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Dá para confiar no instinto na hora de tomar decisões?

Por Ricardo Teixeira

Pessoas sabidas são muito criteriosas para fazer uma escolha. Podem até fazer listas de prós e contras antes de tomar uma decisão. Mas nem sempre quebrar a cabeça traz os melhores resultados e esse parece ser o caso da apreciação da arte.

Pesquisadores holandeses pediram a dois grupos de voluntários que apreciassem imagens no computador de pinturas e fotografias. Um dos grupos foi encorajado a olhar as imagens de forma bastante cautelosa anotando numa folha de papel as características que gostavam e as que não gostavam. Outro grupo apenas apreciava as imagens sem qualquer orientação de análise consciente. No final, todos eles visualizavam o conjunto das obras, escolhiam a que mais agradava e podiam levar uma impressão para casa numa moldura.

Três a cinco semanas depois os voluntários recebiam uma ligação telefônica e eram perguntados sobre o quanto estavam satisfeitos com o quadro que ganharam numa escala de um a dez. Aqueles que simplesmente apreciaram as obras sem fazer análise crítica estavam mais satisfeitos com o quadro em casa.

O pensamento racional foca-se em algumas poucas variáveis e envolve menos a emoção. Já as impressões mais inconscientes são mais holísticas, integram melhor as diferentes dimensões envolvidas. E essa avaliação inconsciente combina muito mais com o prazer que se tem em frente a uma obra de arte. E não é só para obras de arte que nosso cérebro irracional sabe fazer excelentes escolhas. O cérebro tem a capacidade de absorver sem muita consciência várias informações picadas que serão traduzidas em uma idéia maior. Pode-se chamar esse fenômeno de pré-cognição e explica porque muitas vezes antecipamos algum acontecimento. É o tal pressentimento que parece não ter nada de místico ou paranormal.

*Dr. Ricardo é doutor em neurologia pela Unicamp e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília