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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Na estrada da vida

Depoimentos de pessoas que viajam sozinhas e de bem com a vida. Em comum, o sentimento de pertencer a algo maior: à humanidade


postado em 16/11/2014 08:00 / atualizado em 14/11/2014 19:27

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)


Desbravar novas paisagens por si só, sem companhia, exerce uma atração irresistível. O romantismo da viagem solitária exige autoconfiança para planejar caminhos e enfrentar o imponderável. Demanda alguma paciência e disposição para o novo. Porém, melhor do que listar conselhos genéricos é dar a palavra a experimentados viajantes. Por isso, colhemos cinco depoimentos úteis e sinceros, como o de Leticia Biccas Vasconcellos, 36 anos.

"Viajar sozinha permitiu que me conhecesse melhor e aprendesse a ser mais desinibida. Também foi uma ótima oportunidade para aumentar a minha confiança de modo geral. Afinal, se você consegue desbravar sozinha um destino desconhecido, também consegue rebolar para lidar com os imprevistos da vida", garante a empreendedora.

A timidez perdida, as expectativas de se ver em uma nova cultura e, principalmente, o contato com outras pessoas na mesma situação unem os viajantes de uma forma mais humana. Mesmo rodeados de tanta gente, é preciso dar o primeiro passo em direção ao outro. Quando isso acontece, pode ter certeza: você sempre se sentirá em casa.

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Ao sabor do vento
Até 2010, o redator Leonardo Lima, 24 anos, do blog Tô longe de casa! (tolongedecasa.com), nunca havia entrado em um avião. Ao retornar de Buenos Aires, capital da Argentina, cidade que visitou com uma turma de amigos do curso de espanhol, algo havia mudado. " Voltei com este espírito de viajar o mundo e já planejando outra viagem, com o mesmo grupo. Só que eles foram desanimando e acabou ficando somente eu. Quando vi que iria sozinho, planejei um mochilão na Bolívia, no Chile e no Peru."

E, na distância entre a Casa Rosada e o Palácio do Planalto, Leonardo se tornou um adorador das viagens desacompanhadas. Antes tímido, percebeu que somente aproveitaria as cidades que conheceria por completo se perdesse o temor de conversar com pessoas estranhas. "Fui sozinho, mas, antes mesmo de ir, já tinha combinado de encontrar outras pessoas pela internet. Ninguém se conhecia pessoalmente só que, na mente, eu estava só, já que se desse algo errado, estaria por mim mesmo. Depois disso, comecei a viajar sozinho de fato, principalmente porque falta companhia. E eu não deixaria que as cidades que queria conhecer dependessem dos outros."

Leonardo acredita que você pode até viajar sozinho, mas só continua assim se quiser. "Dentro do avião, antes de chegar a Foz do Iguaçu, vi grupos no avião e fiquei com medo de não falar com ninguém. Mas bastou chegar ao hostel que isso acabou: falei com polonês, coreano, peruano, francês." O redator diz que, acompanhado, é normal que você se feche em seu círculo de amizades. Porém, é na imposição de estar sozinho que as pessoas conseguem se despir da timidez e dão chance para conhecer gente nova. "Sozinho, você está por si e precisa fazer algo para interagir. E é importante lembrar: há sempre outra pessoa viajando sem companhia também."

Mesmo assim, ele garante receber e-mails diários de quem teme viajar sozinho. Dúvidas que vão desde o receio de ser assaltado e sequestrado até temores menores, como as limitações com o idioma. Leonardo, que vai viajar para Dublin, na Irlanda, sem falar inglês, acredita que há uma ilusão atual de que o mundo é perigoso demais. Dessa forma, quem já teme a ideia de sair por si só pelo mundo fica ainda mais assustado com a possibilidade.

"Na primeira vez que viajei sozinho, fiquei com medo. Só que depois vi que não existe esse perigo todo que a gente ouve falar: precisamos manter um cuidado que já temos no nosso dia a dia. E, geralmente, costumo ir a países mais seguros que o Brasil." Para Leonardo, o ideal é ter em mente que, ao escolher essa forma de viagem, tudo ganha um aspecto diferente, já que está sendo visto por um filtro que não depende da aprovação de mais ninguém.

Além da sua. "Quando você viaja sozinho, tudo se torna mais interessante. Sozinho, você tem seu tempo e faz o que quer, na hora em que quer. Um grupo está mais propenso a brigar. Se a pessoa deixa a timidez comandar, ela terá vergonha até de sair do hotel e não vai fazer nada, nem mesmo pedir uma informação. Não há como ser tímido viajando sozinho."
 
(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
A fortuna pertence aos andarilhos
Quando, ainda no ensino médio, o publicitário e blogueiro Rafael Kosoniscs, 30 anos, do Seu Mochilão (seumochilao.com.br), começou a fazer as excursões da escola, percebeu o quanto gostava de viajar. “Percebi naquele período o gosto de estar sem a companhia dos pais, e senti pela primeira vez a sensação de ‘liberdade’. A partir de 2005, comecei a viajar para valer, de forma independente e quase sempre sozinho.”

Foi em Paraty, no Rio de Janeiro, que a saga começou. “Fui pela curiosidade, para saber o que sentiria e o que aquela experiência poderia causar em mim. Foi ali que peguei gosto em viajar desacompanhado. Já rodei praticamente toda a América do Sul, fiz sete viagens pelo nosso continente, seis delas, sozinho.” Para o publicitário, o que mais causa prazer nesses momentos é a autonomia que o viajante tem para determinar o percurso. Nâo há ninguém para agradar além de si mesmo e, dessa forma, não há limitações sobre o que pode ser feito ou não.

E isso torna a preparação também mais interessante. Mesmo que a organização peça os mesmos procedimentos, tudo fica nas mãos de quem viaja. “Procuro mesclar viagem de aventura com viagem  urbana. Procuro destinos que tenham a ver comigo, leio blogs de viagem, converso com amigos, compro guias e elaboro meu itinerário de forma minuciosa, mas com abertura para tempo livre, com a intenção de abrir espaço para oportunidades não planejadas. O inesperado sempre acontece”, frisa Rafael.

E o inesperado pode surgir. Rafael lembra quando, em um ônibus que seguia da cidade de Arica, no Chile, para La Paz, na Colômbia, o veículo parou no acostamento e o motorista se encaminhou para a parte traseira do veículo com o objetivo de ajudar os passageiros a preencherem o papel de imigração. “Esse ônibus não era turístico, só havia eu de estrangeiro. O motorista me pediu para ajudá-lo. Se formaram 2 filas no ônibus, uma para o motorista, e outra para mim. Aquilo mexeu muito comigo. Estava perto do Brasil, mas em uma realidade completamente diferente.”

Aos que ainda temem viajar sozinho, Rafael acredita que essa é o tipo de experiência necessária para todos. “Acho que as pessoas não têm medo de viajar desacompanhado, acredito que o medo seja de ter que lidar somente consigo.” Por isso, ele cita o autoconhecimento permitido pelas viagens solitárias como o maior prêmio de quem decide encarar o desafio.
“Por meio das viagens, descobri que o mundo é muito mais do que ter coisas, de ter que trabalhar uma vida para ter algo. Percebi que adquirir experiências mundo afora é muito mais inteligente do que me saciar com algum item de valor, ou em coisas supérfluas do dia a dia, que costumamos supervalorizar. Viajar sozinho é um caminho sem volta, quem experimenta, não abre mão.”


Leia a reportagem completa na edição nº 496 da Revista do Correio.

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