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Correio Braziliense SAÚDE

Paralisia do sono assusta e pode acometer qualquer pessoa

Facilmente atribuído ao sobrenatural, transtorno acontece quando o cérebro desperta ainda no sonho e tenta proteger o corpo. Psicoterapia pode ajudar


postado em 21/01/2018 07:00 / atualizado em 22/01/2018 08:41

“Acordei totalmente imóvel, na minha cama. Sentia calafrios e arrepios como nunca havia tido na vida. Parecia, realmente, estar vivendo cenas de filme de terror. Sombras, gritos e vultos rodeavam-me em pleno silêncio da madrugada. Tentava gritar ou me mexer. Sem sucesso. Nenhuma possibilidade de fuga. Em um determinado momento, e de alguma forma inexplicável, meu espírito saía do meu corpo. Deixei-me ser vencido em uma luta de desespero comigo mesmo. E, nesse instante, ouvi uma voz vinda do meu subconsciente falando para eu me acalmar.”

O relato, um tanto perturbador, feito nas redes sociais, pode ser interpretado como algo de fundo sobrenatural. O fenômeno, porém, tem nome e é explicado pela ciência como paralisia do sono. Acontece quando a pessoa, ao dormir, desperta no estágio do sono chamado Rapid Eyes Movements (REM, na sigla em inglês, movimentos rápidos dos olhos, em tradução livre).

A fase anterior ao REM é o Non Rapid Eyes Movements (NREM, movimentos não rápidos dos olhos), que ocupa grande parte da noite e deixa o corpo em descanso, em sono profundo — essencial para recarregar as baterias. 
(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

Especialista em distúrbios do sono, o médico Rafael Vinhal explica que a paralisia ocorre quando o cérebro desperta na etapa REM, dos sonhos, e a pessoa, ainda sem entender que acordou, não consegue falar ou se movimentar. A paralisação momentânea é uma resposta do cérebro para proteger o corpo do problema representado no sonho.

“Acordar assim já é, por si só, desesperador. Se no despertar há elementos do sono REM, a pessoa pode apresentar distorções dos sentidos ou da sensopercepção, ou seja, alucinações. Isso pode tornar a paralisia ainda mais desesperadora”, diz Vinhal. Nesses casos, a pessoa pode se levantar correndo, cair e se machucar. 

Se o fenômeno é associado a outros sintomas, como sonolência diurna excessiva, fragmentação do sono e cataplexia (perda de força muscular repentina), segundo Vinhal, o diagnóstico é de narcolepsia. 

Para o neurologista Raimundo Nonato Rodrigues,  diretor científico da Unidade do Sono de Brasília (USB), toda pessoa está suscetível a ter um episódio de paralisia do sono na vida. A predisposição genética existe e torna o fenômeno mais frequente. “Deve-se tratar com medicações, para reduzir a quantidade do sono REM.” A psicoterapia também pode ajudar. 
 

Palavra do especialista

Haroldo Willuweit de Oliveira, psicólogo pela Pontífice Universidade Católica de Goiás (PUC de Goiás), mestre em ciências médicas pela Universidade de Brasília (UnB)  

Há alguma frequência de ocorrências em quem sofre da paralisia do sono?
É variável, podem ocorrer episódios esporádicos ou com maior frequência, depende de cada caso.

Como diferenciar pesadelo de paralisia do sono, já que muitos confundem as duas coisas?
O pesadelo ocorre durante o sono REM, a pessoa está dormindo. Já a paralisia ocorre após um acordar súbito, em que o corpo se mantém em estado de atonia, ou seja, durante a paralisia, o indivíduo pode estar consciente, apesar de poder ocorrer alucinações. Citarei um exemplo: um casaco pendurado em um cabide pode parecer um vulto de uma pessoa e isso soma-se à ansiedade e ao desespero, no ato da paralisia do sono.

Qual o seu conselho para amenizar ou, até mesmo, evitar episódios de paralisia do sono?
A qualidade do sono reflete na saúde e bem-estar de cada pessoa. Por isso, é importante se preocupar com o sono, e medidas de higiene do sono previnem alguns males que interferem no dia a dia das pessoas. Dormir a quantidade de horas necessárias para sentir-se descansado; horário regular de dormir e acordar, mesmo em fins de semana e feriados; ambiente adequado para dormir (ventilação adequada, luminosidade baixa e baixo nível de ruído); pijama e camisola confortáveis, colchão e travesseiro adequados; atividades físicas regulares (porém, evitar perto do horário de ir para cama); evitar estímulos visuais fortes antes de dormir (como TV, celular e computador, por exemplo); abster-se de refeições pesadas por pelo menos 2 horas antes de dormir; não ingerir bebidas alcoólicas nem cafeína. Esses, entre outros exemplos, poderão ajudar as pessoas que sofrem de males do sono, assim como a paralisia.
  
 
* Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco

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