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Correio Braziliense OUTUBRO ROSA

Prevenção faz toda a diferença na cura do câncer de mama

Chances de cura chegam a 95% com o diagnóstico precoce e despencam para 50%, se tumor demorar a ser descoberto


postado em 29/10/2017 08:00 / atualizado em 26/10/2017 19:03

O mês de outubro chega ao fim, mas os alertas quanto ao diagnóstico precoce do câncer de mama prevalecem. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), trata-se do tipo de tumor mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, ficando atrás somente do câncer de pele não melanoma. O número de casos cresce de 5% a 10% ao ano. Quando diagnosticado precocemente, a chance de cura é de 95%, mas, se descoberto mais tarde, a taxa cai para 50%.

Todo câncer é caracterizado pelo crescimento rápido e desordenado das células. O de mama é um tumor maligno que se desenvolve nos seios. Relativamente raro antes dos 35 anos, acima desta idade a incidência cresce progressivamente, especialmente após os 50. Por isso, quando a mulher atinge os 40 anos, aconselha-se que exames de rotina, como a mamografia, sejam realizados pelo menos uma vez ao ano.

De acordo com a oncologista Lorena Amaral, do Laboratório Exame, o câncer de mama é altamente curável, em 90% dos casos, se for descoberto no início. “Quando o tumor é pequeno, existe a possibilidade do tratamento menos agressivo, no qual a mulher não precisa retirar a mama toda, somente o quadrante específico.” Apesar do autoexame de toque das mamas ser essencial quando se desconfia da doença, a médica ressalta a importância da mamografia como forma de detectá-la precocemente.

“Muitas vezes, quando o tumor já é palpável, a cura se torna mais difícil e complicada. Dessa forma, o checape é primordial.” Por mais difícil que seja encarar a jornada trazida por um tumor, cercar-se de pessoas queridas pode servir como grande motivação. “A mulher deve estar confiante na cura e no tratamento que está sendo realizado. O apoio da família é fundamental nesse processo”, orienta Lorena.

Especialista em câncer de mama, o oncologista clínico Eduardo Vissotto, do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, explica que, inicialmente, o câncer de mama é assintomático, mas algumas alterações físicas podem ser indícios do problema. “Caroços nas mamas ou assimetria das mesmas são alguns exemplos mais comuns, mas secreção mamilar ou gânglios na axila são alguns sinais de alerta.”

O especialista afirma que um nódulo na mama não significa necessariamente a existência do câncer. “Grande parte dos nódulos mamários são cistos benignos.” As mamas também se modificam naturalmente ao longo do ciclo menstrual. Porém, se notar alterações e sintomas, é essencial consultar um profissional da área.

Vissotto esclarece que antecedentes familiares têm grande influência no surgimento do tumor e que o histórico hormonal da paciente também pode interferir no quadro. “Menarca precoce, menopausa muito tardia, mulheres que nunca engravidaram ou tiveram a primeira gestação em idade avançada se encaixam nesse perfil.”

Outros fatores de risco estão relacionados ao estilo de vida — a obesidade e o uso de álcool, por exemplo, são associados ao aumento do risco de desenvolver tumor. Mulheres com risco de ter câncer de mama devem fazer mamografia anualmente, a partir dos 40 anos, recomenda o oncologista clínico João Nunes Neto, do Centro de Câncer de Brasília (Cettro).

Já as mulheres que têm parentes de primeiro grau com histórico de câncer de mama devem começar a fazer mamografias anuais 10 anos antes da idade com que a familiar adquiriu a doença, alerta Neto. Segundo o oncologista, “o câncer de mama não é passível de prevenção, mas de detecção precoce, que tem uma taxa de cura acima de 98%”.
"Sempre falo sobre a importância do diagnóstico precoce, ainda mais quando temos algum caso na família. Precisamos pensar mais à frente." Raquel Torres Cordeiro, servidora pública, com as filhas Carolina e Mariana (foto: Arquivo pessoal)

Recomeço

A check list de Raquel Cordeiro, 42 anos, para os planos de se casar e ter filhos, precisou ser deixada de lado aos 35 anos, depois de um exame de rotina. Na consulta, a ginecologista não identificou nada nos seios dela. Mesmo assim, por curiosidade, a servidora pública insistiu com a médica para que solicitasse uma mamografia. “Logo no primeiro exame notamos uma alteração, com microcalcificações agrupadas, o que já caracteriza o câncer. Naquele momento, quase não acreditei. Nunca achamos que vai acontecer com a gente”, conta Raquel.

