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Correio Braziliense FITNESS & NUTRIÇÃO

Correr descalço é uma aproximação da ancestralidade e libertação

Ainda faltam estudos para comprovar se é melhor correr descalço ou não. Mas quem experimenta se libertar do tênis se sente com o poder de uma Zola Budd, a sul-africana que venceu a corrida e ainda quebrou recorde


postado em 11/03/2018 07:00 / atualizado em 09/03/2018 19:21

Erik recomenda a quem se lesionou experimentar correr descalço:
Erik recomenda a quem se lesionou experimentar correr descalço: "Será outra mecânica, pode mudar o padrão de movimento que provoca a lesão" (foto: Arquivo pessoal )
No grupo cada vez maior de pessoas preocupadas com alimentação saudável e prática de exercício físico, muitos estão tentando se aproximar cada vez mais de nossos ancestrais. Um dos exemplos é a popularidade da dieta paleolítica, que tira da mesa os alimentos industrializados. Outro, a corrida descalça. Uma volta ao passado, mas não necessariamente um retrocesso.

O clínico-geral Erik Neves, 47 anos, adora correr descalço e acredita que nem conseguiria mais de outro jeito. “Descobri que a corrida ancestral existia quando fui escolher o tênis para a corrida do IronMan 2010. Até então, nunca me ocorrera que o tênis seria algo dispensável, exceto para correr na praia.”

Além de apaixonado pelo esporte, Erik é médico, o que o fez estudar muito sobre o assunto. Acabou se tornando representante do grupo internacional Barefoot Runners Society (Sociedade de Corredores Descalços, em tradução livre), instituição norte-americana, em que a corrida descalça é muito mais popular. “É uma experiência tão prazerosa que quis compartilhar. Escrevi um blog, que tinha uma meia dúzia de leitores”, conta.

Em 2013, Erik fez a edição brasiliense do Dia Internacional da Corrida Descalça (IBRD, na sigla em inglês), que ocorre em várias cidades pelo mundo. Ele diz que apareceu outra meia dúzia de pessoas, por curiosidade. “Em Belo Horizonte, em Curitiba e em São Paulo, alguns colegas juntaram mais uns poucos, mas o público nunca cresceu”, lamenta.

Erik acredita que correr descalço é para os poucos que se aventuram. Mas recomenda a corrida a todos e exibe os pés sem machucados. Nem mesmo a sola é tão grossa. Ele treina descalço até em trilha e garante que não há sofrimento.

Sandália de couro

Se não consegue enxergar onde está pisando, se o terreno pode ter objetos que machucam ou se o asfalto está muito quente, Erik usa um calçado minimalista. “Quando fiz o Ironman, em 2011, o asfalto de lá estava em péssimo estado e correr nele estava me machucando. Como não é para ser sofrido, calcei uma sandália de couro, a mesma que usei na maratona no deserto do Atacama, em 2012, quando a areia começou a queimar meus pés.”

A sandália “é a mesmíssima que usei quando fui ao restaurante no fim de semana passado — inteirinha”, relembra. Para isso, também existe a FiveFinger, uma sapatilha sem amortecimento, que possui um solado emborrachado apenas para proteger os pés de possíveis detritos no trajeto, como se os corredores estivessem descalços.

Para o médico, a principal vantagem de correr descalço é subjetiva. “Eu gosto de correr descalço. Gosto de sentir o chão, eu me sinto livre. No meio de um pelotão de corredores calçados, eu me sinto como se tivesse um superpoder. Talvez você não goste. Você não é obrigado a correr descalço. Só acho que todo mundo deveria experimentar”, declara.

O pé é uma das regiões do corpo com maior número de receptores para tato e dor, com enorme representatividade no córtex cerebral, explica Erik. “Ora, talvez, para se correr corretamente, seja necessário sentir o chão, como mostram alguns estudos. O tênis, por mais fino que seja, tira grande parte dessa sensação. Calce a mais fina das luvas e me diga se não tira uma parte considerável do tato”, compara.

Hora de pousar

Em 2004, um estudo sobre a corrida descalça foi capa da revista científica Nature. O artigo do bioantropólogo Daniel Lieberman, professor do Departamento de Biologia Humana Evolucionária da Universidade de Harvard, comparava o impacto no solo de corredores habitualmente descalços com o de corredores calçados. “Nossa pesquisa questionava como e por que humanos corriam confortavelmente mesmo sem tênis modernos”, explica o professor, no estudo.

“Confirmamos o que já se sabia: os corredores descalços mais experientes tendem a evitar pousar com o calcanhar, mas com o meio ou com a frente do pé. Mostramos que o impacto de pousar com a parte de trás do pé é maior”, explica o estudo. Mesmo assim, ele ressalta que a ideia não é dizer como as pessoas deveriam correr ou que sapatos causam lesões.

No livro Nascido para correr, lançado em 2009, o jornalista norte-americano Christopher McDougall, cansado de sofrer lesões correndo, analisa uma comunidade de índios conhecidos por serem os melhores corredores do mundo — mais do que muitos maratonistas. Ele faz comparações com o estudo de Lieberman e conclui: “Existe uma crescente subcultura de corredores descalços, de pessoas que jogaram os tênis fora, e eles estão se livrando de lesões”.

Um estudo da Delaware University, publicado na revista científica britânica British Journal of Sports Medicine, compara a incidência de lesões entre os que usam tênis para correr e os que o fazem descalços. A pesquisa analisou 201 corredores — 107 descalços e 94 calçados — durante um ano, em 2016. Ao final, concluiu que as taxas de lesões são similares, mas que os impactos são diferentes. A corrida descalça, diz a pesquisa, está menos associada a lesões nos quadris e nos joelhos e tem menor incidência de fascite plantar, mas uma quantidade maior de lesões na panturrilha.

Não há estudos que comprovem se uma das práticas é melhor do que a outra. Alguns fisioterapeutas preferem ser cautelosos. É o caso de Maurício Garcia, coordenador do setor de fisioterapia do Instituto de Ortopedia, Reabilitação e Medicina do Esporte, de São Paulo. “Para corridas longas, especialmente, há o risco de machucar as articulações. Mas, na grama e na areia, por exemplo, acho que é indicado. Não vejo problema também em um trote na esteira ou uma caminhada na praia”, afirma.

Mas, para quem já sofreu uma lesão e pensa desistir de correr, Erik Nenes recomenda tentar. “Será uma outra mecânica, que pode mudar o padrão de movimento que esteja provocando a lesão. Foi por isso que um dos pioneiros da corrida descalça brasileira, o mineiro Leonardo Liporati, largou os tênis. Para nunca mais sentir a canelite que o impedia de praticar o esporte que adora até hoje.”

Através da história

O médico Erik Neves lembra que correr sem sapatos é o que se faz desde sempre na história.
  • Os atletas dos Jogos Olímpicos da Grécia antiga competiam descalços — e pelados — há 2.800 anos.
  • Em 1960, o corredor etíope Abebe Bikila desistiu de usar os novos tênis, que lhe causaram bolhas, e venceu a maratona com um recorde mundial, descalço.
  • Em 1984, Zola Budd, corredora sul-africana, ganhou fama correndo descalça e quebrando o recorde mundial dos 5.000m.

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