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Correio Braziliense SAÚDE

Menstruação começa a ser discutida com clareza necessária para sair do tabu

Sinônimo de fertilidade e companheira da mulher durante boa parte da vida, a menstruação é odiada pela maioria delas. Com ajuda médica e avanço da ciência, muita gente tem optado por interromper o ciclo e ter controle sobre o próprio corpo


postado em 04/03/2018 07:00 / atualizado em 02/03/2018 14:54

A fertilidade é passageira: alguns dias no mês, por alguns anos na vida. E envolve um ciclo com o qual a mulher tem que conviver. Todo o relógio biológico feminino está ligado à reprodução e isso independe de escolha. Sangrar todo mês coloca a mulher em contato com a natureza dela. Mas nem todas aceitam essa biologia tranquilamente nem têm uma visão romântica da menstruação.
 
Na verdade, a maioria, não. Pesquisa realizada pelo Datafolha, encomendada pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia e pela Bayer, constatou que 55% das brasileiras não gostam de menstruar mensalmente. Para algumas delas, a menstruação está associada a desequilíbrio hormonal, oscilação de humor, cólica e outros sintomas desagradáveis. Além disso, 89% se sentiriam confortáveis em poder decidir quando menstruar.  Elas veem o planejamento como uma forma de ter controle sobre a própria vida.
 
Em geral, a ciência apoia a ideia. O médico ginecologista David Barreira Gomes Sobrinho, presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Brasília, explica que estudos observacionais relacionando variáveis como idade da primeira menstruação (menarca) e da última (menopausa) a alguns tipos de câncer, mostraram que mulheres que menstruam antes de 12 anos e as com menopausa mais tarde (por volta dos 55) corram mais risco de desenvolver câncer de mama. 
 
A explicação é a maior exposição delas aos hormônios produzidos pelos ovários, responsáveis pelo ciclo menstrual. “A melhor alternativa para quem não quer menstruar depende de uma avaliação clínica. Costuma-se indicar anticoncepcionais orais ou injetáveis compostos apenas com progestágenos, que possuem sangramento de escape em menos de 10% dos casos”, diz Sobrinho.
 
Para quem já iniciou atividade sexual, segundo o médico, há a possibilidade de inserção de DIU hormonal, que pode ser usado por até cinco anos, mas até 30% das mulheres continuam menstruando por não bloqueio da função ovariana.” Segundo Sobrinho, haveria riscos em emendar pílulas por conta do excesso de estrogênio, mas isso tem diminuído a cada nova geração de anticoncepcionais. 
 
Entre as consequências, estariam o aumento da pressão arterial, alterações venosas, problemas de coagulação e até maior risco de câncer de mama. “É importante ressaltar que esses riscos não devem gerar alarde, pois as pílulas também contam com vantagens, que costumam superar os riscos quando prescritas por ginecologista.”
 
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Incômodo ou doença?

Há quem, simplesmente, se incomode por não poder entrar na piscina durante a menstruação ou que não goste de sangrar. Mas, para algumas mulheres, a situação é mais séria. As cólicas não são apenas desconfortáveis, mas incapacitantes. O período menstrual é um bom termômetro para indicar se é necessário investigar o corpo. “Nem sempre é uma doença séria, especialmente em mulheres jovens”, tranquiliza o ginecologista César Fernandes, presidente da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. Entre as razões que ele cita para se preocupar estão fluxo sanguíneo muito intenso, coágulos e sangue mais vermelho.
 
Patrícia Filgueira, 43, descobriu que tinha endometriose há mais de 20 anos. “Eu tinha cólicas que me levavam ao pronto-socorro. Era insuportável.” Passou por várias cirurgias, tirou um ovário aos 23 anos. Tinha tecido do endométrio até no apêndice, órgão que também precisou retirar. Na época, não tinha opção, senão emendar cartelas de anticoncepcional. Depois, quando o DIU hormonal foi lançado, ela o colocou, mas tirou alguns anos depois, porque queria engravidar. “Em seis meses, engravidei. Para mim, foi um milagre ter sido tão rápido, já que tinha apenas um ovário.”
 
Em seguida, voltou a emendar cartelas. Ela conta que teve um problema por isso: o útero ficou muito fino, deu uma infecção. Precisou trocar o anticoncepcional. A partir de então, a cada três meses, fazia um intervalo de cinco dias. Apareceram algumas varizes na perna, que Patrícia atribui ao uso do contraceptivo. Há um ano, colocou o DIU hormonal novamente. Ela está entre as mulheres que pararam de menstruar. Não está insatisfeita, mas reconhece alguns problemas. “Tem dia em que minha barriga incha como se eu fosse menstruar. Eu sinto dor nas costas. É como se meu corpo estivesse brigando contra a natureza.”
 