Ela teve sorte. Descoberto no início, o câncer tinha chances de cura elevadas. Foram 15 dias até que Raquel fizesse a cirurgia de remoção e reconstrução da mama esquerda — em procedimentos seguidos. Ainda assim, a aceitação não foi nada fácil: a moça se viu na obrigação de abrir mão de planos e sonhos para cuidar da saúde. “Quando descobri, negava e não entendia por que estava acontecendo comigo. No momento em que aceitei, vi que o susto e a insegurança fazem parte de todos nós. Comecei a agradecer pela forma como havia sido e pela oportunidade de poder lutar contra a doença.”

O apoio da família e de amigos foi fundamental. Bons profissionais também acompanharam a caminhada de Raquel. Cirurgia feita, o próximo passo seriam as 28 sessões de radioterapia. Mas o sonho da maternidade não poderia ficar de lado. Ela e o marido — na época, namorados —, decidiram, então, começar o tratamento de reprodução assistida e congelamento dos óvulos, que poderiam ficar mais sensíveis e prejudicados após a radiação. O tratamento do câncer terminou em menos de um ano. E, depois de seis anos e duas tentativas, já recuperada, chegou o presente que tanto esperava: ser mãe.

Raquel descongelou os óvulos em 2016 e engravidou. “O processo não foi fácil, mas a batalha me trouxe a realização do que tanto imaginava.” Hoje, junto às pequenas Carolina e Mariana, de 7 meses, a servidora conta sua história com a alegria na voz de quem superou, com muita fé, o câncer que veio no susto. “Sempre falo sobre a importância do diagnóstico precoce, ainda mais quando temos algum caso na família. Precisamos pensar mais à frente.”

Quem também teve que lidar com o susto durante um exame de rotina foi Micheli Amorim, 40. O tumor, na mama direita, já estava bastante avançado, em grau 3. Em uma avaliação na outra mama, os médicos constataram que havia muitos nódulos e que a probabilidade de a doença se espalhar seria grande. Em dezembro do ano passado, a supervisora de lojas foi submetida à retirada completa das mamas. “Na época, morava sozinha com minha filha. Isso me deu forças. Falava para os médicos que não poderia falecer, porque ela precisava de mim.”

A vontade de lutar não deu espaço para a falta de confiança. Micheli se cercou de pessoas boas, energias positivas e apoio de conhecidos. “Tenho muita história para contar nessa vida. Confesso que hoje encaro a situação com tranquilidade”, diz. Ela reconstruiu os seios e a vida. Hoje, ainda em tratamento, acredita que nada é por acaso. “Já passei pela quimioterapia e agora tomo vacinas a cada 20 dias para evitar que meu corpo produza proteínas condutoras das células cancerígenas. Sei que é um processo longo, mas tento me manter forte.” 

Atenção aos cuidados

A Sociedade Brasileira de Cancerologia dá dicas para a prevenção:
- Realizar pelo menos 15 minutos de atividade física por dia (caminhar, subir e descer escadas são ações simples e benéficas).
- Manter uma boa hidratação (ingerir pelo menos 1,5 litro de água por dia).
- Dar preferência às carnes brancas (peixes são mais recomendados).
- Consumir vegetais de todas as cores.
- Dar preferência ao consumo de vegetais crucíferos, que ajudam na prevenção (couve-flor e de Bruxelas, espinafre, rúcula, brócolis, agrião, por exemplo).
- Abandonar o cigarro e não exagerar no consumo de álcool.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
Quando o apoio da família não pode faltar

Andrea Garcia, 44 anos, professora de educação física, comemorou o aniversário ontem. No ano passado, deixou passar sem festas. Acabara de descobrir um câncer de mama. Agora, já não é mais a mesma. “Eu era uma pessoa muito imediatista, queria tudo na hora, era muito certinha, as coisas tinham que ser perfeitas. Estou mais calma, deixo as coisas acontecerem, eu era estressada”, avalia. Ela não decidiu mudar. Aconteceu. A doença lhe deixou a lição de que nenhum aborrecimento vale a pena.

As duas avós de Andrea morreram de câncer de mama. Ela teve melhor sorte. Em julho do ano passado, fez um auto-exame e sentiu um caroço. Pensou que pudesse ser por conta da menstruação e adiou a investigação. “Sempre fui saudável, me exercitei, nunca arranquei nem um dente. Não esperava por isso”, conta. Além disso, havia feito um checape no ano anterior. Descobriu alguns nódulos, mas, de acordo com o médico, eram todos benignos.

Três meses depois, em outubro, em nova ida ao médico, a doença foi diagnosticada. Não havia metástase, mas o tumor na mama esquerda não era pequeno. Era mais agressivo. A mama direita também tinha células cancerígenas. “No dia em que a gente descobre, fica muito mal, não sabe o que fazer, é um estresse muito grande. Mas a minha médica, do mesmo jeito que deu a notícia, já trouxe a solução, o que ajudou muito”, relembra.

O apoio psicológico é um fator importante, tanto na descoberta da doença quanto durante o tratamento, afirma a psico-oncologista do Cettro Isabella Gontijo. “O paciente é encaminhado para avaliação após o diagnóstico, pois é um tratamento em conjunto”, explica. “Por meio de um ‘termômetro de distress’ com indicadores como ansiedade, depressão e qualidade de vida, é possível medir o impacto emocional, como o paciente percebe a doença. Dependendo, é orientado a um tratamento psicológico e fazemos um cuidado individualizado.”

Exaustão emocional

De acordo com Isabella, quando a paciente recebe o diagnóstico de câncer, passa por uma sensação emocional desagradável. O distress acontece quando a notícia excede os recursos pessoais para administrar a situação, causando sobrecarga e exaustão emocional. Aparece quando o organismo não consegue se adaptar a uma nova situação. “Com o devido acompanhamento, com conhecimento e compreensão, ela aprende a superar o estresse e a gerenciar essas emoções”, assegura.

Foi o caso de Andrea, que se mudou para a casa da mãe. Os irmãos se mobilizaram para cuidar dela, uma tia enfermeira veio de São Paulo. “Muitas mulheres são abandonadas quando descobrem o câncer, e faz muita diferença ter esse apoio. Foi um ano em que muita gente se envolveu e me ajudou”, conta.

Menos de um mês depois do diagnóstico, ela fez a primeira sessão de quimioterapia, e o cabelo, que alcançava a cintura, começou a cair. O intervalo entre as sessões era de 21 dias. Mas, depois de cada uma delas, eram 10 dias passando mal. Acordava vomitando. “A quimio me castigou muito. Perdi muito peso. Passei por todo o sofrimento que faz a gente querer desistir”, revela. Diante disso, a perda de cabelo pode parecer superficial, mas ela diz que também é uma parte difícil e lembra como os seus alunos se chocaram com a mudança.

Em fevereiro, Andrea passou pela cirurgia e já saiu do centro cirúrgico com as mamas reconstruídas. Só a mama esquerda precisou da radioterapia. Depois, são cinco anos de hormonoterapia, tratamento mais leve. Aos poucos, ela recupera a força física e os cabelos. Na semana passada, fez a primeira aula de natação. Ainda tem dia que não consegue reunir força para abrir uma garrafa. “Eu achava que ia dar tudo certo, tinha muita fé. Agora, vem a ansiedade para as coisas voltarem ao normal e o medo de ter de novo”, admite. 

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