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Correio Braziliense

Uso de animais em terapias é receita de sucesso para todas as idades

Indicados para ajudar pacientes a vencer problemas emocionais ou físicos, pets trazem resultados e surpreendem


postado em 08/10/2017 08:00 / atualizado em 05/10/2017 14:25

Para os amantes da filosofia, Sócrates foi um dos mais importantes pensadores da Grécia Antiga. Para os amantes do futebol, esse é um dos ídolos do esporte nacional. Já para os irmãos Arthur e André Costa, o cachorrinho que ganhou o nome famoso é um amor, daqueles que ensinam sobre o mundo e ajudam a superar problemas. Os garotos, de 12 e 9 anos, respectivamente, dificilmente largam Sócrates, presente do tio veterinário. Mas essa relação das crianças com os pets nem sempre foi assim.

Bastava ver um cachorro na rua que os meninos se sentiam inseguros. Casa com animal, era melhor nem visitar. O medo pode ter vindo da mãe, que nunca se sentiu bem com os pets, mas também foi dela que partiu a solução para essas e outras complicações. 
Sócrates ajuda Ludmila a se tratar da fibromialgia e une Arthur (E) e André: segurança e responsabilidade(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Sócrates ajuda Ludmila a se tratar da fibromialgia e une Arthur (E) e André: segurança e responsabilidade (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Diagnosticada com fibromialgia, a odontopediatra Ludimila da Costa, 43 anos, ouviu um conselho difícil de seguir, para ela: “Quando eu descobri a doença, que tem cunho psicológico, a médica me aconselhou a arrumar um cachorro. Porque, com ele, você abstrai os problemas, tem que dar comida, dar banho, limpar…”, conta.

Os benefícios terapêuticos dos pets não param por aí, como a veterinária Nayara Brea percebeu com estudos e práticas à frente do Projeto Pet Amigo, da Associação de Voluntários do Hospital de Apoio de Brasília. Para Nayara, a interação frequente com animais traz diversos benefícios, descritos até em artigos científicos. “Podemos citar a diminuição da percepção da dor, o aumento dos níveis de endorfina, que ajuda a diminuir os efeitos da depressão, a diminuição da solidão e a melhora no comportamento social.”

Se Sócrates falasse, poderia se gabar de ser responsável por tudo isso e muito mais. O pet causou surpresa ao chegar ao lar de Ludimila, diminuindo pouco a pouco a aversão da família aos animais e aumentando cada vez mais o afeto das crianças: “O Arthur está na transição da infância para a adolescência, e o cachorro ajudou muito nisso. Ele despertou para a adolescência com as responsabilidadesque o Sócrates trouxe. Com 12 anos, ele sabe das obrigações que tem com o animal dele e sabe que tem que voltar para casa porque alguém depende dele”, exemplifica a mãe.

Família maior

Davi Lucas Castro enfrentava problemas de gente grande. Com apenas 11 anos, sofria de ansiedade, dificuldades na socialização e fobia de animais. A mãe, Luciana Castro, 29, providenciou acompanhamento psicológico, mas nem a psicóloga de Davi imaginava o tamanho do bem que o pet poderia fazer, quando indicou aos pais um cachorro para melhorar o quadro do menino.

Elza e Amora mudaram a rotina e o comportamento de Davi (E) e Isaque: controle da ansiedade e socialização rápida(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Elza e Amora mudaram a rotina e o comportamento de Davi (E) e Isaque: controle da ansiedade e socialização rápida (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Elza, a cadela bichon frisé, chegou ao lar do pequeno com a missão de auxiliar no tratamento da ansiedade, mas se tornou uma das principais amigas de Davi e a primeira responsabilidade do irmão, Isaque Gabriel, 9. Os filhos do bancário Felip Eric, 29, mudaram rotinas, hábitos e comportamentos com a ajuda da pet.

“O Davi sempre teve dificuldade de socialização. Não queria ter amigos nem brincar com os outros. E era muito ansioso, ficava muito voltado para a televisão”, conta Eric. “Depois da Elza, ele ficou mais seguro, passou a se comunicar melhor, a se socializar.”

Isaque não ficou de fora das mudanças. Ele, que não tinha responsabilidades e fugia das obrigações, passou a ter tantos cuidados com Elza que os pais resolveram adotar mais um membro na família, a Amora, mistura de yorkshire e lhasa apso. 

A dedicação das crianças ao cuidar dos pets tem explicação, diz Rita de Cácia, idealizadora da Terapia Cão Carinho: “Os cães não julgam, são alegres e cheios de amor para dar. Eles estimulam o tato, através do carinho e do aconchego, auxiliam na vida social, diminuem a agressividade e até mesmo casos de convulsões”.

O projeto realiza a Atividade Assistida por Animais (AAA), que valoriza o contato entre os animais e as pessoas. Com visitas a hospitais e centros de reabilitação psicossocial, os voluntários do Cão Carinho completam seis anos de serviços. Na bagagem, histórias de crianças que saíram da cama, depois de dias, para brincar com os pets, ou que tiveram mudanças de humor, importantes para o tratamento, após receber a visita dos cachorros.

Davi não chegou a frequentar hospitais e a tomar medicações para alguma doença. Mas ter a Elza ao seu lado pode ter prevenido problemas que o rondavam, além de permitir momentos que seus pais não sabiam como poderiam proporcionar. 

“Foi uma surpresa quando desci do prédio e o vi cheio de crianças ao redor, conversando e brincando com a cachorrinha. Ele falava ‘mãe, eu tenho amiguinhos!’. E na escola, uma vez, a professora nos chamou porque ele estava conversando muito na sala. Nós achamos isso ótimo! Foi um avanço enorme para quem não tinha colegas.”

"O Davi sempre teve muita dificuldade de socialização. Não queria ter amigos nem brincar com os outros. E era muito ansioso, ficava muito voltado para a televisão. Depois da Elza, ele ficou muito mais seguro, passou até a se comunicar melhor, a se socializar mais”
Felip Eric, bancário 

Para brincar (e curar)

- Não existe raça específica para o tratamento terapêutico com animais, mas, para crianças, são indicados cachorros novos que gostem de brincar, como west highland white terrier, labrador, retriever, papillon, beagle, schnauzer, dálmata, golden retriever, fox paulistinha, pastor australiano e o sempre fiel vira-lata.
 
- Existem três tipos de terapias com pets: Atividade Assistida por Animais (AAA), atividade casual com intuito de motivar, recrear e socializar, apresentando benefícios emocionais e cognitivos; Terapia Assistida por Animais (TAA), intervenção com objetivos específicos para cada doença e idade, com animais treinados; e Educação Assistida por Animais (EAA), usada principalmente para auxiliar o trabalho de pedagogos e fonoaudiólogos no desenvolvimento escolar.
 
- Estudo científico comparou o período de internação de pessoas que tiveram a companhia dos animais com os de outras que não tiveram. Entre os que contaram com a ajuda dos bichos, houve diminuição de 16% da medicação e saída antecipada do hospital em até dois dias.
 
 
*Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco / especial para o Correio

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