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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Mulher contemporânea se divide entre família e profissão diariamente

Divididas entre família e profissão, mulheres contam como é se virar entre quatro e cinco turnos por dia e ainda ver gente se espantando quando dizem que o companheiro %u201Cajuda%u201D


postado em 11/03/2018 07:00 / atualizado em 09/03/2018 18:50

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Debora Penteado (e), Julliana (no meio) e Debora Marquez se desdobram para curtir os filhos Diogo, Maria Luiza e Arthur: 24 horas não cobrem o dia, muito maior para elas (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
“Nana nenê/ Que a cuca vem pegá/ Papai foi pra roça/ Mamãe pro cafezá.” A cantiga popular deixa claro: a criança tem que dormir porque a mãe foi trabalhar. Está aberta a temporada de dúvidas e incertezas. A licença-maternidade afasta a mulher do trabalho, por quatro a seis meses. Como vai ser a rotina? Será que vão cuidar do meu bebê bem? Trabalho e filho, qual a prioridade?

Voltar ao batente significa romper uma rotina estabelecida e criar uma nova agenda que será pautada para quatro e até cinco turnos — o dia da mulher contemporânea, afinal, se desdobra assim. Sobra tempo para pensar em si?

O café da manhã se torna um rali. Preparar a comida, dar banho na criança, levar para a creche, ir para o trabalho, enfrentar o trânsito. No fim do dia, os afazeres se repetem. Com mais um personagem: o cansaço. E, no seguinte, o rito segue.

A jornada da neonatologista Débora Gomes Penteado, 38, a da intensivista-pediátrica Débora Marquez, 34, e a da pediatra Juliana Raquel Brito, 33, ultrapassam as 24 horas do dia. Na semana da mulher, a Revista reuniu as três para entender como a maternidade marca a vida e a rotina feminina.

As mudanças são profundas. Pergunto o que mudou. Elas respondem juntas: “Tudo”. Para elas, os filhos ressignificaram até mesmo o exercício da medicina. Hoje, elas compreendem melhor a aflição da mãe com o filho febril. A internação de um pequeno doente deixa o peito mais apertado.

“Percebi que esse olhar mais humano estava ocorrendo durante a gestação. No hospital, sempre havia um parto prematuro na mesmo idade gestacional que eu estava”, lembra Juliana. A visão humanizada faz algumas leis da medicina ficarem no papel dos livros acadêmicos.

“Quando a gente é mãe e vai atender uma paciente, percebe que algumas coisas só funcionam na teoria. A prática é bem diferente. Como pedir para aguardar 72 horas de febre para levar ao médico? Hoje, compreendo a aflição nessas situações. Como deixar o filho internado e ir para casa?”, questiona Débora Penteado.

Rede de apoio

Pegar a bolsa, o filho, o jaleco branco e iniciar um novo dia exige organização. A palavra de ordem é rede de apoio. “A gente entende que não consegue fazer tudo sozinha. A avó fica com o neto para os pais trabalharem, a vizinha pega na creche quando nos atrasamos no trânsito. O pai aprende a fazer a papinha. É o colega de trabalho que troca experiências. Isso faz a rotina acontecer. Sem essa rede de apoio, fica impossível”, explica Débora Marquez.

A reportagem reuniu as mães e os filhos no fim da manhã da última terça-feira. Maria Luiza, Arthur e Diogo se encontraram pela primeira vez. As crianças têm 1 ano de idade. “Engraçado que eles ‘se conhecem’ desde a barriga, mas nunca estiveram juntos”, observa Juliana.

O bate-papo vai para questões mais amenas da maternidade, como fotografias. “Você fez aquele ensaio?”, pergunta Juliana. Débora Penteado sorri e responde. “Eu não!” Juliana emenda. “Tem quem faz até de Páscoa. Acho um pouco demais”, resume.

Fazer ou não o ensaio fotográfico é o pano de fundo para questões mais profundas. O padrão da rotina das médicas é muitas vezes criticado. “Há mães que não abrem mão de o filho jantar às 17h e às 20h estar de banho tomado. Eu não tenho como, não trabalho no horário comercial, faço plantões de 24 horas… Eu ofereço o melhor que posso. Essa é a rotina dele”, pontua Débora Penteado. Juliana também já ouviu pitacos. “As pessoas não entendem que em cada casa funciona de um jeito.”

Débora Marquez lembra que a rotina — independentemente do estilo de vida adotado — deve ser partilhada com os pais. “Vejo que o comportamento dos pais tem mudado aos poucos. A visão de ‘ajudar’ a cuidar do bebê está sendo desmistificada. Agora, está mais claro que é um dever dos dois. Sem a colaboração mútua não funciona”, destaca.

Juliana concorda, mas acredita que a participação é pequena. “As pessoas ainda ficam surpresas quando conto que meu marido me ajuda na tarefas”, diz. Elas estão certas. Pesquisadora de gênero e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, Tânia Fontenele explica que a participação masculina é essencial para a maternidade.

Atrás do tempo
Sem a divisão das tarefas, a geração de filhos é mais dolorosa. Exige mais da mulher e coloca em risco até a vida profissional. A transformação deve ultrapassar as paredes de casa e invadir as políticas de recursos humanos nas empresas, propõe Tânia, que estuda o tema há 20 anos.

Débora Penteado, Débora Marquez e Juliana fazem um resumo do que a maternidade representa na vida da mulher. O discurso lembra música de Caetano Veloso: “cada uma sabe a dor e a delícia de ser o que é”. A maternidade é diferente em cada mulher, família, mas é gratificante. Para elas, não há arrependimento.

“Hoje eu penso se preciso trabalhar muito ou se posso me adequar a um salário menor para ter mais tempo com meu filho”, reflete Débora Penteado. Aliás, tempo é a única carência das mamães. “Tem dias que a gente quer ir ao salão, passar em uma loja. Aí o papai assume a cena”, diz Débora Marquez.

As mães começam a observar o relógio. O tempo de entrevista acabou. A conversa se estendeu e já se aproxima do horário de almoço. As crianças mostram sinais de cansaço. Elas voltam para a rotina de mãe, mulher, esposa, profissional. “Não é fácil, mas existe prazer”, dizem.

Questiono como fazer com a saudade, já que elas passam boa parte do dia no hospital em que trabalham. “Brincamos com os filhos das pacientes, fazemos videochamadas e vemos fotos. Conseguimos nos adaptar”, afirmam.

Três perguntas para 

Tânia Fontenele, pesquisadora de gênero e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher

O mercado de trabalho está preparado para a maternidade? 
Há organizações que valorizam as mulheres. Em outras, isso não acontece. Dentro das políticas de gestão de recursos humanos tem que se falar em equidade de gênero e empoderamento feminino. Isso contempla a maternidade. Há mulheres que postergam a maternidade, congelam óvulos para esperar outro momento para ter acesso a condições de amamentar, por exemplo. É preciso as empresas criarem espaços para a amamentação, por exemplo.

Em muitos casos, os homens não colaboram com as atividades domésticas. De onde vem isso? 
No Brasil, o patriarcado ainda é muito forte. Meninos fazem isso, meninas, aquilo. Isso tem de mudar. Quem compartilha uma casa deve dividir os afazeres, isso é equidade de gênero. Essas questões nem sempre são discutidas. Às vezes os homens querem ajudar, mas há mulheres com visão machista, pensam ‘só eu sei fazer’. E não pode ser encarado como ajuda. Na administração do tempo doméstico,  as mulheres trabalham mais. E momentos íntimos são sufocados por outros afazeres.

Como a maternidade interfere na carreira profissional? 
São pouquíssimas mulheres que estão no topo da carreira porque elas abrem mão para cuidar dos filhos. Algumas saem do trabalho e, quando retornam ao mercado, não conseguem recolocação no mesmo cargo ou posto. Elas vivem esse dilema. As mulheres têm de romper preconceitos ancestrais. Isso é difícil, mas é possível. Não é preciso negar a maternidade.

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