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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Stealthing, o "golpe da camisinha", preocupa mulheres e autoridades

Prática de tirar o preservativo escondido da parceira durante o ato sexual ganhou o nome de stealthing, lá fora. E acontece também por aqui. É crime. Mulheres precisam redobrar o cuidado, em qualquer situação


postado em 18/02/2018 07:00 / atualizado em 15/02/2018 15:09

Há quem acredite que é uma nova moda. Há quem jure ser algo que homens sempre fizeram, mas que só agora as pessoas estão falando sobre. Além de todas as coisas com as quais as mulheres devem se preocupar quando se relacionam com um homem, muitas descobrem que têm que cuidar de mais uma: ele pode tirar o preservativo escondido.

Com Maria (nome fictício), 26 anos, já faz 10 anos que aconteceu. Ela estava iniciando sua vida sexual. Envolveu-se com um conhecido em uma festa e foi à casa dele. Nas preliminares, insistiu para que ele usasse preservativo. Mas, no meio do sexo, ele o tirou sem que ela visse. Ela percebeu a diferença e foi checar. “Quando vi, parei na mesma hora e fui ao banheiro. Ele ficou bravo. Fiquei com medo de que fizesse algo pior comigo”, relembra Maria.

Para o rapaz, a reação dela foi exagerada. E ele ainda disse, segundo Maria: “Vamos continuar, porque, agora, já foi. Se for pra eu te passar alguma coisa, já passei”. Maria ficou um bom tempo no banheiro esperando que ele adormecesse. A casa onde estavam era muito distante, quase fora da cidade, e ela não tinha como ir embora.
(foto: Patrick Sheandell O'Carroll/Getty Images)
(foto: Patrick Sheandell O'Carroll/Getty Images)

No dia seguinte, ele se ofereceu para deixá-la em casa, mas ela não aceitou. Preferiu se virar sozinha a ficar mais tempo com aquela pessoa. Além disso, foi ao posto de saúde fazer profilaxia, para garantir que não pegaria nenhuma doença, e tomou a pílula do dia seguinte. Maria também decidiu pedir demissão. No emprego, sempre encontrava o homem que a havia enganado e não conseguiria vê-lo mais.

Até hoje, Maria confere sempre, instintivamente, se a camisinha está no lugar. Mesmo já casada e fiel ao marido. Ela não quer ter mais filhos e acredita que, em se tratando de doenças, não dá pra confiar em ninguém. “Desde que isso aconteceu, só transei sem camisinha quando queria engravidar, e nunca mais”, conta.

Dissimulação

O ato de tirar a camisinha escondido durante o sexo já tem até nome. Chama-se stealthing (do inglês, dissimulação). Um estudo sobre esse tipo de atitude, feito pela advogada norte-americana Alexandra Brodzky, foi divulgado no ano passado no Columbia Journal of Gender and Law, publicação científica da Universidade de Columbia, em Nova York.

Em um texto posterior, que escreveu para a norte-americana Vice, Alexandra diz que, antes de o artigo ser publicado, ela se consideraria sortuda se, pelo menos, a mãe dela o lesse. Ela mal imaginava que estava criando uma discussão internacional.
 
Para o trabalho, Alexandra conversou com diversas vítimas e falou sobre as consequências físicas e emocionais dessa violência — das mais óbvias, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada, às demais. Uma das entrevistadas afirmou que um dos prejuízos teve a ver com o sentimento de confiança. "Ele viu como risco zero para ele e não teve interesse no que poderia acontecer comigo, que era amiga e parceira sexual. Isso dói."

Alexandra observou, no estudo, que a lei, em geral, não dá suporte às vítimas: “Soa como algo trapaceiro e desagradável, mas como uma moda passageira”. A situação é ainda pior quando a vítima teve um relacionamento anterior com o agressor. “Juízes e júri tendem a simpatizar menos com elas.”

Proteção da lei

A delegada Sandra Gomes Melo, chefe da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher do Distrito Federal (Deam), orienta as mulheres a procurar uma delegacia especializada sempre que sofrer algum tipo de violência, inclusive no caso do stealthing.  No âmbito legal, ela explica que se trata de uma novidade, mas que cada especificidade pode se enquadrar em crimes que já estão previstos no Código Penal Brasileiro.

“O estupro, por exemplo, é usar violência ou ameaça para conseguir o sexo. Em uma situação hipotética, se o casal está em uma relação consentida na condição de usar preservativo e ele é retirado sem o consentimento da mulher, e ela externa a vontade de parar, mas ele insiste, e usa de violência ou ameaça para manter, é estupro”, explica a delegada. Mas ela também deixa claro que esse não é o único tipo de violência contra a mulher previsto, e que a Deam está preparada para fazer o trabalho de aplicar a lei e protegê-la, inclusive encaminhando-a a hospitais.

A defensora pública Dulcielly Nóbrega de Almeida afirma que a Lei Maria da Penha especifica que a violência pode ser física, moral, psicológica, patrimonial e não necessariamente um estupro. “Como impedir que a mulher use contraceptivo, forçá-la ao aborto, forçar a presenciar algo que ela não quer”, exemplifica.

O artigo 215 do Código Penal, de acordo com a defensora, pode abranger o stealthing: “É a relação sexual mediante fraude: ela deu o consentimento, mas não deu o consentimento para que fosse sem preservativo”. Ela também cita o artigo 130, que trata da exposição a contágio de doença venérea.

“Um caso interessante foi de uma mulher que o rapaz sabia que era soropositivo e se relacionou com ela sem dizer. Ela só descobriu porque engravidou. Ele já tinha feito isso com duas mulheres. Foi preso por lesão corporal grave, porque a doença não tem cura”, explica. O homem tentou alegar que não sabia que tinha Aids, mas foi possível provar que ele havia sido notificado pelo médico antes de começar a se relacionar com as mulheres.

Condenação por estupro

A única condenação por stealthing conhecida até hoje ocorreu em janeiro de 2017, na Suíça. Um casal se conheceu por um aplicativo de paquera e combinou um encontro que o levou à relação sexual. A mulher percebeu que ele tirou o preservativo no meio do sexo e o denunciou. Ele foi condenado por estupro. Nos Estados Unidos, há deputados tentando enquadrar essa prática como crime.

Atenção à saúde

A vítima de stealthing ou de estupro deve, acima de tudo, cuidar da saúde. Conheça o protocolo da Secretaria de Saúde para prevenir doenças sexualmente transmissíveis após uma situação de risco. Os pronto-socorros de todos os hospitais públicos têm os remédios e as vacinas necessárias. O atendimento, portanto, pode ser feito em qualquer horário e nos fins de semana e feriados.
 
A paciente é, depois, encaminhada a um Centro de Referência em DST/Aids, onde será acompanhada por até 90 dias. Se a vítima não souber se tomou as três doses de vacina contra hepatite B, deverá tomar a primeira dose. A vítima receberá o coquetel para profilaxia pós-exposição ao vírus do HIV, que deve ser tomado até 72 horas depois, por 28 dias. Também serão ministrados antibióticos para prevenir gonorreia e sífilis. Doenças como HPV, herpes e clamídia não são prevenidas por essas medicações.
 
De acordo com a Secretaria de Saúde, é preciso esperar que elas se manifestem para, então, tratá-las. Se a mulher não estava usando anticoncepcional, deve tomar a pílula do dia seguinte, para evitar uma gravidez indesejada — idealmente, de seis a 12 horas após a relação sexual. No máximo, 72 horas depois.

Fonte: Eliana Bicudo, coordenadora de Infectologia da Secretaria de Saúde do DF (http://www.saude.df.gov.br)

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