Publicidade

Correio Braziliense EMPODERAMENTO

Primeira transgênero a ocupar alto cargo de governo luta por transparência

Audrey Tang mostra como a inclusão digital é importante no cotidiano das pessoas e na política e chama a atenção ao exigir transparência radical


postado em 18/02/2018 07:00 / atualizado em 15/02/2018 15:25

Há cerca de um ano e meio, a nomeação de Audrey Tang para o Ministério Digital de Taiwan trouxe uma aura de curiosidade e, por que não?, esperança em uma área tão cheia de meandros, como é a tecnologia. Transgênero, anarquista, hacker e jovem, Audrey tem um perfil completamente diferente dos companheiros políticos que ocupam cargos importantes em governos do mundo inteiro.

E ela — ou ele, como faz questão de afirmar quando perguntada como prefere ser designada — se sente orgulhosa de ser assim tão divergente. Segundo a taiwanesa, é importante manter a transparência em dois assuntos cheios de mistérios e bastidores, como a tecnologia e a política.

“Eu sou um hacker sem chapéus, no sentido de alguém que mergulha em um sistema, obviamente, descobre suas falhas, mas, em vez de explorá-lo, cria novos sistemas que não sofrem com as mesmas falhas. Como você pode ver, agora, estou fazendo o mesmo com a comunicação, com os sistemas de governança”, define. “Estou pirateando a sociedade desse jeito. Agora, com uma transparência radical, as pessoas sabem o que o servidor público está fazendo. Eu acho que é uma vitória quando você pirateia o sistema dessa maneira”, completa.
Audrey adota a transparência a partir da própria forma como se auto-define: anarquista e hacker em nome da defesa dos direitos civis(foto: Leonardo Meireles/CB/D.A Press.)
Audrey adota a transparência a partir da própria forma como se auto-define: anarquista e hacker em nome da defesa dos direitos civis (foto: Leonardo Meireles/CB/D.A Press.)
 
Na reunião com jornalistas de várias partes do mundo, em que o Correio esteve presente, Audrey deixou claro no primeiro minuto: aquela conversa estaria disponível por 10 dias para que os participantes pudessem editar, rever algum termo e corrigir. Depois, liberaria para o público. Na gestão dela, a conversa é franca e aberta, algo que vai ao encontro do objetivo dos chefes, uma vez que o governo de Taiwan quer passar para os outros países uma imagem de abertura democrática sem restrições.
 
As cores dos chapéus
Pode parecer racista, mas, no mundo cibernético, os hackers são diferenciados em black hats, white hats e gray hats — chapéus negros, brancos e cinzas, respectivamente. Os chapéus negros são os crackers, que invadem sistemas para benefício próprio, conseguindo senhas de cartões, por exemplo. Os chapéus brancos procuram falhas na segurança de uma empresa para que barreiras mais confiáveis sejam construídas. E os chapéus cinza ficam em cima do muro: às vezes, trabalham para obter ganhos para ele mesmo; às vezes, denunciam problemas para que o setor de informática os corrija.

Caixa zerada

“Eu trabalho para ser radicalmente honesto. Eu trabalho em uma rotina diária. Minha caixa de entrada é sempre zero até a meia-noite. A ideia é que eu possa simplesmente acordar e tentar algo novo, porque não há bagagem de ontem para trabalhar”, aponta o ministro. O trabalho de Audrey e sua equipe consiste em transformar digitalmente todos os ministérios, incluir os cidadãos nesse futuro on-line e fazer com que o governo seja acessível a todos. Para isso, não tem somente “gente dela”.

De uma a três pessoas de outras pastas foram escolhidas para fazer parte desse objetivo. Todos se juntam numa força-tarefa virtual, na maioria das vezes, para compartilhar e completar tarefas. “Tentamos trabalhar com os servidores públicos de carreira — não os políticos — e diminuir o medo, a incerteza e a dúvida em relação à transformação digital. Esse é o meu papel”, diz.

Audrey — que nasceu com o nome de Autrijus Tang — assumiu-se mulher em 2005 e quis mudar o nome para deixar bem claro essa mudança de identidade. Com QI 180, ativista da liberdade de expressão e gênio quando o assunto é computador, ela se encaixou como uma luva no objetivo da presidente Tsai Ing-Wen, por exemplo, no que diz respeito aos direitos LGBT. Assim, a filha de jornalistas se tornou a primeira transgênero num lugar de destaque de governo no mundo.

Aos 36 anos, Audrey acreditava que os funcionários públicos não comprariam a ideia de experimentar novas ferramentas e processos. Mas a forma horizontal com que trabalhou no início fez com que qualquer dificuldade desaparecesse. “Quando eu implementei uma maneira anarquista muito particular de trabalhar, vi que esses desafios eram realmente inexistentes. Eles não se manifestaram.”

É um desafio e tanto para alguém que deixou o colégio aos 12 anos de idade e se tornou um autodidata em códigos; abriu uma bem sucedida empresa de busca na internet antes dos 15; e largou um ótimo (e lucrativo) trabalho na Apple antes de assumir o ministério. Segundo Audrey, ela atua com Taiwan — e com o mundo — para fazer parte de uma agenda de capacitação da sociedade civil a fim de compreender plenamente o funcionamento do governo.

Ela repete: “Isso é o que significa transparência radical”. E alfineta: “Isso existe em contraste com algum outro país — não nomearei nenhum — que deseja controlar o uso das mídias sociais. Em Taiwan, tentamos encorajar uma sociedade civil a se envolver de maneira que os cidadãos se sintam confortáveis”.

E no Brasil?

A pergunta não poderia deixar de ser feita: será que no Brasil esse tipo de iniciativa daria certo? Segundo Audrey, isso já existe por aqui. “É uma colaboração internacional que procura tornar a democracia mais transparente e também mais responsável. Eu vejo isso como um movimento internacional que não é específico para nenhum país”, define.

Afinal, a tecnologia é feita para o bem de todos, sem diferença de classe social, sexo ou idade. E ter um Ministério de Inclusão Social ou atitudes que distribuam essa democracia on-line depende muito da cultura do país e seus líderes. “Eu acho que apenas exige uma mente
aberta”, opina a hacker do bem.

Para Audrey, o fato de ter nascido em Taiwan, um país bem mais aberto e que sabe aproveitar o que vem do Ocidente ao mesmo tempo em que respeita as tradições, ajudou muito. “Mesmo antes da legalização do casamento gay, as pessoas já eram bastante tolerantes com as comunidades LGBT, com expressões diferentes e coisas assim”, lembra. “A geração de meus pais e avós pagou caro por isso e ninguém quer deixar para trás esse tipo de liberdade. A liberdade de expressão assumiu uma posição quase incontestável”, conclui.
 

Pela pluralidade

(na poesia de Audrey)

Quando vemos a Internet de Coisas, vamos fazer dela uma Internet de Seres.
Quando vemos a realidade virtual, vamos fazer dela uma realidade compartilhada.
Quando vemos o aprendizado da máquina, vamos fazer a aprendizagem colaborativa.
Quando vemos a experiência do usuário, vamos falar sobre a experiência humana
E quando ouvimos “a Singularidade está próxima”, lembremo-nos: a
Pluralidade está aqui.

País respira tecnologia

Taiwan, oficialmente, é chamada de República da China, e tem como capital a Cidade de Taipei. O governo, desde 1949, atua na ilha principal e em outras ilhotas ao redor, sem a interferência da China continental. O país é conhecido, principalmente, por causa da fabricação de produtos relacionados à tecnologia, como semicondutores. Não à toa, recebeu, no ano passado, o Congresso Mundial de Tecnologia da Informação, uma das principais reuniões do setor no planeta — e que havia sido realizado em Brasília, em 2016.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade