Publicidade

Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Reféns de pornografia contam como a compulsão transtornou suas vidas

Celular à mão agrava o vício difícil de se livrar, que se assemelha à dependência química


postado em 18/03/2018 07:00 / atualizado em 19/03/2018 12:37

(foto: Reprodução/Internet)
(foto: Reprodução/Internet)

 
"Foi a experiência mais tenebrosa, desesperadora e solitária da minha vida. Eu me sentia no fundo de um abismo. Tudo ao meu redor era silêncio: silêncio dos amigos, da família e, aparentemente, até de Deus. Vivia completamente sem esperança de que alguém me estenderia a mão para me resgatar."
 
O relato de Sônia* se refere ao tempo em que a moradora de Brasília se sentia refém da pornografia. Ela tinha necessidade de assistir a vídeos eróticos na internet tão frequentemente que outros aspectos da vida começaram a ser prejudicados. Ao perceber que passava tempo demais na busca por esse tipo de material, tentou parar, mas percebeu que não conseguia.
 
A compulsão por pornografia é um fenômeno que ganhou maior dimensão recentemente e ainda divide médicos e cientistas. Enquanto alguns estudos sugerem que os vídeos de sexo explícito podem viciar de fato, como uma droga, outros apontam que tal tipo de dependência ainda não está suficientemente documentado para ser considerado um transtorno ou doença.
 
Porém, em grupos de apoio e consultórios de médicos e psicólogos, são cada vez mais comuns histórias como a de Sônia, o que traz uma certeza: o acesso fácil a conteúdos pornográficos faz com que muitos tenham uma relação pouco saudável com esses vídeos.
 
A trajetória nesses casos, diz Fábio Augusto Caló, especialista em terapia sexual do Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa), se assemelha à de pessoas que se tornam dependentes de substâncias químicas. Uma atividade inicialmente prazerosa passa a ser buscada cada vez mais, até um ponto em que prejudica a escola ou o trabalho e afeta os relacionamentos pessoais.
 
A sensação de impotência e prisão como a narrada por Sônia não é rara e pode levar a quadros de desespero quando a pessoa acha que perdeu o controle sobre a própria vontade. “Não é incomum que o dependente enfrente sérios riscos de suicídio e também se coloque em situações que podem afetar sua saúde física”, alerta o especialista.
 
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
 
 

Cada vez mais 

Para quem estuda o tema, não há dúvidas de que esse é um problema da era digital. Pornografia, lembram os especialistas, praticamente sempre existiu. Era consumida pelos gregos antigos milhares de anos atrás. Mas a internet deixou uma quantidade e uma variedade quase infinita de estímulos acessíveis a qualquer momento, por meio de computadores, tablets e celulares.
 
“Com a internet, a pessoa abre 15 vídeos de uma vez. Ela pode adiantar cenas, ver diferentes tipos de sexo. A quantidade de estímulos a que fica exposta em uma hora é muito maior do que a que um indivíduo, há 40 anos, teria ao longo da vida inteira”, avalia Caló.
 
Para a grande maioria, esse entretenimento, aparentemente, não tem grandes consequências. Levantamento feito pelo Instituto Kinsey, nos Estados Unidos, incluído em um artigo de 2014 da Associação Psicológica Americana (APA), aponta que apenas 9% dos consumidores de pornografia disseram ter sentido vontade de parar e não conseguiram.
 
O índice pode parecer baixo, mas, devido ao imenso número de espectadores, a quantidade de pessoas que sofrem efeitos negativos acaba sendo significativa. Os números relacionados à pornografia on-line realmente impressionam.
 
Dados da revista americana The Week indicam que 12% dos sites — cerca de 76 milhões de endereços — são dedicados a conteúdo explícito. O norte-americano Pornhub, conhecido por divulgar estatísticas de acessos, afirma que, em 2017, recebeu, por dia, a visita de 81 milhões de pessoas de todo o mundo. O Brasil é o 10º lugar no ranking dos países que mais buscam o portal.
 
Tamanha facilidade faz com que até crianças estejam suscetíveis ao consumo exacerbado dessas imagens. “Meu vício com a pornografia começou quando eu era bem jovem, por volta dos 11 anos”, diz Pedro*. “Continuei por muitos anos, ao longo da escola, do primeiro casamento, do divórcio e do segundo casamento. Quando passei por meu segundo divórcio, senti como se não me restasse mais nada”, desabafa.
 

