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Correio Braziliense EXPEDIÇÃO

Caçadores do bem percorrem o país atrás de bons exemplos

Casal percorre o país atrás de bons exemplos, compartilha os "tesouros" no YouTube e em livro. São histórias de cidadania e solidariedade


postado em 31/12/2017 07:00 / atualizado em 01/01/2018 17:25

De repente, um clarão. E dois questionamentos insistentes: qual o sentido da vida? Só existe coisa ruim no mundo? Iara Xavier, 37 anos, e Eduardo Xavier, 49, não estavam fazendo nada de diferente, mas algo, talvez uma intuição, inspirou uma mudança. A sugestão veio de Iara. Simples como chamar para ir à padaria, ela convidou Eduardo para viajar cinco anos pelo mundo em busca de pessoas que fazem a diferença onde vivem. Gente que faz o bem sem esperar nada em troca. Em resposta, simples como dizer sim para um cineminha, Eduardo aceitou.

Já são mais de 405.628km — quase 10 voltas ao mundo — e 1.599 projetos conhecidos e catalogados no livro Caçadores de bons exemplos, em sete anos de viagens pelo Brasil. Mas, espera aí, não seriam cinco anos? E também em outros países? “O brasileiro valoriza muito o que vem de fora, mas precisamos olhar para nós. Percebemos que a mudança tem que ser de dentro para fora. Existem muito mais pessoas boas do que o contrário. E precisamos falar delas para inspirar outras boas ações”, explica Iara.

Era 2008, quando ela teve o que chama de insight — um estalo, intuição. Iara e Eduardo seguiam para a casa dos pais dela, no interior de Minas Gerais, quando decidiram que a missão começaria em janeiro de 2011. “Queria saber de gente que pensa no coletivo e não apenas no próprio umbigo. Era uma questão de mudar não só a vida do casal”, diz ela. “Seria uma transformação pessoal, mas capaz de mudar outras vidas também.”

As histórias estão no livro, relançado recentemente. Gente do Brasil tem convencido o casal de que vale a pena ser brasileiro. Como uma ex-faxineira de Brasília, que criou o projeto Despertar Sabedoria, para resgatar crianças e jovens das drogas e violência. Em um barraco de apenas 18 metros quadrados, Margarida atende 62 crianças, com reforço escolar e aulas de cidadania, e ensina os alunos mais velhos a virar monitores dos mais novos.

Caminho certo

Iara e Eduardo equiparam o carro para a expedição: buracos, falta de estrutura e medo não afastaram o casal da meta(foto: Arquivo Pessoal)
Iara e Eduardo equiparam o carro para a expedição: buracos, falta de estrutura e medo não afastaram o casal da meta (foto: Arquivo Pessoal)
No interior do Amazonas, um adolescente de 14 anos provou ao casal que, mesmo difícil, o caminho escolhido era o melhor. “Ele me perguntou se a gente morava naquele carro e o que a gente fazia. Resumi que estávamos cansados de ouvir notícia ruim e procurávamos pessoas que estão mudando o mundo para contar isso a outras pessoas e elas se motivarem a também mudar”, lembra. A reação do menino surpreendeu Iara.

“Bom, se o maior tesouro que o ser humano tem é a informação, e se vocês estão divulgando essas notícias do bem gratuitamente, então vocês estão distribuindo tesouros. Não conheço ninguém tão rico como vocês”, disse o garoto. Iara chorou, o abraçou e foi contar ao marido. Aquilo amenizava todas as dificuldades, como a lama e os buracos pelas estradas, o medo, a falta de estrutura, as dúvidas. “Disse a Eduardo que nada de mau nos aconteceria, o menino me deu a certeza de que estávamos no caminho certo.”

O emprego — ambos são administradores de empresa —, a casa? Tudo ficou em Divinópólis, interior de Minas. Um capítulo do livro foi reservado para contar como fizeram para se manter. Eles venderam tudo. Restou o carro. Não tinham patrocínio. O dinheiro, gasto com responsabilidade, acabou em janeiro de 2013, dois anos após iniciarem o projeto. Pensaram em financiar o carro, pagar as mensalidades e, no fim do ano, vendê-lo. “Pelo menos viveríamos mais 12 meses na estrada.”

Combustível

Nove meses depois, a dívida foi quitada sem precisar vender o carro. Iara e Eduardo foram convidados para participar do quadro Agora ou Nunca, do Caldeirão do Huck. E ganharam R$ 30 mil. “Foi um combustível para continuarmos. Ganhamos um prêmio que simbolizava um presente do universo”, diz Iara, no livro. O programa foi em 28 de outubro, dia do aniversário dela.

Eles ganharam ainda um VW Delivery, uma espécie de caminhãozinho, que venderam. Para se manterem até hoje, muita solidariedade pelo caminho. “Dependemos das pessoas que encontramos. Cada um nos acolhendo com aquilo que tem de melhor: almoço, jantar, quem é dono de posto abastece o carro. Hotéis nos acolhem, pessoas nos convidam para ficar na casa delas”, detalha Iara.

As dificuldades fortaleceram a relação e os objetivos do casal. “Somos humanos, a todo momento temos medo da falta de dinheiro, entre outros temores. O medo é essencial. Do contrário, pularíamos de uma montanha, achando que somos super-homens”, diz ele. “A diferença é que resolvemos viver o melhor presente que temos: o presente. Você pode dormir hoje e amanhã não acordar. Portanto, viva o hoje. Isso não significa ser inconsequente. Pelo contrário, é viver a vida com significado”, resume.
Chegada ao Acre: pesquisa para descobrir quem faz boas ações é feita nas ruas, com a população (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Chegada ao Acre: pesquisa para descobrir quem faz boas ações é feita nas ruas, com a população (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Termômetro

Como chegar aos bons exemplos? A estratégia do casal é a voz das ruas. “Você conhece alguém que faz a diferença por aqui? Alguém que faz algo de bom para o próximo, que quer melhorar a vida de todos?” Nunca recorreram à internet. No interior de Mato Grosso, o exemplo vem de uma cidade de nome sugestivo, Sorriso. Acusado de ser traficante, usuário de drogas e cafetão, Cléuvis encontrou o rumo certo para a vida dentro da penitenciária. Um simples e apertado abraço o fez se lembrar da infância carente de amor.

Até então julgado pelo que fizera de ruim, o homem decidiu se voltar para o bem. Depois de quitar a dívida com a Justiça, criou a Associação Mãezinha do Céu, que atende mais de 150 crianças no contraturno escolar. Cléuvis e a esposa, marcados por uma triste história, decidiram fazer a diferença na vida das pessoas. Passaram a ajudar crianças e jovens a ficar longe das drogas, enquanto se autoajudavam a se reerguer.

Iara e Eduardo acreditam que ninguém precisa esperar ter tempo para fazer o bem. “É preciso coragem. A vontade de fazer a diferença precisa ser maior do que as desculpas que inventamos. Sensibilizada com os problemas do mundo muita gente é. Mas o bom exemplo é quem deixou de ser só incomodado e virou mobilizador em busca de solução”, compara Iara.

O casal criou um canal diário no YouTube, sempre às 20h, para espalhar as “pílulas de bons exemplos” que encontraram pelo caminho — histórias como a de Marcelo e Maria Luiza, de Londrina, no Paraná, que não tiveram filhos biológicos, mas formaram uma família linda, a Galera de Deus — Escola de Valores. Começaram distribuindo alimentos, mas, ao conhecer as famílias, perceberam que os problemas iam muito além.

Para ajudar a acabar com um dos mais graves — a evasão escolar —, Marcelo e Maria Luiza passaram a doar mochilas, calçados e material escolar para crianças e jovens. Tudo para que não abandonassem os estudos. O casal paranaense atende cerca de 100 crianças do projeto e outras 300 de escolas públicas, com aulas de reforço, oficinas de informática, contações de histórias, passeios e brincadeiras. E fornece refeições às famílias, na esperança de contribuir para um mundo melhor.

Em busca de novos exemplos, Iara e Eduardo terminam o ano em São Paulo e começam o trabalho de 2018 no Rio de Janeiro. O próximo passo é gravar um minidocumentário sobre a expedição. Se eles pensam em parar? Não. “Em 2018, voltaremos às capitais e formaremos multiplicadores”, prometem.

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