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Estado de Minas TRABALHO

Profissionais em extinção

Por desinteresse dos jovens, falta de cursos de formação e, em alguns casos, pouca procura pelo serviço, alguns ofícios não se renovam no DF nem no país. E correm o risco de desaparecer


postado em 28/09/2014 08:00 / atualizado em 25/09/2014 10:33

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Quem tem um relógio mecânico antigo em casa pode se preocupar. Caso precise de restauração ou conserto, raramente encontrará alguém que saiba mexer nessa antiguidade, afinal, hoje é tudo eletrônico. Um homem que queira consertar uma camisa ou um paletó terá igual dificuldade. Algumas costureiras podem dar conta do serviço, mas um profissional especializado em alfaitaria — a quem se pode confiar um terno de grife, por exemplo — é difícil de encontrar. Profissões como essas já não atraem tanto os mais novos e a sua renovação é prejudicada. Já quem tem um piano em casa é importante ter na agenda o contato de algum dos poucos — menos de 10, estima-se — afinadores da capital. Os amantes que quiserem uma gravação nas alianças — ou os que quiserem o animal de estimação ou até o filho identificado com uma medalhinha — também suarão a camisa buscando alguém que faça o serviço com a letra bonita e o capricho necessário. São só alguns exemplos de profissões que não se renovam.

Em Brasília, a maioria dos que têm essas raras profissões começou cedo, quando ainda era legal trabalhar com menos de 16 anos de idade. Aprenderam o ofício com o pai, um parente ou um vizinho, afinal, tanto na época quanto hoje, são raros os cursos que ensinam esses ofícios. São competências passadas de pais para filhos. Muitos filhos, no entanto, seguiram outros caminhos, graças ao talento dos pais e o consequente sucesso na capital. Formaram-se em boas faculdades e trabalham com diploma na mão em áreas diversas.

Com calos na mão de tanto girar a chave de afinar piano, Rogério Resende, 60 anos, tornou-se um pouco de tudo: pianista, marceneiro, engenheiro, matemático e químico. Além de afinar pianos, ele restaura os instrumentos antigos, conserta os com defeitos e faz réplicas. Não existe curso que ensine tudo isso nem mesmo a parte só da afinação. Enquanto a maioria recebe os ensinamentos dos pais, Rogério é autodidata. Não tem nenhum músico na família. O envolvimento com o trabalho lhe rendeu bons frutos — são poucos os afinadores na cidade e ele é, certamente, um dos com mais visibilidade.

Graças a todo esse conhecimento que adquiriu sozinho, além de afinar pianos, Rogério mantém um museu itinerante, com réplicas fabricadas por ele mesmo na oficina. É um dos poucos afinadores de pianos da capital que abriga cerca de 70 mil unidades do instrumento. Com essa quantidade e com um clima em que a profissão é ainda mais demandada, já que a seca acelera o processo de desafinação, Brasília poderia ser um celeiro de afinadores de piano. Segundo Rogério, porém, é uma profissão que exige paixão. "Um afinador de piano pode viver muito bem em termos financeiros", garante. "Mas não basta a vontade de ganhar dinheiro. Tem que ter amor por piano."

Aos 14 anos, Rogério ganhou um violão. Aprendeu a tocar sozinho. Aos 17, teve contato com um piano pela primeira vez. De cinco cordas, passou para 230. Aprendeu sozinho mais uma vez. Desmantelar coisas era mania que tinha desde que era uma criança de 5 anos. Em 1981, com o apoio da mulher, trocou o único carro da família por um piano, que desmontou e montou inúmeras vezes até decidir que pararia de tocar piano na noite e se dedicaria ao funcionamento dele. Por conta própria, virou técnico. Hoje, o que ele toca é a Casa do Piano. O instrumento em sim, só de vez em quando. Tem funcionários a quem ensinou muito e com quem também aprendeu. A filha Veridiana administra o local.

A favor do tempo

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Como os pianos, os relógios adquirem mais valor de acordo com a história que carregam, podendo ser bem caros. Artesanais e pomposos, os instrumentos antigos demandam técnica especializada para serem consertados e custam, em média, R$ 3 mil. São mecânicos, enquanto os fabricados atualmente são eletrônicos. "Os relojoeiros que sabem mexer com esse tipo de produto estão desaparecendo porque hoje é só abrir, trocar a bateria e pronto", lamenta Nelson Rios, 80 anos, relojoeiro há mais de 50. Encontrar alguém que os conserte, portanto, pode ser difícil. Corre-se o risco de todos pararem.

Rios aprendeu o ofício com um primo mais velho que mexia com relógios. Curioso, ficou perto e decidiu que trabalharia a favor do tempo. Especializou-se aos 15 anos, em Salvador, enquanto tocava os estudos. Doze anos depois, em 1962, resolveu conhecer a nova capital, de mercado promissor. Alugou uma lojinha na 311 Sul, montou a relojoaria nela — onde permanece até hoje — e a própria casa na parte de cima. Os negócios se expandiram e a Relojoaria Rios abriu uma filial no Conjunto Nacional, atualmente fechada. O relojoeiro tornou-se uma referência e uma personalidade na cidade. No subsolo da loja, uma infinidade de relógios, quantidade que ele desdenha: "Antes, tínhamos o dobro". Tem planos para o futuro: "Vamos ver se alugamos outro espaço e arrumamos mais bonitinho".

