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Correio Braziliense CAPA

Identidade surda. Alguns nasceram surdos, outros por problemas na gestação

Eles são 10 milhões de brasileiros e, apesar de terem uma língua própria, a Libras, ainda sentem dificuldade em se fazerem entender pela sociedade


postado em 25/02/2018 07:00 / atualizado em 23/02/2018 17:27

Em novembro do ano passado, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), pela primeira vez, contou com prova em vídeo, traduzida para a Libras, de modo a incluir os surdos. Não bastava esse avanço. O tema da redação abordou justamente o universo deles, especificamente os desafios na educação, que são muitos. Mas a ignorância sobre essa parcela da população ainda é grande, a ponto de pipocarem piadas sobre os estudantes se referirem ao signo de libra, da astrologia, e não à Língua Brasileira de Sinais, oficial no Brasil desde 2002.

É comum, inclusive, chamá-los de “surdos-mudos” sem nem imaginar o quanto isso os incomoda. Não há problema físico que os impeça de falar. Até o termo “deficiente” ofende alguns surdos, pois daria a entender que se trata de uma patologia, que lhes falta algo e que precisam ser reabilitados. O melhor é chamá-los mesmo de surdos.

Segundo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, há 10 milhões de surdos no Brasil. É muita gente para colocar em uma mesma caixa, como se fossem iguais. Alguns nasceram surdos por causas genéticas, outros por problemas que as mães tiveram na gestação — estima-se em 50% de cada caso.

Há os que usam Libras. Os que, além dela, falam. Há quem perdeu a audição ao longo da vida ou em um episódio isolado. Há os implantados, que voltam a ouvir por meio de um dispositivo, e os que não cogitam ou nem têm recomendação médica para tal. Mas todos enfrentam desafios que a maioria dos ouvintes que não têm contato com surdos nem imaginam. Para os não reabilitados, coisas simples, como ir ao médico, à delegacia ou ao banco, são difíceis.

Normalidade

O psicólogo clínico Paulo César trabalha com surdos há quase 20 anos. Ele conta que muitos pacientes chegavam até ele com diagnóstico de autismo e deficiência mental. “Posso afirmar que o psiquismo do surdo é semelhante ao do ouvinte. São tão capazes e inteligentes quanto os que ouvem, embora muitos pensem o contrário. Há, atualmente, surdos com mestrado e doutorado, professores universitários, o que demonstra sua capacidade, desde que tenham oportunidades”, garante.

Ele explica que a falta de comunicação e o isolamento tornam o surdo dramaticamente dependente dos ouvintes para tarefas simples, como chamar um táxi, fazer compras, frequentar uma escola, ir ao médico, o que causa transtornos depressivos e rebaixamento da autoestima. “Mesmo no âmbito familiar, o surdo, muitas vezes, é isolado e discriminado. Não participa das conversas, é tratado como “mudinho” (o que detestam). Não exerce seus direitos de cidadania, como ter acesso à informação, pois poucos veículos de televisão investem na apresentação de intérpretes”, lamenta.

Comunicação em família

Lucas e Roberlândia, surdos, com a filha, Isabela, ouvinte: criança é bilíngue e se comunica muito bem com os pais(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
Lucas e Roberlândia, surdos, com a filha, Isabela, ouvinte: criança é bilíngue e se comunica muito bem com os pais (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press )
Isabela, 6 anos, quer ir ao parquinho, mas o pai está ocupado, dando uma entrevista. Ela faz birra: esperneia, porém, sem soltar um “piu”. O chilique dela para os pais é diferente do da maioria das garotas da sua idade, que, em tal situação, provavelmente tentariam chamar a atenção com berros.

Isabela é filha dos digitalizadores Lucas Reis Sarmento, 36, e Roberlândia Sarmento, 40, ambos surdos. A criança aprendeu desde cedo que o som significa muito pouco para os pais. Os gritos típicos de criança contrariada não os atingem, e ela, ouvinte, sabe bem disso. Mesmo assim, a comunicação flui com tranquilidade. Com outros membros da família, na escola, com os amigos e os vizinhos, ela usa o português. Com os pais, a Libras. Isabela é bilíngue. O aprendizado das duas línguas não podia ter sido mais natural.