Método contraceptivo

(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
Há quem, porém, se adapte muito bem à falta de menstruação, como Lizbela Almeida, 45. Chega a ser contraditório: usar método contraceptivo já tendo passado pela cirurgia de laqueadura. É exatamente o que a veterinária fez por um tempo da vida. Para algumas mulheres, o uso não tem a ver com prevenir gravidez, mas evitar menstruação ou ter outros benefícios, como diminuir acne, cólica ou até mesmo melhorar a saúde.
 
A tensão pré-menstrual dela incomodava não só ela mesma como toda a família. “Eles reclamavam que eu ficava nervosa sem motivo, irritada”, conta. Tentou de tudo: halopatia, homeopatia, floral, garrafada, tudo em vão. “Tomei até remédio psiquiátrico para transtorno de humor.” Além disso, convivia com o medo de vazar sangue na roupa, o absorvente era incômodo. A vida social e sexual dela ficava comprometida. “Era como se eu não tivesse vida própria.”
 
Até que, um dia, os sintomas ficaram ainda piores. Marcou uma consulta, na qual descobriu que estava com uma anemia grave. O motivo era um mioma. Lizbela, então, precisou colocar o DIU hormonal em 2013. Por um tempo, o método foi suficiente. “Com 15 dias, meus hematócitos foram de 17 para 45”, conta.
 
A menstruação diminuiu e o humor ficou mais estável, mas o mioma continuou perigoso. Só lhe restou retirar o útero. “Na época, os médicos até me disseram que ‘útero é para gerar filho e depois só para gerar doença’.” Hoje, ela se sente livre. “Passei a me sentir viva. Antes, eu vivia amuada.” Os ovários continuaram intactos para evitar menopausa precoce. A experiência de Lizbela com a menstruação era tão ruim e a de parar de menstruar por conta do DIU hormonal foi tão boa que ela convenceu três sobrinhas a também colocarem. Uma delas já é mãe de três filhos, e as outras duas não têm nenhum.

A moda do copinho

Nos últimos anos, foi lançada uma nova opção para evitar que o sangue menstrual suje a roupa. É o coletor menstrual, também chamado de copinho. Em formato de funil, mas fechado na ponta, tem 4cm de comprimento e diferentes diâmetros para se adequar a mulheres mais novas ou mais velhas e que já tiveram filhos ou não. A diferença, porém, é sutil. Também tem um cabo para ajudar na introdução e na retirada.

Segundo o ginecologista e obstetra Domingos Mantelli, o tecido do absorvente (interno ou externo) úmido de sangue pode ser um meio poderoso de cultura de bactérias, que podem causar infecções genitais diversas. A mais branda delas seria a candidíase, e a mais séria, a doença inflamatória pélvica, que se inicia na vagina ou no colo do útero e evolui até atingir o endométrio. Além disso, ele explica que a alternativa é especialmente boa para quem tem alergia a absorventes ou sente desconforto ao usá-los.

Também é interessante o fato de que o copinho, em casos de fluxo comum, só precisa ser esvaziado e lavado a cada 12 horas, diferentemente dos absorventes, que devem ser trocados a cada três ou quatro. Dessa forma, dormir com ele é mais seguro. Além disso, o absorvente interno, por exemplo, incha à medida que é embebido em sangue. Já o copinho permanece do mesmo tamanho ao longo do uso.

O médico ginecologista David Barreira Gomes Sobrinho ressalta que o coletor não é indicado para as virgens, porque ele pode romper o hímen. Já com absorventes internos, não há esse risco.

Autoconhecimento compartilhado

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
O tabu social em torno da menstruação faz com que muitas mulheres sejam induzidas a ter vergonha do próprio sangue, o que dificulta o tão importante processo de se conhecer. Esse ponto foi chave para o surgimento do Manual de Ginecologia Natural e Autônoma, disponível online e criado por Laís Souza, Jaqueline de Almeida, Luma Flôres e Máira Coelho, amigas de Salvador que não aceitaram essa visão. O material viralizou e até deu origem a pequeno curso sobre o tema na capital baiana.
 
Segundo a facilitadora de ginecologia natural Ariadne Hamamoto, a área de conhecimento tenta resgatar o equilíbrio do corpo com base na sabedoria de povos nativos. Em princípio, ela é contra formas de controlar artificialmente os ciclos do corpo. “Se não é um caso de haver um desequilíbrio grave, é melhor métodos naturais, que podem ser tanto fitoterápicos quanto rituais de autoconhecimento”, explica. Para ela, o esforço para não menstruar é suprimir uma manifestação forte do feminino e acontece por causa do “mundo masculinizado, em que a mulher tem que estar produtiva sempre”.
 
O trabalho se expandiu à medida que as amigas produziam o conteúdo. Jaqueline, que trabalha com ações voltadas para o autoconhecimento, autocuidado, desenvolvimento coletivo e afetividade, viu o que seria somente uma cartilha virar algo maior. “Durante o trabalho, fomos percebendo a necessidade de incluir informações mais detalhadas sobre nosso sangue, coletor menstrual e plantas, pois foi a partir dessas experiências que havíamos construído uma outra relação com nosso corpo.”
 
Dividido em 18 capítulos, o manual faz uma análise geral naturalista sobre a anatomia da vagina e do útero, explica assuntos como o ciclo lunar e menstrual e fornece informações sobre plantas medicinais para o cuidado com o corpo feminino. A importância dessas abordagens fica ainda mais clara quando Jaqueline explica a quem o manual é dedicado: “Principalmente às mulheres que não acessam esse tipo de conteúdo na internet, como as de comunidades periféricas e rurais, quilombos, assentamentos e aldeias”.
 
Outra obra que fez sucesso entre as pessoas que abraçam a menstruação como parte de si é a Mandala Lunar, uma agenda para anotações dos ciclos femininos em sintonia aos ciclos da Lua e da natureza. O livro traz ferramentas para o registro diário das sensações físicas, emocionais e energéticas que circulam em nós, tornando as mulheres mais atentas e conscientes a seus movimentos internos e à forma como eles se manifestam no dia a dia.

Auxílio virtual

Pensando em oferecer respostas a tantas dúvidas das mulheres, surgiram sites, aplicativos e redes de apoio on-line a elas.

Maia: disponível para iOS e Android, permite que a usuária escreva sobre os sintomas de cada dia do mês, fazendo com que, ao final dos 30 dias, ela compreenda as mudanças.

Vivasuavida.com.br
: apoiadas por inúmeras organizações em prol da saúde, as mulheres podem aprender de forma didática sobre tópicos como puberdade, hormônios, menstruação. O direcionamento das plataformas a um médico especializado — seja com dicas sobre onde encontrar cuidados, seja sobre quais perguntas fazer na consulta — é parte essencial do sucesso dessa ajuda virtual.

Adeus à fertilidade

(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Calor, estresse, falta de libido. A menstruação vai deixando aos poucos a vida da mulher e dando espaço para a menopausa. Entre os 45 e 55 anos, geralmente, as mulheres entram em uma nova fase, conhecida como climatério. Com ela, alguns sinais, nem sempre agradáveis, passam a fazer parte da rotina feminina.
 
Segundo a ginecologista Raiene de Moraes, só se pode afirmar que uma mulher está na menopausa depois de 12 meses sem menstruar. “A menopausa em si é a última menstruação. O período de transição, que é a queda dos hormônios, é chamado climatério. A duração desse período varia. Tem mulheres que, mesmo após parar de menstruar, continuam com os sintomas do climatério”, explica.
É justamente esse período que tira muita mulher do sério. Os sinais de que a menopausa estava chegando começaram a aparecer na professora Sandra Ferrari, 50, há três anos. Ela conta que os emocionais apareceram bem antes dos físicos. “Eu nunca sofri TPM ou tive cólica, minha menstruação sempre foi regulada. Eu me deparei, aos 47 anos, um pouco incomodada, com mudanças de humor. Estranhei porque essa não era uma característica minha”, lembra.
 
Sandra logo pensou que estava entrando em depressão e, antes de procurar um ginecologista, foi atrás de um psiquiatra. Aos poucos, os sintomas físicos também foram surgindo. “Minha menstruação ficou desregulada, não vinha em um dia, no outro mês vinha.” As baixas de estrogênio, ainda tímidas, também confirmavam que a menopausa estava se aproximando.
Raiene afirma que são vários os sintomas do climatério. Entre os mais comuns, estão as ondas de calor, a falta de libido, a irritabilidade, além de outros, como a flacidez da pele. Para amenizar os incômodos, a médica indica procurar um ginecologista, que poderá fazer uma avaliação hormonal e buscar um tratamento adequado. Sandra conta que o mais difícil não é enfrentar os sintomas físicos, mas, sim, as alterações emocionais.
 
A psicóloga Iolete da Silva explica que, durante esse período, as mulheres ficam mais vulneráveis a irritação, ansiedade e mudanças de humor. “Tudo pode ser corrigido ou, pelo menos, melhorado a partir do momento que ela conhece o que está se passando, para, então, se adaptar e desfrutar dessa etapa da vida”, garante.
 
Consciente da necessidade de manter a mente em sintonia com o corpo, além do acompanhamento do ginecologista, Sandra manteve as terapias psicológicas. “Eu precisava disso. É só uma taxa física e isso vai passar. Não precisa desse sofrimento”, comenta. Para a psicóloga, de fato, muitas mulheres têm dificuldade em passar por esse período, por associarem a menopausa à velhice e à infertilidade. “O importante é cuidar da cabeça e compreender que a menopausa não representa perda, mas, sim, transformação”, enfatiza.
 
Sandra reconhece que no início foi bem difícil. “Tenho sete filhos, a última nasceu quando eu tinha 40 anos. Mesmo mais velha, a sensação de poder reproduzir te dá um entendimento de vida e, quando você perde essa capacidade, é um choque. Agora, eu não posso mais perpetuar a minha espécie, mesmo que eu não queira. Foi-me tirado esse direito.”
 
 

* Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte 

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