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Correio Braziliense OUTUBRO ROSA

Mulheres deixam o cabelo crescer para doar

Emoção marca mutirão de cabeleireiros para fazer perucas que vão ajudar pacientes de câncer em tratamento.


postado em 29/10/2017 08:00 / atualizado em 26/10/2017 18:41

Sorrisos, emoção e solidariedade marcaram os dias do mês rosa. As ações evidenciaram a necessidade de incentivar a reflexão e a conscientização sobre a importância do combate ao câncer de mama. No Correio, não poderia ser diferente. A última terça-feira, foi especial para os funcionários do Desiderata Hair Institute. Em parceria com o jornal e com o Hospital do Câncer Anchieta, eles realizaram um mutirão para doações de cabelos. E de vida. A iniciativa mobilizou cabeleireiros e mulheres que, inspiradas, deixaram as madeixas crescerem pensando na doação.

Na sala de espera, não havia espaço para mais ninguém, tampouco para desânimo. Nas primeiras horas da manhã, já haviam passado mais de 10 mulheres por lá, todas preparadas para, finalmente, enfrentar as tesouras. A sensação, para muitas, era de dever cumprido: todas saíam de cabelos cortados, certificado na mão e esperança renovada.

Para o cabeleireiro e proprietário do salão, Marcelo Di Mari, a iniciativa é a garantia de que outras pessoas serão ajudadas e terão a autoestima revitalizada. “É uma causa nobre e estamos superdispostos a ajudar. Sempre fazemos ações semelhantes e, agora, ver outras pessoas e locais se mobilizando é muito bom”, disse. O Desiderata Hair abriu, na terça-feira, especialmente para receber o Correio e as doadoras.
Maria Nazaré se emocionou na hora de cortar as longas madeixas:
Maria Nazaré se emocionou na hora de cortar as longas madeixas: "Doar o cabelo ainda é pouco, comparado ao amor que essas pessoas precisam" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Para doar, não era preciso muito. Bastava ter os cabelos com mais de 15cm e vontade de ajudar. Havia espaço para todos os tipos e cores de fios, até mesmo os que já haviam passado por processo químico. Durante o corte, eles eram molhados e as mechas presas a um elástico. Em um cantinho, lá estava Maria Nazaré Mello, 60 anos, ansiosa.

Quando nos aproximamos dela, fomos recebidos com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos — a aposentada pedia desculpas por não conseguir conter a emoção. Há sete meses, decidiu que não cortaria mais nenhuma pontinha das mechas, já grisalhas. Desde então, estava se preparando para o dia tão especial. Chegou cedo ao salão e afirmava a todos que passavam que “o cabelo crescia e o importante era ajudar o próximo”.

Maria Nazaré contou que já acompanhava o projeto da Rede Feminina de Combate ao Câncer, para onde vão as mechas, e que, desde 2008, solidarizava-se com a causa. “Uma amiga fez uma doação e me deu um estalo. Entendi que era isso que precisava. Estou desde março sem mexer no tamanho dos meus cabelos. Sempre ficava de procurar um local para cortar, mas acabava deixando passar.”

A iniciativa de doação, segundo ela, foi uma alegria. “Quando um familiar já passou pelo câncer, ficamos ainda mais sensibilizados. Estou feliz de estar aqui, de colaborar. Doar o cabelo ainda é pouco, comparado ao amor que essas pessoas precisam”, afirmou. Nazaré fez questão de mostrar fotos antigas de seu cabelo e contar o que estava planejando para o corte.

Consciência

O movimento Outubro Rosa foi criado no início da década de 1990, nos Estados Unidos. Logo se espalhou pelo mundo, por meio de ações de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama — o segundo de maior incidência no mundo e o primeiro no sexo feminino.

Cada vez mais cedo

- 60 mil mulheres, em média, são atingidas pelo câncer de mama, todos os anos, de acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
- A cada ano, o tumor atinge mulheres mais jovens.
- Quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, maiores as chances de cura.
- O tratamento provoca a queda dos cabelos e afeta o quadro psicológico das mulheres, interferindo diretamente no processo de cura da doença, segundo especialistas.
- Para ajudar pacientes a levantar a autoestima, a Rede Feminina de Combate ao Câncer, em Brasília, produz e doa perucas a mulheres em tratamento.
 
Raquel nunca havia usado um corte curto: mudança drástica para ajudar pacientes em tratamento(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Raquel nunca havia usado um corte curto: mudança drástica para ajudar pacientes em tratamento (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


A felicidade chega junto

Assim como a aposentada, outras mulheres que chegavam se encantavam pelo clima do local. A vontade de ajudar o próximo fez com que Raquel Veloso, 39, apostasse em uma mudança drástica: apesar de nunca ter usado um corte curto, lá se foi ela, em um ato de coragem. Chegou com os cabelos na cintura e saiu com eles acima dos ombros. “Estou com um bebê pequeno e quase não tenho tempo. Se não fosse essa iniciativa, os cabelos acabariam sendo descartados. Fico feliz em poder ajudar alguém.”

Para o diretor-executivo do Hospital do Câncer Anchieta, Murilo Buso, a doação é uma forma de evidenciar o altruísmo e a compaixão de desconhecidos para com os pacientes que lutam contra a doença. “Nós, que lidamos diretamente com pacientes oncológicos, sabemos como é complicado o processo do tratamento, desde o diagnóstico, a insegurança sobre o desconhecido e as consequências, como a queda dos cabelos”, contou. Segundo ele, o objetivo da ação é estimular e aproximar pessoas, que vivem tão distantes umas das outras, a fazer o bem ao próximo.

Ohara Jorge, cabeleireiro de Brasília,  juntou-se à equipe de Marcelo para participar do evento. “Hoje, vivemos em um momento de ajuda, de contribuição. Nada mais justo procurarmos fazer o melhor para as pessoas. Junto com a satisfação do corte e do visual novo, podemos trabalhar com uma causa nobre, que é a campanha contra o câncer”, ressaltou.
Negro, cabelo de Ligia ia até a cintura:
Negro, cabelo de Ligia ia até a cintura: "Fico muito feliz em poder compartilhar um pouquinho de mim" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A estudante Lígia Maia, 25, chegou ao salão com o cabelo, que deixou crescer por um ano, abaixo da cintura.  E não escondeu a felicidade de voltar para casa sem mais da metade dele. Ela contou que, no ano passado, já havia doado, mas que nunca tinha participado de uma ação como essa. “Antes, pensava que as pessoas não iam gostar de usar o cabelo que era de outra pessoa. Hoje entendo como o propósito é interessante e fico muito feliz em poder compartilhar um pouquinho de mim com os outros.”

Os cabelos doados na ação de terça-feira foram recolhidos pela Rede Feminina de Combate ao Câncer, que, em alguns dias, encaminhará perucas prontinhas ao Hospital de Base. Para todos, o ato de solidariedade proporcionou uma alegria inimaginável. Para a gerente de marketing do Correio, Cristiane Maruyama, o evento foi uma oportunidade de mobilizar e inspirar outras pessoas a praticarem ações como essa, que podem ocorrer mesmo fora do mês de outubro. “É uma solidariedade fácil. Queremos compartilhar experiências e ajudar outras pessoas. É um convite”, enfatiza. 

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