Publicidade

Correio Braziliense PONTO A PONTO

A moda de fazer sucesso rompe fronteiras da capital federal

Akihito Hira e Julio Andrade assinam a grife brasiliense de moda masculina que ganha cada vez mais espaço fora da capital. Eles já estiveram em importantes eventos de moda nacional e internacional. A última conquista foi ganhar as passarelas do Ceará


postado em 10/09/2017 08:00 / atualizado em 10/09/2017 11:38

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A marca entrou para o line-up do CFW, conquistou os brasilienses e, em 2010, a dupla assinou a coleção Marnoto, inspirada nos trabalhadores das salinas. Apresentaram o trabalho no Moda Hype, no Rio de Janeiro, e, lá, fizeram quatro edições. Um ano depois, Akihito conquistou uma vaga na Associação Brasileira de Estilistas (Abest), dividindo espaço com nomes de peso da modacomo Alexandre Herchcovitch e Glória Coelho.

Foi quando surgiu a oportunidade de fazer o primeiro desfile no exterior, em Medellín (Colômbia), e estouraram na mídia internacional. A mais recente conquista dos responsáveis pela “marca masculina e brasiliense”, como gostam de enfatizar, foi uma vaga no concurso Ceará Moda Contemporânea, um braço mais autoral do Dragão Fashion, o maior evento de moda autoral da América Latina, no qual desfilaram em maio deste ano. O ponto de partida da coleção foi o universo religioso dos vaqueiros. Akihito e Julio Andrade abriram as portas do ateliê deles para a Revista do Correio e falaram sobre o processo criativo da Akihito Hira.

A estreia

Akihito: “Em 2008, mandamos um projeto para o Capital Fashion Week, naquela expectativa: ‘Será que vai dar tudo certo?’, ‘Vamos passar ou não?’. Fomos selecionados e foi aí que tudo começou. Investimos, especificamente, na moda masculina, principalmente, por causa do meu pai, que gosta de uma boa alfaiataria, de um sapato bem engraxado. Nós temos relação de familiares que trabalham com moda: a mãe do Julio é costureira; o meu bisavô e meu avô eram alfaiates e minhas avós eram costureiras.”
Julio: “Na verdade, a nossa formação é completamente diferente da área de moda. Eu sou formado em administração, e ele (Akihito), em ciência da computação. Mas diante do flerte com o design, com a criação e com essa história de famílias que costuram, migramos para o lado da moda. Estava no nosso DNA.”

A moda masculina

Akihito: “A gente percebe que tem uma carência por alfaiataria masculina no mercado. Havia gente procurando algo diferente, mas não encontrava. Só se vê alfaiataria clássica, sempre da mesma forma, das marcas tradicionais. Tudo sempre com ar padronizado. A nossa proposta é a inovação. É uma linguagem com frescor de moda. São peças que transgridem o aspecto do certinho, do clássico. Fazemos uma releitura: desconstruímos a alfaiataria tradicional e estabelecemos com uma linguagem mais contemporânea.”
Julio: “Nós sempre usamos alfaiataria. Trabalhávamos de terno e gravata. Sou ex-funcionário de uma grande empresa de telecomunicações e o Akihito é da área de informática. Então, a escolha também é pessoal.”

Desafios de mercado

Akihito: “Apesar de tragamos algo inovador e diferente do que tem por aí, sentimos dificuldade em entrar no mercado. A aceitação ainda é bem tímida. Acho que a questão é cultural e está enraizada no Brasil, um país extremamente machista. Mas estou confiante de que nós vamos chegar lá. O homem está ficando cada vez mais vaidoso, ele tem vontade de ser elegante, de ter uma aparência mais sofisticada e começa a entender que a questão estética é benéfica. Acho que isso é uma forma de começar a quebrar os paradigmas. A moda masculina em outros países está em outro patamar. Lá, já tem identidade e aceitação. Aqui, está crescendo contida, mas está.”
Julio: “A própria mídia encoraja os homens a se sentirem mais à vontade ao usar roupas mais sofisticadas. Acho que vontade os homens sempre tiveram, mas, em um país preconceituoso como o Brasil, realmente, é mais difícil. É preciso ter alguém na linha de frente e coragem de trazer essa proposta.”

A identidade da marca Akihito Hira

Akihito: “É uma moda slow fashion. Tentamos trabalhar com exclusividade, com peças sob medida. Também tem uma pegada de consumo consciente. Não queremos produzir roupas que, no dia seguinte, com uma simples lavagem, estrague ou não sirva mais. Pensamos em peça atemporal, com boa durabilidade e com bom acabamento. Os tecidos são naturais e não utilizamos trabalho escravo, como vemos em grandes marcas. Isso agride não só o meio ambiente, mas as pessoas também. E essa não é a nossa proposta. A nossa moda é no aspecto de sustentabilidade mesmo, uma grande tendência mundial, inclusive.”

Quem veste

Akihito: “Produzimos moda para homens vaidosos, elegantes. Independentemente da faixa etária, porque tudo depende da atitude e do comportamento. É um homem que se preocupa com roupas que correspondam à sua identidade. E, claro, entende de moda.”

A nova coleção:  O vaqueiro desconstruído pela alfaiataria

Akihito: “A temática do concurso do Ceará Moda Contemporânea era Ceará de corpo e alma. E, durante uma pesquisa profunda, vimos que o Ceará é um estado muito rico em cultura e em artes. Tínhamos muita diversidade para falar a respeito do estado e acabamos chegando à questão do vaqueiro. Não só naquele aspecto rude do arquétipo do vaqueiro. Procuramos nos inspirar na religiosidade deles, porque são muito católicos, acreditam muito nos santos. Eles têm São José como padroeiro e é o santo que está estampado nos forros das peças. Isso fez com mergulhássemos nesse universo. Nós nos inspiramos na indumentária usada por eles, como o gibão de couro, que vestem para se protegerem de espinhos na caatinga. Os arabescos também fazem parte da construção dos vaqueiros. Eles foram feitos à mão, representando a figura do boi.”

A participação no Dragão Fashion

Akihito: “Eu estava com muita expectativa, porque não conhecia o Nordeste. Chegando lá, fomos muito bem recebidos e a organização era impecável. Nós tivemos ainda outra surpresa: ganhamos dois prêmios. Um de excelência — pelo qual avaliam, desde o momento em que se é selecionado e em todo o decorrer da preparação, as trocas de e-mails, o backstage, o tratamento com os fornecedores. E o segundo foi como designer, o grande prêmio, em uma coleção masculina, o que dá muito orgulho para a gente. Foi a primeira vez que alguém levou dois prêmios no evento. Isso também foi muito gratificante.”
Julio: “E eles ficaram confortáveis em chamar a marca para desfilar na próxima edição.”

Os próximos passos

Akihito: “Estamos com muitas ideias, muitos projetos em vista. A gente continua trabalhando muito focado no sob medida, no atendimento personalizado. No ano que vem, vamos lançar uma nova coleção, talvez em maio, que ainda está em total sigilo. Também começamos a vender nossas peças em um espaço colaborativo chamado Espaço 365, localizado na 705 Norte. Lá, estamos vendendo algumas peças da coleção vaqueiros.”
 

(*)Estagiário sob a supervisão de Sibele Negromonte

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade