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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Blocos de carnaval que buscam empoderamento tomam as avenidas

Hora da folia é também o momento de chamar a atenção, de forma criativa e divertida, para a luta de todos contra as várias formas de preconceito, assédio e outras violências


postado em 11/02/2018 07:00 / atualizado em 11/02/2018 17:01

De tão marcante pela irreverência, descontração e alegria dos foliões, o carnaval brasileiro é reconhecido pelos quatro cantos do mundo. Mas nem tudo é festa nos quatro dias de intensa folia. E o que deveria ser apenas brincadeira para agradar a todos acaba, muitas vezes, em assédio e agressão, engrossando os índices de violência que ocorrem durante o ano todo, especialmente contra mulheres e o público LGBT. 

A cada ano, no entanto, as ruas de Brasília vêm sendo ocupadas cada vez mais por foliões, atraídos pela crescente diversidade de blocos. Entre eles, também cresce o número dos que usam a fantasia e a criatividade para combater qualquer forma de preconceito e fazer desse período um momento cada vez mais aberto à pluralidade.

Para Tânia Fontenele, coordenadora de pesquisa do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam) e historiadora especialista em gênero da Universidade de Brasília (UnB), o engajamento desses grupos é muito importante para dar visibilidade a essas questões e construir novas posturas. No carnaval, diz ela, “muitas pessoas acabam confundindo liberdade com disposição. A festa é um momento para todos se divertirem e isso tem que ser agradável”.
O Tuthankasmona triplica o número de foliões a cada ano:
O Tuthankasmona triplica o número de foliões a cada ano: "Espaço de alegria e também de ocupação política, existência e resistência", diz Felipe (2º à esquerda) (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A pesquisadora considera a quantidade de blocos que surgiram com temas voltados ao feminismo e à população LGBT, por exemplo, um ponto positivo. “Essa expressividade é muito legal, porque dá voz a um número maior de pessoas que antes, talvez, não se sentiam tão confortáveis para se divertirem”, ressalta.

É o caso do Bloco das Perseguidas, que desfila na passagem subterrânea da 201 Norte desde 2016, arrastando cerca de 3 mil pessoas. Carnavalesca e uma das fundadoras, Juliana de Andrade, 37 anos, mais conhecida por Jul Pagul, conta que o público do bloco é fiel, e que são pessoas focadas em justiça social, liberdade, autonomia e prazer.

“Amamos nosso público. A diversidade de mulheres que sempre marcam presença, as fantasias, as alegorias e os protestos, tudo é muito cativante” orgulha-se Jul. O bloco surgiu depois de um ataque a Jul em seu antigo estabelecimento, o Balaio Café, em 2013. No local, foram colados cartazes referindo-se a ela, com a imagem de uma macaca e a palavra perseguidas, e desenhos de genitália.

“Então, a gente teve a ideia de criar o bloco, com a proposta de ressignificar as coisas por meio da alegria. Decidimos que, apesar das violências, devíamos manter a nossa voz, a nossa vida criativa. As violências existem, os retrocessos existem, mas a gente não vai se calar nunca”, explica.

Jul vê o carnaval como uma experiência de magia, de criação, de libertação, de catarse — individual e coletiva —, por garantir, na essência, a espontaneidade de cada ser. Assim, diz, a construção política é realizada de forma fluída e orgânica. “Por isso, a importância de pautarmos questões políticas, para que as pessoas percebam que existem muitas outras que são oprimidas, injustiçadas, violadas.”
O bloco Essa boquinha eu já beijei sai junto com o Tuthankasmona, este ano: grupo usa a diversão para buscar um território livre de racismo, machismo e homofobia(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
O bloco Essa boquinha eu já beijei sai junto com o Tuthankasmona, este ano: grupo usa a diversão para buscar um território livre de racismo, machismo e homofobia (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
 

Boquinha que beijei

Foi também no Balaio Café, no fim de 2013, que um grupo decidiu montar um bloco de carnaval composto apenas por mulheres. Depois de conversarem com alguns músicos da cidade, que toparam participar, o bloco Essa boquinha eu já beijei foi lançado em uma roda de samba no pré-carnaval de 2014, lá mesmo, no Balaio.

“Tivemos uma recepção maravilhosa do público e, em seguida, saímos na terça-feira de carnaval daquele ano”, conta a cantora Sam Defor, 30 anos. Desde então, o público abraçou o bloco, que arrastou cerca de 4 mil pessoas naquele ano, e espera um recorde neste carnaval. “Fora o número de pessoas, que cresceu muito, vejo que o público tem fortalecido a identidade do bloco a cada festa”, diz Sam.

O grupo, só de mulheres, tem maioria formada por lésbicas e bissexuais. A cidade, segundo Sam, é ainda carente de espaços nos quais esse público possa se sentir seguro e acolhido durante o carnaval, e não é em todo lugar que a população LGBT pode manifestar seus afetos.

“Muita coisa mudou de 2014 até hoje em relação ao respeito, embora ainda existam conflitos durante as festas. Mas o Boquinha visa um território livre de racismo, machismo e homofobia”, defende a fotógrafa e violinista da banda Irene Egler, 29 anos.
Juliana (d) conta que o Bloco das Perseguidas tem um público fiel:
Juliana (d) conta que o Bloco das Perseguidas tem um público fiel: "A diversidade de mulheres, as fantasias, os protestos, tudo é muito cativante" (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press; )
Além de usar o espaço do bloco para divulgar campanhas contra qualquer tipo de preconceito e assédio, o Essa boquinha eu já beijei utiliza as redes sociais durante todo o ano para isso. Em 2018, o Boquinha se uniu a outro bloco que sai pela terceira vez pelas ruas de Brasília, o Tuthankasmona — Tombando a pyramide. Juntos, aguardam 30 mil foliões.

O Tuthankasmona (“tu tá com as monas”, na linguagem LGBT) surgiu da iniciativa de um coletivo de amigos que, desde 2014, produziam eventos culturais no DF, voltados, principalmente, para o público LGBT. “Com uma defasagem de eventos carnavalescos para essa comunidade, o coletivo resolveu criar o bloco, em 2016”, relembra o produtor cultural Felipe Olalquiaga, 29 anos, idealizador do Tuthankasmona.

No ano de estreia, o bloco levou 5 mil foliões às ruas. Em 2017, superando todas as estimativas, atraiu 16 mil pessoas. Este ano, a festa será no gramado da Funarte. “Um espaço de alegria e acolhimento, mas também de ocupação política, de existência e resistência. Infelizmente, vivemos em um país machista, homofóbico, transfóbico e lesbofóbico”, diz Felipe. Ele lembra que o carnaval é um evento cultural nacional. “Portanto, é importante que seja democrático, acessível e seguro para toda a população brasileira.”

Violência crescente

Somente em 2017, foram registradas mais de 2 mil denúncias de violência sexual contra mulheres, pelo Ligue 180. Em todo o país, esse tipo de ocorrências cresceu quase 90%. Dados da violência contra   LGBTs chamam a atenção: o Brasil figura como o país onde mais se mata essa população, no mundo — 1 a cada 25 horas. Em 2017, ocorreram 445 assassinatos motivados por preconceito contra LGBTs.

Denúncia
Em caso de assédio e violência contra a mulher, ligue 180.

Folia com respeito

A Liga dos Blocos Alternativos de Rua de Brasília criou, em 2018, a campanha virtual Folia Com Respeito, preocupada com os diferentes grupos que são os principais alvos de assédio, violência e  racismo. A ideia é mostrar que bom mesmo é se divertir respeitando a diversão alheia, e que qualquer violação a esse direito deve ser combatido. A campanha utiliza recursos como grafites, nas passagens subterrâneas, para conscientizar a população.
 
*Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco 

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