O contato que Isabela teve com a Língua Brasileira de Sinais desde que nasceu seria ideal para as crianças surdas. Mas não é o que acontece. Muitas delas só vão ter contato com a Libras quando entram na escola ou até mesmo adultos. Segundo Daniele Marcelle Grannier, professora do Departamento de Linguística e Língua Portuguesa e Línguas Clássicas da Universidade de Brasília (UnB), em países como o Canadá, quando uma criança nasce e é diagnosticada com surdez, um funcionário do governo é enviado à casa dela para ensinar a Língua de Sinais Quebequiana para toda a família.

O Teste da Orelhinha, exame que detecta problema de audição, é feito tanto lá quanto no Brasil ainda na maternidade. Desde 2010, é lei fazê-lo assim que o bebê nasce. A cada mil bebês que nascem, uma média de um a quatro tem algum grau de surdez. Apesar do diagnóstico cedo, o acesso à Libras não ocorre do mesmo jeito que no Canadá.

Grannier explica que, por não poder ouvir, a criança surda não tem acesso ao que é necessário para adquirir uma língua oral-auditiva, mas a capacidade para aprender línguas continua disponível. Decorre daí a facilidade com que ela aprende uma língua de sinais, bastando, para isso, conviver com pessoas que usem a Libras em situações naturais.

Sinais improvisados

“A maioria dos pais das crianças surdas é ouvinte, então, eles vão usando sinais improvisados e fica uma lacuna muito grande. Na minha opinião e de muitos estudiosos, a criança surda precisa saber Libras para aprender como o mundo funciona, coisas que a gente nem ensina para uma criança ouvinte, ela simplesmente capta”, explica Grannier, que é doutora em Letras pela Universidade Federal de Alagoas e mestre pela Universidade Estadual de Campinas.

Nos casos de birra de Isabela, Lucas e Roberlândia fazem uma feição séria e explicam o que a filha está fazendo de errado. “Ela sabe que a comunicação comigo e com a mãe dela se baseia muito no visual. Ela precisa olhar pra mim para entender. Mesmo que não queira, que esteja brava”, esclarece Lucas. Embora seja bem oralizado, com anos de fonoaudiologia, a fala dele é boa, mas diferente da de um ouvinte.

As famílias do casal tinham receio de que a neta também nascesse surda, o que não foi o caso. Mesmo assim, era indispensável que Isabela soubesse Libras: a língua dos pais. “No início, ela ficava nervosa de eu e a mãe dela conversarmos por sinais e ela não entender, mas ela foi aprendendo”, relembra. Para chamá-los, ela sabe que tem que usar as mãos.

Tanto Lucas quanto Roberlândia têm, atualmente, dois empregos. A ajuda da mãe dele com Isabela, portanto, é essencial. Ela também aprendeu Libras quando o filho nasceu, mas o pai, não. Estimulado por fonoaudióloga desde cedo, Lucas consegue falar e ler lábios muito bem. Isso garante a comunicação com o pai. 

Pastoral

Em 1982, por iniciativa das Irmãs Calvarianas, e com o primeiro grupo de surdos a crismar no Instituto Nossa Senhora do Brasil (Inoseb), na 714/914 Sul, foi criada a Pastoral dos Surdos, com o objetivo de oferecer à comunidade surda e aos seus familiares serviços para inclusão social, formação cidadã, integração e protagonismo deles. Com a contribuição das irmãs, da comunidade surda, de intérpretes e de órgãos como a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos, a Pastoral celebra a Eucaristia com tradução em Libras todo sábado, às 16h, e tem catequese ministrada por surdos sob supervisão das irmãs. Além disso, a Pastoral oferece curso de Libras para surdos e ouvintes, dá apoio e orientação às gestantes surdas e realiza projetos para incluir os surdos no mercado de trabalho, com cursos e parcerias com empresas.

O desafio da Libras 

É importante diferenciar linguagem de língua. A língua tem estrutura gramatical própria, com regras. Já a linguagem é uma comunicação que pode até ser não verbal, por meio de imagens. Por isso, em 2002, a Língua Brasileira de Sinais, que não se trata apenas de mímica e de gesto soltos, foi, por meio da sanção da Lei n° 10.436,  reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no país: a segunda língua oficial do Brasil, mas não há dados de quantas pessoas a dominam. A Libras seria a primeira língua dos surdos e o português escrito, a segunda.

“Seria” porque, embora para boa parte dos surdos isso seja natural, há quem não veja a oficialização da Libras como uma vitória. “Muitos surdos e profissionais que trabalham com eles têm uma visão sobre a Língua de Sinais como uma forma de comunicação, não atribuindo a ela o status de língua e considerando-a apenas uma alternativa ao português”, explica a fonoaudióloga Liliane Toscano.

Segundo ela, o oralismo é considerado pelos estudiosos uma imposição social. Como consequência do predomínio dessa visão oralista sobre a língua de sinais e sobre a surdez, o surdo acaba não participando do processo de integração social. “Embora a premissa que sustente o oralismo seja a integração do surdo na comunidade ouvinte, ela não consegue ser alcançada na prática pela grande maioria de surdos. Isso acaba refletindo, principalmente, no desenvolvimento de sua linguagem, sendo, então, o surdo silenciado por não ser compreendido”, afirma.

Na trajetória da escritora e empresária Paula Pfeifer, 38, a Libras não teve espaço. Para ela, é um absurdo dizer que ela é a língua do surdo. “Há surdos oralizados como eu, que falam e não usam Libras, e surdos sinalizados, que as usam, mas o senso comum coloca todos no mesmo saco”, afirma.

Ela foi diagnosticada aos 16 anos com perda auditiva bilateral neurossensorial (profunda e nos dois ouvidos). Um processo progressivo. Na infância, a surdez era leve, ouvia só um zumbido. Foi difícil aceitar a condição que se instaurava. “É um processo de luto. Você perde a capacidade de participar das conversas em pé de igualdade, ouve e não entende o que ouviu, não ouve o que te dizem ao telefone. A pessoa perde a independência, mas é impossível disfarçar o indisfarçável, então, saí da concha e decidi escancarar isso para o mundo. Foi libertador”, conta.

Implante

(foto: Marcelo Brum/Divulgação )
(foto: Marcelo Brum/Divulgação )
Paula aprendeu a fazer leitura labial e usou aparelhos auditivos. Mas os aparelhos não dispensavam a leitura, então, decidiu fazer o implante coclear. A cóclea é o órgão que fica na parte mais profunda do ouvido e é responsável pela audição. “Ela tem células ciliadas que transformam a onda mecânica em elétrica e transmite isso para o cérebro”, explica Jeanne Oiticica, médica otorrinolaringologista e chefe do Grupo de Pesquisa em Zumbido do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Segundo a médica, o implante só é recomendado para quem tem anacozia, ou seja, não ouve nada, já tem todas as células da cóclea mortas. Além disso, o problema deve ser no ouvido e não nas células nervosas. “É um eletrodo que coloca dentro da cóclea (que é a usina de força) e que vai estimular o nervo da audição”, afirma. Além disso, a viabilidade dele depende da etiologia da surdez: se foi no nascimento ou depois; se era uma criança que ouvia, mas teve uma doença como meningite, que ossifica a cóclea. “Nos casos pós-linguais, dá mais certo: já falava, já ouvia, já armazenou no cérebro essas informações, fez mapas no cérebro da audição”, explica.

É o que o professor e intérprete Marcos de Brito, presidente afastado da Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos, chama de input linguístico. Ele explica que, para o surdo que já nasce assim e nunca teve contato algum com o som, ou seja, não teve o input, as palavras são visuais. O caso de Paula não foi esse.

As definições para o surdo que já nasceu assim são apenas visuais. A palavra que não tem uma definição visual vai ser dificilmente entendida por esse surdo. “Ele vai ser um eterno dependente, porque o aprendizado vai ser diário. Além disso, sem saber Libras, ele fica sem parâmetro para aprender uma outra língua, no caso, o português”, explica.

O sucesso do implante também depende do input que o surdo teve. “Depende do tempo que a pessoas ficou no silêncio. A pessoa que já nasceu assim e passou 10, 15 anos no silêncio, vai começar a ouvir um monte de coisa que não vai fazer sentido para ela. E pode surtar. Ao mesmo tempo, há irmãos que tiveram resultados diferentes com o implante. Um se adaptou bem, o outro, não”, afirma.

Blogueira

Bacharel em ciências sociais, desde 2007, Paula Pfeifer escreve no blog Sweetest Person, sobre moda, beleza, maquiagem, viagem, gastronomia e literatura. Em 2010, ela criou o blog Crônicas da Surdez, em que escreve sobre o universo dos surdos. Em 2015, lançou um livro com o mesmo nome, também traduzido para o inglês. Mora, atualmente, no Rio de Janeiro. Ela é gerente da Clínica Sonora, de diagnóstico, reabilitação auditiva e implante coclear, local em que também o marido, que é otorrinolaringologista, trabalha.

Surdos e cegos
Alguns surdos têm o quadro clínico agravado pela retinose pigmentar, uma patologia degenerativa que leva à cegueira. O caso mais famoso de superação de uma pessoa que além de surda é cega é o da norte-americana Hellen Keller. Neste ano, ela completaria 138 anos. Ela perdeu a audição e a visão por causa  de uma infecção, quando tinha menos de 2 anos. Suspeita-se de febre escarlatina ou meningite. Com o acompanhamento adequado do médico Alexander Graham-Bell, o inventor do telefone, que trabalhava com crianças surdas, e da professora Anne Sullivan, conseguiu, aos 10 anos, dominar tanto o braile quanto o alfabeto dos surdos. Mais tarde, passou a frequentar escolas comuns. Ela escreveu 12 livros e virou tema de um filme: O milagre de Anne Sullivan, de 1962.

Na direção certa

Depois de quatro tentativas, Khivia conseguiu a tão sonhada carteira de motorista: conquista(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Depois de quatro tentativas, Khivia conseguiu a tão sonhada carteira de motorista: conquista (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A digitalizadora Khivia Fernanda dos Santos, 38 anos, mora com os pais e a irmã. Em casa, fala, lê lábios, usa sinais informais. Mas não Libras. Esta ela só foi aprender na escola. Gosta das duas, tanto que, mesmo usando a língua dos sinais, acaba falando um pouco. “Quando eu era pequena, a escola era oralista, quiseram que eu me oralizasse”, conta.

Ea sempre teve vontade de dirigir. Mas a família se preocupava. Tinha medo que algo pudesse dar errado e ela também ficava insegura. Surdos podem dirigir. Entende-se que o sentido necessário para a direção é a visão. Eles só precisam de um adesivo no carro que identifique sua condição. Segundo o IBGE, estima-se que haja cerca de 10 mil motoristas surdos no Brasil.

Khivia é uma das mais novas surdas com carteira de habilitação. Conta que tinha especial medo de passar por lombadas, mas descobriu que não era a parte mais difícil quando se está dirigindo. Na primeira tentativa, foi reprovada na prova escrita. Na época, o teste ainda não era eletrônico, com exame em português e em Libras. Na segunda vez, ela se esforçou mais e o novo processo também ajudou. Na prática, a situação foi mais complicada: “Fui reprovada três vezes”.

Nas primeiras duas vezes, percebeu que cometeu erros. Mas, na terceira, ela achava que não tinha feito nada de errado. Ficou, então, com uma impressão ruim do avaliador, que não sabia Libras e era o mesmo das outras provas. Na quarta tentativa, pediu que fosse outra pessoa com ela no carro e teve mais sorte.

Estava se sentindo bem e segura, foi à igreja de carro. Mas, na hora de voltar: tempestade. Ficou com muito medo. “Um amigo meu me tranquilizou, eu fui bem devagar e deu tudo certo. Queria usar o carro sempre e treinar mais, mas com a gasolina cara desse jeito, não tem como”, lamenta. 

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