Onde buscar ajuda

Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa)
dasa.saopaulo@gmail.com
 
Fórum Como Parar
 
Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa)
 
Instituto Delete
 
Programa de Recuperação de Dependências
tramontinai@ldschurch.org
 

Real x virtual

O distanciamento no casamento, como o vivido por Pedro, e a dificuldade de encontrar um parceiro são outras consequências muito comuns entre os que passam a consumir pornografia exageradamente. Muitas vezes, a pessoa desenvolve um interesse exclusivo pela masturbação, porque não consegue encontrar prazer em uma relação sexual.
 
Segundo a médica e sexóloga Renata Ribeiro, muitos dos consumidores de pornografia passam a precisar de um tipo de estímulo específico, representado nos vídeos, para atingir o orgasmo. “Se, na vida real, eles não conseguirem reproduzir (o estímulo) na relação a dois, vão ter dificuldade para atingir o orgasmo na frente de outra pessoa. Isso pode ser um empecilho nas relações”, afirma.
 
Foi o que aconteceu com Beatriz*, que começou a assistir a pornografia pelo prazer que alcançava. “Mas isso teve consequências sérias na minha vida”, diz. A prática se tornou cada vez mais constante. Ela passou a visitar os sites três, quatro vezes por semana, até chegar a “muito mais de uma vez por dia”. Durante seis meses, lembra, o hábito chegou a atrapalhar seu sono, fazendo-a passar da hora de dormir.
 
As relações reais, então, passaram a ser afetadas. Tornou-se comum sair com alguém e sentir falta das práticas que via nos vídeos pornôs. Esperava, então, voltar para casa e alcançar o prazer desejado. Em frente ao computador. E sozinha.
 
Um dia, ao ler um artigo sobre o vício em pornografia, reconheceu-se e viu claramente que estava com um problema causado pelo material erótico que consumia. “Entendi o que estava acontecendo comigo. E comecei a ponderar que não valia a pena.”
 
Beatriz passou também a refletir sobre a pornografia. O machismo e a violência presentes na maioria das produções passaram a incomodar também, e ela reduziu a busca por esse material. Mas a mudança não é tão simples. “É fácil, prático. É muito acessível. Eu me policio para não assistir, mas ainda tenho vontade”, reconhece.
 
"Meu vício começou por volta dos 11 anos. Continuei ao longo da escola, do primeiro casamento, do divórcio e do segundo casamento. No segundo divórcio, senti como se não me restasse mais nada”
Pedro (nome fictício)
 
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
 

O desafio de sair da prisão

Não existe uma forma de medir se uma pessoa consome pornografia em excesso. Não há, por exemplo, como estabelecer um número de acessos que seria considerado normal. Por isso, explica a médica e sexóloga Renata Ribeiro, o foco deve estar mais nos prejuízos que o hábito traz do que na quantidade de vezes que ele é realizado.
 
Os prejuízos podem ser tanto físicos — dor, desconforto, aumento de sensibilidade, infecções e até lesões traumáticas mais graves causadas pela masturbação excessiva — quanto psicológicos e sociais. Mas há diferentes formas de buscar ajuda.
 
Psicólogos, sexólogos, grupos de apoio que reúnem pessoas com as mesmas dificuldades podem ajudar aqueles que reconhecem o problema,  mas não conseguem sair dele. Há também serviços oferecidos na própria internet e centros públicos de atendimento psicossocial.
 
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Delete realiza o detox digital, que ajuda a combater a compulsão por vídeos de sexo e por outras formas de uso nocivo da tecnologia. “Antes de a pessoa chegar ao vício, existe o uso abusivo”, explica Eduardo Guedes, pesquisador e diretor do Delete. “Como o celular está sempre perto, para um viciado em pornografia, o smartphone passa a ser um inimigo.”
 
“É preciso buscar ajuda e tentar fazer uma desintoxicação digital, com acompanhamento clínico e psicológico”, aconselha Guedes. As diferentes formas de dependência digital, segundo ele, estão correlacionadas à depressão, ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e ao pânico, entre outros problemas. “Se a pessoa não tinha essas doenças antes do uso extremado, posteriormente pode tê-las.” 
 
LIVRE NA REDE
81 milhões
É o número de pessoas que acessam o Pornhub, por dia. O Brasil é o 10º entre os países que mais buscam o portal
 

Reboot cerebral

Referência na área, o especialista em terapia sexual Fábio Augusto Caló adota um tratamento de reeducação comportamental que começa com a abstinência, aliada a uma técnica chamada reboot (reiniciar) cerebral, que ajuda o paciente a restaurar a sensibilidade natural.
 
A melhor forma de alcançar esse objetivo, diz Caló, é dar ao cérebro um descanso de todo o estímulo sexual intenso, o que inclui, além dos vídeos de sexo, a masturbação, os orgasmos e até as fantasias sexuais. “A pessoa também aprende a controlar padrões de pensamento por meio de meditação, alongamento e respiração. Tudo com o objetivo de desacelerar”, explica.
 
No início, segundo Caló, é muito difícil, porque o cérebro fica privado do estímulo constante da dopamina e outras substâncias neuroquímicas liberadas com a visualização da pornografia. É preciso evitar os chamados gatilhos, como ficar sozinho em casa, ser exposto a imagens eróticas ou vivenciar situações de estresse. Essas medidas enfraquecem as conexões que ligam a satisfação de curto prazo ao pornô, explica o psicólogo.
 
 

Pedido de socorro

O tratamento oferecido por terapeutas em consultórios pode ser potencializado com a participação em grupos de apoio, em que pessoas com o mesmo problema trocam experiências. Foi numa dessas iniciativas, o Programa de Recuperação de Dependências, ligado à religião mórmon, que Sônia* e Pedro* encontraram ajuda para superar a compulsão pela pornografia.
 
Hoje, casado pela terceira vez, pai de uma menininha e realizado profissionalmente, ele lembra que relutou muito em ir ao primeiro encontro. “Mas aprendi que não devia termedo de frequentar as reuniões, mas, sim, de perder as bênçãos e as oportunidades caso não fosse. Lá, só senti amor e aceitação dos que enfrentavam os mesmos problemas”, diz.
 
Sônia também comemora a melhora: “Recentemente, completei um ano e meio de sobriedade. Aprendi que minha dependência sexual é só um sintoma de uma tragédia pessoal muito maior: a falta de percepção do meu próprio valor. Sei agora que sou uma bela filha de Deus. Já não me olho no espelho me achando feia e sem valor”.
 
Outra iniciativa são os Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa), inspirados na filosofia dos Alcoólicos Anônimos (AA). As reuniões ocorrem no salão de uma igreja católica, onde homens e mulheres, casados e solteiros, adolescentes, adultos e idosos trocam experiências e apoiam uns aos outros.
 
Os encontros são uma parte do tratamento, que é gratuito e prevê 12 passos para abandonar gradualmente o comportamento compulsivo. Ricardo* conta que passou a frequentar o grupo há quatro anos, depois que seu casamento de 20 anos terminou. “É uma doença”, acredita. “Quando a pessoa demora para aceitar, como eu, pode acabar com tudo, família, emprego... É importante procurar ajuda o mais rápido possível”, aconselha.
 
Antes de chegar aos Dasa, ele procurou ajuda especializada, mas considera que o grupo foi fundamental. “Dentro de uma sala, com pessoas que fizeram as mesmas coisas que eu, acabo me sentindo mais à vontade para contar a verdade”, analisa. “Aos poucos, eu fui me libertando, vendo que eu não era maluco, que, na verdade, precisava aprender a controlar a doença antes que ela acabasse comigo.” (GV e HL)

Rede pública 
Segundo o Ministério da Saúde, pessoas que sofrem com a compulsão por pornografia podem procurar os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). A pasta não tem dados sobre atendimentos, mas informa que as equipes estão preparadas para acolher esse tipo de demanda.

Apoio (e sigilo) pela internet

Para aqueles que vivem em locais onde não há especialistas nem grupos de apoio ou que sentem dificuldades de dividir seu problema com alguém, uma forma de buscar ajuda pode ser em grupos que se reúnem pela internet. Como o de Ivan Tramontina, gerente de serviços familiares da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. 
 
Com reuniões semanais e 20 participantes em média, as sessões duram cerca de uma hora, por meio de um fórum virtual. Os primeiros 30 minutos são em torno de um tópico de discussão. Na segunda parte, os participantes são estimulados a relatar suas experiências, escrevendo ou falando.
 
“A ideia do encontro virtual é deixar os participantes mais à vontade. Outro ponto importante é o sigilo, por isso, utilizamos uma ferramenta que não exige o cadastro de dados pessoais”, diz Tramontina.
 
Outro serviço é o fórum Como Parar, que tem 5 mil usuários cadastrados. Quem visita a página pode compartilhar experiências, fazer perguntas e expor suas angústias, de forma anônima.
 
O criador do fórum, que se identifica como Rafael, esclarece que a página não substitui o tratamento especializado.
 
“Mas essa troca de experiências tem sido útil para os membros. Segundo eles, o fórum foi um divisor de águas para a recuperação e o entendimento do problema pelo qual estavam passando”, afirma. (GV e HL) 
 
 
* A pedido dos entrevistados, os nomes são fictícios e detalhes que facilitem o seu reconhecimento não são revelados. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade