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Correio Braziliense CAPA

Um celular na mão e (muitas) ideias na cabeça. Será?

Crianças estão cada vez mais conectadas ao mundo virtual. O sonho da vez é ser youtuber, mas redes trazem muitos perigos. Especialistas alertam: controle tem que ser permanente


postado em 08/10/2017 08:00 / atualizado em 05/10/2017 15:35

A conexão virtual anda tão intensa que o mundo mais parece girar em torno da internet que do sol. É comum ver casais em restaurantes dando mais atenção a seus celulares do que um ao outro. Ou turmas de pré-adolescentes em mesas de sorveteria, brincando, juntos, mas cada um em seu próprio aparelho. O comportamento se reflete nas crianças, que se interessam cada vez mais por eletrônicos e menos por uma boa brincadeira em grupo.
 
Além do uso massivo da tecnologia, a forma de usá-la vem mudando com a mesma velocidade e intensidade. Há cerca de uma década, as famílias ainda se reuniam em volta da tevê. Hoje, o barateamento e a intensificação do uso de mídias eletrônicas estão incentivando o contato, por mais tempo seguido, com os equipamentos móveis. A companhia passou a ser o celular.
 
A tecnologia também muda os pacotes de desejos, e ser youtuber virou o sonho de muitos meninos e meninas. Comparável ao de virar um grande jogador de futebol. Se no mundo do esporte preferido do brasileiro a bola dá forma ao sonho, no virtual, basta um celular, um computador ou um tablet à mão para que a fama pareça bem próxima. O que nem todos sabem é que, até atrair muitos seguidores, o processo é longo.
 
Aos 11 anos de idade, a youtuber mineira Julia Silva já coleciona 2,5 milhões de seguidores. Ela mora no Canadá com a família e tinha apenas 6 anos quando começou a fazer os vídeos. Eram destinados ao pai, que passava uma temporada fora do país, a trabalho. O tema era, simplesmente, a sua rotina de criança, com suas brincadeiras, estudos e diversões.
 
Os vídeos agradaram tanto o público infantil que uma marca de brinquedos lançou, no início deste ano, a boneca Julia Silva — outro sucesso entre a criançada. A menina também virou coautora do livro Quero ser uma youtuber, em parceria com a escritora e designer paulista Camila Piva.
A youtuber mineira Julia Silva fez tanto sucesso que já tem boneca no mercado: aos 11 anos, atrai 2,5 milhões de seguidores (foto: Reprodução)
A youtuber mineira Julia Silva fez tanto sucesso que já tem boneca no mercado: aos 11 anos, atrai 2,5 milhões de seguidores (foto: Reprodução)

Em busca da fama 

A brasiliense Camila Florêncio, 11 anos, também está praticamente profissionalizada. Ela sempre quis fazer os próprios vídeos e sonha ser atriz. A mãe, Gracy Florêncio, 39, é pedagoga e se preocupava com o que a filha assistia. Tentava bloquear conteúdos, pesquisava como fazer, mas nunca conseguiu. Decidiu adotar o diálogo.

“Chega um momento em que fica impossível. Ela vai à casa da amiga e eu não tenho como fiscalizar. Então, oriento”, diz ela, que já se considera “mãe de youtuber”. Em janeiro de 2016, Gracy resolveu realizar o sonho da filha: criou o canal Na Mala da Mila, levado tão a sério pelas duas que até contrataram uma pessoa para fazer a logo.

A princípio, a ideia era gravar as viagens que faziam. Mas, segundo Gracy, não eram suficientes para manter o canal ativo o ano todo. A timidez inicial deu lugar a muita articulação em frente à câmera. Agora, os quase 80 mil seguidores do Na Mala da Mila sabem que podem assistir a algo novo todas as quartas e sextas-feiras.

“No início, não havia essa regra. Às vezes, um vídeo quase não tinha visualização porque os seguidores não sabiam que tínhamos colocado algo novo. Tem dia que parece que não vai dar para colocar nada, mas a gente sempre dá um jeito”, conta Camila.
Camila Florêncio tem 80 mil seguidores no Mala da Mila, canal criado no YouTube pela mãe, Gracy: parceria famiiliar(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )
Camila Florêncio tem 80 mil seguidores no Mala da Mila, canal criado no YouTube pela mãe, Gracy: parceria famiiliar (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )

O gerenciamento do tempo é um desafio a mais. Além da escola, das tarefas de casa e dos vídeos, Camila estuda piano, faz balé e tem um personal trainer. É uma forma de vida para que a menina não se dedique só à internet. A função de editar vídeos é de Gracy. Os que as crianças mais gostam são os que mostram a rotina de Camila.

“Eu não tinha rede social. Não sabia nada. Aprendi que ninguém quer ver vídeos perfeitamente editados, cheio de efeitos, como na televisão. A linguagem é diferente e tive que me adaptar à imperfeição. Um vídeo que, para mim, estava ruim, teve mais visualizações que muitos”, compara Gracy.

Com a fama nas redes, vieram pedidos de parceria de marcas, apenas permutas. Em um fim de semana, uma empresa chamou Camila para um “encontrinho” com seguidoras, na loja, em um shopping. O evento atraiu cerca de 20 meninas. “Foi muito legal. Um sonho”, conta a menina. Algumas levaram lembrancinhas, que ela mostrou no canal. O medo era não ir ninguém. Em outro, foram só três pessoas.

