuais que envolvam sangue
Sintomas: geralmente assintomático, mas pode causar cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, urina escura e fezes claras
Tempo infecção-sintomas: 20 a 30 anos
Prevenção: não compartilhar nada que possa ter entrado em contato com sangue; evitar consumo excessivo de álcool e outras drogas; pré-natal

Hepatite D
O que é: causada pelo vírus D (VHD), também chamada de Delta. Sua transmissão depende da presença do vírus do tipo B
Transmissão: relações sexuais sem proteção; da mãe para o filho durante a gestação, parto ou amamentação; compartilhamento de seringas, agulhas e cachimbos; compatilhamento do objetos perfuro-cortantes (lâminas de barbear e de depilar) e de objetos de higiene pessoal; uso de material infectado em tatuagens e piercings; transfusão de sangue
Sintomas: geralmente assintomático, mas pode causar cansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras
Tempo infecção-sintomas: não determinado
Prevenção: Como a hepatite D depende da presença do vírus B para se reproduzir, as formas de evitá-la são as mesmas do tipo B da doença.

Hepatite E
O que é: causada pelo vírus VHE. É comum na Ásia e na África, mas de ocorrência rara no Brasil
Transmissão: fecal-oral, por contato entre indivíduos e por meio de alimentos e água contaminada
Sintomas: geralmente assintomático, mas pode causarcansaço, tontura, enjoo e/ou vômitos, febre, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes claras
Tempo infecção-sintomas: 15 a 60 dias
Prevenção: lavar as mãos após ir ao banheiro; lavar bem os alimentos com água tratada, clorada ou fervida; cozinhar bem alimentos antes do consumo; lavar pratos, copos e talheres; não tomar banho ou brincar perto de valões, riachos, chafarizes, enchentes ou próximo de onde haja esgoto a céu aberto; evitar a construção de fossas próximas a poços e nascentes de rios

Fontes: Técio Genzini, hepatologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo; Ministério da Saúde (Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais)

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