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Correio Braziliense MEMÓRIA

Estilista francês é consagrado por fazer da moda poesia

Hubert de Givenchy partiu no último dia 10 de março deixando um legado e uma influência poderosa no guarda-roupa e na identidade da mulher atual


postado em 18/03/2018 07:00 / atualizado em 16/03/2018 17:20

Se direcionarmos o olhar ao passado, lembraremos que Charles Worth, pai da alta-costura, não aceitava ser nomeado como costureiro. Artista era o termo que melhor o definia. Para ele, não se tratava apenas de criar uma roupa, mas de contar uma história com poesia.

Audrey Hepburn e o icônico tubinho preto em Bonequinha de Luxo (foto: Paramount Pictures do Brasil/Divulgação)
Audrey Hepburn e o icônico tubinho preto em Bonequinha de Luxo (foto: Paramount Pictures do Brasil/Divulgação)
Hubert de Givenchy foi assim. Consagrado na história da moda por sofisticação e primor, o estilista francês, falecido aos 91 anos na semana passada, definiu uma era a partir do momento que colocou na rua, e não na passarela, um icônico tubinho preto usado por Audrey Hepburn no filme Bonequinha de luxo, em 1961. Entrou para o time de revolucionários e mudou a perspectiva da mulher moderna ao vestir a personagem de Audrey, Holly Golightly, no longa. Ele sabia, antes de todos, o poder que aquele vestido tinha.

Ele não o inventou. Pelo contrário, Chanel o fez 40 anos antes. Ela tirou o preto básico do estereótipo de luto e colocou-o no cotidiano da mulher do século 20. Givenchy tomou posse disso. No filme, o momento em que Holly toma um simplório café da manhã em frente à vitrine de uma joalheria já diz muito. Na cena, ela está com um vestido de festa, provavelmente o mesmo da noite anterior, ainda impecável, elegante, esplêndida: retrato de quem veste o que quer, na hora que prefere.

O vestido preto também não tem mangas bufantes ou apertadas. Ele revela os braços: não é uma peça que aprisiona, mas que faz da mulher ela mesma. Ele é justo, de caimento perfeito para qualquer corpo, seja ele mais esguio, seja curvilíneo. O longo vestido preto foi, e ainda é, uma peça única, tão atual quanto há 50 anos. Mais uma vez, história com poesia.

O próprio Givenchy sabia da importância daquele momento no cinema. À época, o couturier ousou e quebrou de vez a silhueta dos anos 1940 e 1950, carregada e nada simples. Ele trouxe frescor à alta-costura e costumava dizer que Audrey foi sua melhor publicidade. A estrela levou o nome de Givenchy para os Estados Unidos, pois o estilo dele combinava com as americanas: descontraídas e casuais. “Acho que tinha mais clientes lá do que na França”, brincou Givenchy.

Quando se aposentou, em 1995, entregou a grife nas mãos de John Galliano. Julien Macdonald e Alexander McQueen também contribuíram com maestria, mas foi Riccardo Tisci quem deu novos ares à maison durante 12 anos. Ousado, Tisci tirou o foco da silhueta clássica e ultrafeminina para incorporar uma identidade contemporânea, ligada ao street style, aos moletons e aos tênis. Engana-se quem pensa que Tisci desconsiderou o legado de Givenchy. Sua herança é mais atual do que nunca: confiar à mulher o poder de um vestido.
"Cuidar das clientes e ver se elas estavam felizes sempre fez parte da minha abordagem. Elas montavam seus guarda-roupas com segurança" Hubert de Givenchy (foto: AFP)
 

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