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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

As múltiplas faces do amor


postado em 30/09/2014 16:12 / atualizado em 30/09/2014 16:24

Fernanda se apaixonou por um menino, que se apaixonou por outro menino, por quem Fernanda acabou se apaixonando também. E os três viveram felizes não para sempre, mas enquanto durou o sentimento. Ela tinha 12 anos. O amor por pessoas — meninos, meninas, sozinhos ou ao mesmo tempo — nasceu de forma natural para a engenheira agrônoma e blogueira Fernanda Magalhães, de 25 anos, que confessa sentimentos e experiências em textos polêmicos na sua página (www.brisafeliz.com.br).

"A criança não tem a maldade e a pressão do adulto", diz. Seu primeiro namorico da pré-adolescência foi também sua primeira experiência com o poliamor. "Foi minha primeira relação com alguém. Eu nem conhecia o que era o poliamor, se existia ou não, simplesmente aconteceu. Não tinha sexo ainda, mas não era inocente", conta a blogueira. Tinha, no entanto, tudo o que qualquer outro relacionamento tem — ciúme, inclusive. "Meu pai sabia e achava graça. Não sei se sabia do envolvimento dos dois, mas brincava comigo dizendo ‘você e esses seus dois namorados’", lembra. No fim das contas, as descobertas naturais e a fase de amadurecimento acabaram por separar o trio: um dos meninos assumiu sua homossexualidade e pulou fora, e Fernanda ficou em um relacionamento a dois com o outro parceiro por algum tempo ainda.

A vida seguiu, Fernanda continuou se apaixonando — por meninos. "Sempre fui muito emocional, não me envolvo só pelo sexo e só consigo me entregar quando já tenho afinidade com a pessoa", conta. Na faculdade, Fernanda acabou conhecendo um casal e viveu, dessa vez com mais maturidade, sua segunda relação múltipla. "Era natural para mim, para eles, para os nossos amigos. Sempre fui muito afirmativa com relação ao que eu queria e gostava, e acho que isso passava segurança dessa minha liberdade para todo mundo", conta. O relacionamento durou oito meses. "Não vejo problema desde que haja respeito, cumplicidade, e mesmo fidelidade. Saber de terceiros, por exemplo, que uma das pessoas se envolveu com outra, de fora, quebra a magia da relação. Conversar é importante", pondera.

Desde então Fernanda não teve mais relacionamentos poliamoros, mas não é como se evitasse. Os rótulos, ela recusa. "Me vejo como pessoa, que pode vir a se apaixonar, não importa por quem", resume. Mas, ela assume que, mesmo que lide de forma natural com as opções que faz na vida pessoal, sabe que nem todo mundo está pronto para entender sua opção. "Eu tenho receio às vezes porque trabalho em um lugar que sou a mais nova e a única mulher. Eu contrato pessoas, eu dou palestras, dou treinamentos. Então não escondo, mas também não saio abrindo minha vida para qualquer pessoa, porque tenho certeza que vou ser discriminada", lamenta. Foi por isso, inclusive, que bloqueou os comentários dos leitores nas postagens que publica no blog. "Não aceito porque não acho que devo ficar me explicando. Criei o blog justamente para abrir a mente das pessoas. Recebo e-mails inacreditáveis. Alguns me xingam, outros me contam que vivem relacionamentos múltiplos desde sempre, recebo convites, todo tipo de coisa", desabafa.

Ao contrário do clichê que leva ao preconceito — de que relacionamentos que envolvam mais do que duas pessoas não passam de "baixaria" —, Fernanda defende que esse tipo de envolvimento é sempre cercado de respeito. "É incrível esse universo do sexo, da liberdade. Muita gente se reprime por medo, por receio de ser rotulado ou discriminado. Quem se liberta é tratado como vulgar, mas não é nada disso", sublinha. Há pouco tempo ela abriu mão de ser a quarta parte de um relacionamento a três por perder a confiança no rapaz. "Descobri que ele saiu com outra pessoa e não me contou. Não senti ciúme, mas me senti traída. Ele devia ter me contado antes. Aí sim, a coisa parte para a baixaria. Terminei tudo e fiquei na minha".

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