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Correio Braziliense

Escritora Martha Medeiros conversa com a Revista sobre a vida aos 50 anos

Para Martha, a chegada da maturidade significa uma vida parte dois, e pode até ser mais jovial e excitante do que a parte um


postado em 23/10/2017 15:14 / atualizado em 23/10/2017 15:21

Na próxima quinta-feira (26/10), a escritora Martha Medeiros, 56 anos, estará em Brasília para um bate-papo sobre o estilo de vida das mulheres maduras. O encontro será conduzido por Kika Gama Lobo, jornalista por trás da hashtag #atitude50. Juntas, elas vão falar sobre a redescoberta e a quebra de antigos padrões no auge da maturidade. Dias antes do talkshow, o Correio Braziliense teve a oportunidade de adiantar um pouco do que Martha pensa a respeito da chegada aos 50. No momento da entrevista, Martha estava preparada para ir ao show do Gal Costa, Gilberto Gil e Nando Reis. “O contato com diversas artes é importante para nos manter jovial”, afirma.


"A gente pode, aos 50 anos, mudar tudo." (foto: Carlos Contreras/Divulgação)
O que muda depois dos 40?
Muda tudo para melhor. É claro que temos algumas perdas com a maturidade, relacionadas à saúde. Vamos perdendo um pouco do pique, os olhos não enxergam tanto quanto antes, mas não viramos pessoas caquéticas. É uma perda da juventude, mas não significa que perdemos a jovialidade: o espírito aberto, o sorriso para a vida. A gente para de se desperdiçar, de procurar encrenca. A gente começa a relativizar os problemas, se dá conta de que nem são problemas, só chateações que todo mundo tem. A gente para de potencializar essas pequenas coisas. A gente percebe que nós mesmas criamos os problemas. Percebemos que o tempo está encurtando e a vida pode ser mais agradável. Pego minha mochila, viajo o mundo.


Como enfrentar as mudanças físicas/estéticas sem perder a autoestima?
A gente tem que se cuidar para não emburrecer. Precisamos fazer ginástica no cérebro. Por isso, é importante o contato com a arte, a música, o cinema. Manifestações artísticas são essenciais para a vida não ficar medíocre, muito ligada a coisas superficiais. Para a gente ver que a existência é mais abrangente e para a gente enxergar nossa alma. A arte é um espelho para a alma. Beleza se vai, e para todo mundo. Mas ser uma pessoa interessante, uma pessoa que viveu experiências e soube extrair delas, se tornou mais sábia, mais forte, é isso que vai nos tornar bonita e jovial. As rugas ficam em segundo plano. A felicidade interior vai direto para o brilho no olhar.


Qual a diferença dos antigos 50 para os de hoje?
Hoje, 50 ainda é muito jovem. A gente tem que obedecer ao corpo e puxar o freio de mão às vezes. Minha mãe tem 80 e faz ginástica, dirige, caminha. Antigamente, uma mulher 50 era uma avó já com o pé na cova. Hoje, a longevidade é maior e isso possibilita renovar as escolhas. Tudo era mais definitivo. Hoje, a gente pode, aos 50 anos, mudar tudo. Começar uma atividade nova, abrir um blog, casar de novo, ir morar em outra cidade, em outro país. É uma vida parte 2, e pode até ser mais jovial e excitante do que a parte 1, quando tínhamos tantos compromissos com o trabalho, com a família. Essa vida é um flash. Muito rápida, muito pequena. Temos que honrar o espaço de tempo que temos aqui, extraindo da vida o máximo, com responsabilidade, ética, decentemente, se respeitando.


Como driblar as inseguranças que vêm com as mudanças?
No meu livro Divã (editora Objetiva), tem uma hora que a personagem, uma mulher na crise da meia idade pensa: “Será que eu quero viver feliz pra sempre?” A pessoa pensa: “Sou casada, tenho um bom emprego e vai ser assim para sempre?” Às vezes, arriscar ser um pouquinho infeliz, mas pelo menos estar em movimento, é libertador. Liberdade e movimento são importantes. A gente não pode se engessar. Claro que não tem que mudar só por mudar, mas se há uma faísca de que algo não está certo, que está acomodada e não satisfeita, vale o risco.


Você acha que o processo é mais difícil para as mulheres do que para os homens?
Internamente, acho que é difícil para ambos. As pessoas têm muitas perguntas, finitude nunca é fácil. Tem o processo da degeneração física, que é lenta e não precisa ser nenhum problema grave, se você cuida da sua saúde. Mas a sociedade ajuda mais o homem por causa da cobrança estética: o homem grisalho é charmoso, a barriga de chope é aceita. É só ver as capas de revistas: a cobrança de ser gata e gostosa a vida inteira. Nos países europeus, as mulheres de 50, 60 anos não estão se enchendo de botox, estão envelhecendo muito bem, obrigada. O objeto de atração lá não é o físico, é o intelecto. A gente ainda está preso ao apelo estético. Nesse ponto, os homens têm uma certa vantagem


Que dicas você dá para as mulheres que sofrem para se sentirem melhores consigo mesmas?
Se permitir ser feliz sem pensar no que os outros vão pensar. Está todo mundo julgando todo mundo, às vezes, de forma agressiva. Estamos numa vitrine com as redes sociais. Ter personalidade para fazer o que se quer, cuidar da saúde com boa alimentação, exercício físico, consultas médicas periódica, tudo isso é importante. Além disso, abastecer o cérebro: sair um pouco da rotina de trabalho e dos filhos para ler, ir ao cinema. E saber que solidão não é um bicho de sete cabeças, porque, quando estamos felizes com nós, não tem essa necessidade de ter alguém.


Muita mulher nessa idade sofre da síndrome do ninho vazio, com filhos saindo de casa. Como enfrentar isso?
Hoje é fácil: minha filha morou três anos na Nova Zelândia e eu falava mais com ela lá do que quando ela estava aqui, trancada no quarto do lado. A gente faz muito drama, principalmente as mulheres. As pessoas acham que levar as coisas com bom humor é superficial. Vai sentir saudade do filho que foi embora, mas cada um toca sua vida. Um dia fomos nós que saímos, é o ciclo natural da vida. O grande segredo é não dramatizar. Tem saudade, é claro, mas tem que ter vida própria preenchida com coisa boas pra não botar no ombro do outro, seja do marido, seja dos filhos.


SERVIÇO

#ATITUDE50 — Talk show com a escritora Martha Medeiros
Data: 26 de outubro de 2017
Hora: 19h
Local: Centro Cultural do Conjunto Nacional (3º Piso)
Evento gratuito limitado a 150 pessoas. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail marketing@conjuntonacional.com.br, de 17 a 23 de outubro 

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