Gerenciar as redes sociais da filha virou uma função importante para Gracy. “Tem que pensar em foto, legenda, ideia de vídeo novo. Agora, ainda tenho que criar propostas de parcerias”, diz. A mãe se descobriu na área. Atualmente, até compensaria pagar alguém para fazer tudo isso, mas ela tem medo de não ficar como as duas gostam. “Acho que sou meio controladora”, brinca. 

Pais precisam de limites

Como controlar o uso de equipamentos eletrônicos pelos pequenos é uma questão que suscita dúvidas frequentes entre os pais, revela a pediatra Nathália Sarkis. Ela percebe que as crianças usam os aparelhos por tempo muito acima do limite recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. “Os pais trabalham demais, querem descansar, resolver questões da casa e acabam entregando o celular, o tablet. Como estão ocupados, também não conseguem monitorar o que os filhos estão fazendo”, diz a médica. Nathália aconselha os pais a usar filtros de segurança nos equipamentos, além de fiscalizar conversas.

Em casa, Lígia Marquez controla o uso da internet por Isabella, Marcella e o pequeno Matheus: diálogo, vigilância e permissão para uso de eletrônicos só depois que os filhos fazem todos os deveres (foto: Renata Rusky/CB/D.A Press )
Em casa, Lígia Marquez controla o uso da internet por Isabella, Marcella e o pequeno Matheus: diálogo, vigilância e permissão para uso de eletrônicos só depois que os filhos fazem todos os deveres (foto: Renata Rusky/CB/D.A Press )
Mas nada disso substitui o diálogo, lembra. “Não adianta ficar em cima, impor, proibir. É importante conversar.” Ela conta que muitos pais reclamam que os filhos só querem saber de celular, enquanto as crianças, por sua vez, revelam que os pais também fazem o mesmo. Portanto, é importante que os adultos imponham limites para eles próprios.

Mesmo quando os jogos e desenhos são aparentemente educativos, nada se compara a um pai ou mãe ensinar, explica a pediatra. “Os pais ensinam de forma mais concreta, fazem com que a criança tenha um desenvolvimento cognitivo melhor lendo um livro, conversando. Tudo isso aumenta as conexões neuronais.”

O neuropediatra Christian Müller lembra que, além dos perigos externos, deixar as crianças por muito tempo na internet pode causar problemas de saúde. “O uso excessivo causa males físicos já comprovados, como dores de cabeça, articulares, musculares, alterações visuais e até emocionais, como ansiedade, irritabilidade”, alerta. E a luz da tela atrapalha o sono. 
 


ENTREVISTA //Tania Zagury

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
Afinal, quem manda?

Especialista em educação, Tania Zagury já lançou mais de 10 livros sobre a relação entre pais e filhos. No mais recente, Os novos perigos que rondam nossos filhos — Para papais do século 21, ela aborda os desafios das relações familiares no controle de acesso aos tablets, celulares e redes sociais.

Por que você considerou importante escrever um livro para os novos pais?
 
Criar um filho hoje é mais difícil do que no passado. Os pais estão mais ausentes, precisando trabalhar mais, e, com as novas mídias, a influência externa entra mais cedo nos lares. Além disso, quem começa a criar filhos agora é de uma geração que cresceu com mais liberdades e não quer abrir mão delas, ainda que isso signifique deixar de lado orientações de pediatras e educadores.

Liberar tablet, celular, internet seria uma forma de garantir facilidades?
 
Como são peças motivadoras, fazem com que as crianças fiquem quietas, não deem tanto trabalho. Os pais estão sempre ocupados, daí as crianças ficam no celular, no tablet, em detrimento de outras atividades saudáveis, do contato afetivo, face a face.

E por que os pais acabam cedendo à vontade dos filhos?
 
A gente vive em uma sociedade competitiva, consumista e, por amarem demais, os pais não querem que o filho tenha menos coisa que os outros. É também uma característica dessa geração imediatista que está criando os filhos agora. Ela não gosta de esperar e reproduz isso com os filhos. As crianças percebem e se aproveitam. Se querem algo, usam tudo para ter. Por exemplo, “todo mundo tem celular na sala dele. Coitado, vai ficar excluído”. E a criança vai querer mais. Acaba gerando sofrimento se a gente se pautar pela felicidade momentânea dos filhos. O consumo não pode ser o centro da vida deles. Se eles começam a substituir diversões que tinham antes por ficar na frente da telinha, está errado. Os pais têm que entender que são os adultos da relação. Os filhos estão decidindo por nós.

O que você sugere? Proibir?
 
Não é uma questão de não usar, mas de entender que cada idade exige um uso diferente. A gente ainda não sabe as consequências exatas do uso imoderado dessas tecnologias no futuro, mas sabe que tudo que é excessivo é prejudicial. Se desde pequena a criança tiver regras para usar as coisas, na adolescência ela já estará acostumada. Com 15 anos, pode dar liberdade, mas isso não isenta os pais de conversar sobre os perigos.  



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