A maioria dos que fazem o mesmo trabalho de Rios e entendem de relógios antigos, garante, são contemporâneos dele, alguns um pouco mais novos, outros um pouco mais velhos. "Os jovens conhecem pouco." Os filhos seguiram outras carreiras, foram fazer faculdade. Tadeu Torres, de apenas 40 anos, um de seus funcionários, é exceção. "Quase não tenho colega de profissão da minha idade", concorda Torres. Quando ainda estava em sua cidade, Sete Lagoas, em Minas Gerais, Torres conta que tinha um outro relojoeiro jovem como ele, mas que logo largou o ofício. Admite que a profissão pode ser ingrata financeiramente. Ele veio de uma família de ourives, mas, por acaso, aos 13 anos, em vez de trabalhar na joalheria da família, foi para a relojoaria ao lado, onde aprendeu tudo que sabe. Mas Torres vem do interior. O relojoeiro Nelson Rios acredita que o interesse do jovem da cidade grande é ainda menor e teme pelo futuro dos instrumentos de que cuidou a vida inteira.

Marcados para sempre
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Se nos anos 1960, em Brasília, José Macêdo, 81 anos, gravava canetas, relógios, bandejas e placas com grandes homenagens a políticos, chefes de Estado e casais, hoje, ele conta que o que mais faz é gravar medalhinhas de animais de estimação. Ele garante que tem muita gravação dele no Memorial JK. "Gravei para o Eisenhower (presidente dos EUA) na época do regime militar, para o papa João Paulo II em sua segunda visita ao Brasil, para a rainha Elisabeth, para Honestino Guimarães. Também fiz as medalhinhas dos filhos de João Goulart e de Nelson Piquet", enumera.

Atualmente, tanto os seus serviços são menos procurados quanto os colegas de profissão são raros. A maioria dos clientes é antiga. Os novos aparecem indicados por eles. Quando começou, o ofício também era raro: "Era novidade, então as pessoas ficavam encantadas. Naquela época, era chique ter isqueiro, caneta, canivete, tudo gravado". Aprendeu tudo na relojoaria Portinha de Ouro, nome que guarda com carinho. Lá, consertava-se relógio, caneta, isqueiro e ele foi treinado para gravar nomes nesses objetos. Pela bela letra ele culpa a professora Antonieta, do primário, de quem lembra: "Ela pegava no pé dos alunos de caligrafia. Eu era um dos melhores".

Macêdo foi o primeiro calígrafo do Conjunto Nacional. A história dele, no entanto, passou por diversas cidades até chegar a Brasília. De Euclides da Cunha, no sertão baiano, foi para Feira de Santana, também na Bahia, depois para Salvador. Foi garçom, porteiro e vendedor de jornais. Decidiu, então, tentar a vida em São Paulo. Seguiu os passos de uns camelôs que havia conhecido. Eles lhe garantiram emprego. "Comecei a gravar os produtos que eles traziam para vender", explica. Na capital paulista, chegou a ser responsável pela gravação de todas as medalhas da Corrida de São Silvestre: "Demorei mais de um mês e já estava tonto de gravar a mesma coisa". Até chegar à capital de JK, ainda se aventurou em Uberaba e em Goiânia, mas foi aqui que se encontrou. Hoje, faz parte da história da cidade.

Sob medida
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Enquanto os homens ficam cada vez mais vaidosos e querem a aparência impecável, poucas pessoas se dedicam a arrumar suas roupas. Por um lado, quem faz uma faculdade de moda atualmente — mesmo que se especialize em alfaiataria — procura ter sua própria marca e não arrumar roupas já prontas. Por outro, as costureiras costumam se especializar em roupas femininas, quebram o galho para arrumar uma roupa masculina. Profissionais especializados nessas peças, porém, é difícil de encontrar. José Agostinho de Jesus é uma dessas raridades. "Eu já tive muitos colegas de profissão, mas as pessoas não estão mais aprendendo o ofício. Os curso específicos são poucos", lamenta.

Ele trabalha das 7h à 19h, em uma sala no quarto andar de um prédio do Setor Comercial Sul, no centro de Brasília, mas atende a maioria de seus clientes em domicílio. Quem acha que a preocupação com roupas bem cortadas tem idade, ele desmente: "Eu atendo homens de 20 a 70 anos". E a clientela só aumenta. "Os homens estão mais ligados em moda", admite Agostinho. Perfeccionista e usando tecidos de primeira, tornou-se um profissional reconhecido na cidade — já fez e consertou roupa de muito político — e hoje é um dos poucos na área. Aos 13 anos, a mãe dele colocou cada um dos seis filhos para aprender uma profissão. Agostinho foi para a alfaiataria de um compadre dela, em Caxias. Quando chegou a Brasília, anos depois, começou a aprimorar o que havia aprendido.

O trabalho de Agostinho passa por costurar, consertar roupas e fazer camisas. Chega também a dar consultoria de moda — já que tantos homens precisam de orientação quanto ao que vestir. Ele tem que estar ligado no que já está antiquado em se tratando de roupas: "Algumas pessoas precisam de orientação. Preciso explicar, por exemplo, que o tempo do paletó de três botões já passou. Alguns demoram mais para se acostumar, mas logo cedem à moda atual". Convencer também que os seis botões, à la Sarney, já era, ou que as lapelas largas estão em desuso pode ser um desafio. Isso, porém, é o que faz Agostinho ser um dos alfaiates mais tradicionais da cidade, um dos poucos.

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