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Correio Braziliense CAPA

Sexo feminino move o agronegócio com pulso firme e paixão

Na reportagem que fecha o mês da mulher, contamos a história de três produtoras rurais que, em um universo quase sempre masculino, tomam a frente da produção, do plantio à colheita, com pulso firme. O que as move? A paixão pelo campo


postado em 25/03/2018 07:00 / atualizado em 23/03/2018 17:59

É fato que as mulheres estão se infiltrando cada dia mais em áreas tradicionalmente masculinas. E o universo do agronegócio é um que está repleto da força feminina. Em todas as etapas da cadeia produtiva, há mulheres trabalhando, inovando, economizando e agregando valor aos produtos. Se, antigamente, elas nasciam e moravam no campo, mas cuidavam das tarefas domésticas, hoje, pesquisa da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) mostra que mais da metade delas mora na cidade e vai à roça para trabalhar. 

E mais: quase 60% são proprietárias ou sócias do empreendimento. Coordenadora de sustentabilidade da Abag e orientadora do estudo, Juliana Monti acredita que as mulheres estão aumentando substancialmente sua participação profissional em todos os setores da economia nas últimas décadas. Com o agronegócio, não seria diferente. 

“A inserção profissional delas traz um benefício para a sociedade no que diz respeito a questões como inclusão e igualdade de gênero, principalmente quando falamos de cargos mais altos em empresas. Além disso, é sempre importante explicitar os preconceitos e as dificuldades que as mulheres ainda passam nos cargos de liderança”, afirma.

Entre os principais desafios da mulher que trabalha no campo, Juliana cita o respeito à liderança e a credibilidade dela na posição profissional que assume. Na pesquisa da Abag, mais de 44% das mulheres que participaram afirmaram que o preconceito é evidente. Apesar de sentirem a desconfiança, elas continuam seguindo em frente e assumindo as funções com dedicação.

Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), as mulheres já são um terço dos trabalhadores do agronegócio. O número inclui pesquisadoras, funcionárias de empresas de insumos e quem está no dia a dia do campo. 

Mas a maioria das mulheres — 70% — participa da administração do negócio. Vale ressaltar que estão excluídas desses cálculos aquelas inseridas no segmento da agricultura familiar, na qual a quantidade feminina e masculina é bem mais equilibrada.

Comparada com os homens, pesquisa da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio, divulgada no início do ano, mostrou que a participação de mulheres na administração de propriedades rurais no Brasil passou de 10%, em 2013, para 30% no ano passado. Na década de 1970, apenas 8% dos estabelecimentos agrícolas pertenciam a mulheres, de acordo com o órgão da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO). Em 2013, saltou para 13%.

Segundo a FGV, em geral, elas ainda ganham menos que os homens, cerca de 78,3% do que eles recebem. Mas a situação ainda é boa se comparada com os outros setores da economia no Brasil, em que a mulher tem apenas 76,2% da remuneração masculina. De acordo com os pesquisadores, essa diferença entre as médias brasileira e a específica do setor foi possível porque o agronegócio, entre 2012 e 2017, diminuiu as contratações informais de mulheres em cerca de 5% ao ano.

Trocando a França pelo campo

"Eu estava cansada de depender dos outros para ganhar dinheiro%u201D Vanessa Silvério, bióloga (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
A bióloga Vanessa Silvério, 35 anos, trabalhava com consultoria ambiental para o governo, quando, há quatro anos, o pai dela resolveu vender a fazenda que tinha havia 12 anos, a 170km de Brasília. A mãe de Vanessa estava feliz com a decisão do marido. Apegada à cidade, achava que a propriedade dava muito trabalho. A alegria da matriarca durou pouco: Vanessa resolveu que compraria a fazenda.

Para a mãe, a decisão da filha tinha ainda um agravante: a equipe com quem a bióloga trabalhava estava fechando contrato com uma empresa da França. Vanessa trocou a Europa, onde um dos colegas permanece até hoje, pelo campo. “Eu estava cansada de depender dos outros para ganhar dinheiro”, justifica.

O pai de Vanessa sempre quis que algum dos filhos se interessasse pela fazenda, mas isso nunca havia acontecido. Sugeriu adiantar a herança de Vanessa para que ela comprasse só a parte dos irmãos. Determinada, ela não quis. “Eu não gostava da ideia de herdar. Eu queria que isso aqui fosse meu por mérito”, explica. 

Vanessa conseguiu que dois amigos entrassem como sócios. Mas apenas investidores: não colocam a mão na massa. Um deles até vai de vez em quando ao local, mas só para curtir. E o pai aproveitou que alguém da família tocaria a fazenda para ficar com uma parte dela, mas também não frequenta como antes.

Ela costuma se mudar para a fazenda no fim de outubro, quando começa o plantio da soja, volta para casa, em Brasília, para as festas de fim de ano. Passado o réveillon, muda-se de novo para a roça e fica até maio. “Acho que não aguentaria ficar o ano inteiro, sentiria falta de um cinema,  um restaurante. Mas, nesse ritmo, eu gosto. Não sinto falta de nada”, diz. 

Como ela está sempre longe, os amigos costumam visitá-la. A propriedade tem uma cachoeira de facílimo acesso e muito atrativa em um dia de sol. Quando há algum evento mais importante em Brasília, no meio da colheita, como um casamento, ela vem e depois volta.

Atualmente, ela não está em um relacionamento sério, mas, nos últimos quatro anos, quando tinha um namorado, o esquema era o mesmo dos amigos. “Vem no fim de semana. Para ficar comigo, tem que gostar, porque eu preciso ficar aqui. É difícil largar com um gerente. A gente investe muito para não cuidar”, reflete. E o trabalho não acaba. “Uma vez, um amigo me disse que o nome é fazenda porque a gente passa a vida fazendo alguma coisa. Sempre tem algo pra fazer”, brinca.

São 1.182 hectares, mas nem todo o terreno é plano. Só metade pode ser usada para plantio. Vanessa pretende expandir, mas, por enquanto, a área plantada é de 200 hectares. Ela produz soja. Além disso, avalia aumentar a quantidade de cabeças de gado. Eram 80, mas o mercado estava bom para que ela se desfizesse de algumas, então, vendeu 60 e permanece só com 20. “Um bom investidor não aplica tudo em uma coisa só”, esclarece.

Já com a fazenda na ativa, ela descobriu formas de comprar insumos mais baratos para o plantio e como não estocar a soja depois de colhida, já que não tem espaço para isso. Precisou estudar muito para chegar lá. Um mestrado na UnB ajudou muito, embora, no fim, ela não tenha defendido a tese porque estava envolvida demais com a fazenda. 

“Eu comecei porque estava com um contrato com a Petrobras em que precisava avaliar o impacto ambiental da cana-de-açúcar, mas precisei estudar muito a parte econômica”, relembra. Outra estratégia para aprender foi sair perguntando sobre tudo a todos que conhecia. “Eu enchia o saco dos vizinhos”, conta. Graças a tudo isso, conquistou mais investidores.

A vida no campo, para ela, é bem diferente da cidade. Ela nota que, lá, as pessoas não se veem como adversárias, mas como quem quer fazer o agronegócio crescer. “Já me emprestaram máquina, vieram me dar dicas. Todos estão dispostos a ajudar: contam o que dá certo, o que dá errado. Se não se ajudar, é difícil crescer. Como não tem nada por perto, se quebra uma máquina, você não está em cinco minutos numa loja para resolver. Aí vai ao vizinho, pega uma peça emprestada e depois devolve”, conta.

Uma paixão chamada café

"Nós descobrimos que tínhamos também café especial depois de um experimento meu: resolvi secar o grão no sol e na sombra e deu uma cor diferente. Ganhamos pontos a mais e o nosso café foi classificado como especial" Cristiane Zancanaro, advogada (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
A família de sete pessoas — pais e cinco filhos — compõe o conselho de uma empresa formal: uma fazenda que fica a 60km de Brasília, no município de Cristalina. Dos cinco irmãos, só um é homem e só uma não participa tão ativamente dos negócios, pois mora fora do Brasil. O irmão era o mais envolvido com todas as culturas plantadas nas terras familiares, até que, há quatro anos, as lavouras de café passaram para as mãos de umas das irmãs, a advogada Cristiane Zancanaro, 40 anos. “Café é minha paixão e ele não estava dando conta, porque estava ficando grande demais.”

Anteriormente, Cristiane trabalhava com análise de contratos e no departamento de pessoal da fazenda — ela se orgulha de hoje mais de 30% dos funcionários serem mulheres. A advogada acabou assumindo também os 900 hectares do cafezal. E, em pouco tempo, tem conseguido revolucionar a plantação. Antes, a produção se limitava ao café comum. “Nós descobrimos que tínhamos também café especial depois de um experimento meu: resolvi secar o grão no sol e na sombra e deu uma cor diferente. Ganhamos pontos a mais e o nosso café foi classificado como especial”, explica.

Na primeira safra após descobrir que produziam café especial, Cristiane ganhou o prêmio regional Ernesto Illy de Qualidade do Café para Espresso — importante premiação da cafeicultura nacional. “Eu recebo uma vez por mês um consultor técnico que vai vistoriar as pragas na lavoura. Tenho que checar tudo com o meu gerente de produção diariamente e ainda visito cafeterias para apresentar o meu produto. É o olho do dono que engorda a boiada”, afirma.

Mil e uma atribuições

E Cristiane não para. Agora, quer transformar uma das áreas em orgânica, o que deve levar três anos. Ela é otimista, mas pretende respeitar a natureza: “A lavoura é soberana, não sabemos como vai responder, mas é outro sonho meu”.

Todo esse trabalho é conciliado com o cuidado com os três filhos, de 10, 7 e 4 anos. A agenda dela depende diretamente das deles: se têm prova, precisa estudar com os garotos; se têm reunião na escola, é o triplo de professoras com quem conversar; e se é dia de eles almoçarem em casa, faz questão de estar junto. Além disso, arruma tempo para fazer exercício, ao lado da mãe, com personal trainer. “É difícil pra mim? É. Sou empresária, advogada, mãe, filha. Tenho que administrar uma rotina bem puxada”, admite.

Em geral, vai à fazenda duas vezes por semana, mas, na época de colheita, chega a ir até mais de três vezes. Também nesse período, tenta incluir os filhos e transformar o negócio em lazer para os pequenos. “Eu os levo nos fins de semana. Eles colhem, separam o vermelho do verde, secam, descascam e depois levam para os avós. Meus pais e meus avós já eram fazendeiros, mas meus sogros, que não têm essa tradição, ficam muito felizes de tomar o café dos netinhos”, emociona-se.

Mas a rotina foi ainda mais difícil. Cristiane queria entender todo o processo pelo qual o café passa até chegar à cafeteira e dela à xícara. Saber como o aroma e o gosto entram pelas narinas e pela boca de cada um. Deixou os filhos mais velhos em Brasília com o pai e foi com o caçula, na época com apenas 7 meses, fazer um curso de barista em São Paulo. “Porque, para eu entender o meu produto de verdade, tinha que estudar. Fiz também curso de análise sensorial. Não adiantava eu saber só do café verde”, conta.

Recentemente, a produtora realizou um sonho: comprar o próprio torrador. Antes, torravam no vizinho, o que dificultava o controle de qualidade. “Cada grão tem um perfil de torra que vai dar o melhor café e, tendo o nosso torrador, conseguimos entregar sempre igual, sem variação de qualidade”, afirma. O apego com a nova aquisição é tão grande que até já o apelidou. Com nome de mulher, claro: Taninha.

Elas na cafeicultura

A participação das mulheres na produção de café é significativa. No ano passado, a Embrapa Café  lançou um livro idealizado pela Aliança Internacional das Mulheres do Café Brasil (IWCA-Brasil), uma organização internacional sem fins lucrativos criada, em 2003, a partir do encontro de mulheres da indústria do café dos Estados Unidos e Canadá com produtoras de café na Nicarágua. A corrente brasileira da IWCA foi fundada em 2010 por Josiane Cotrim, que, inclusive, visitou a fazenda de Cristiane há cerca de duas semanas.

No livro, foi estabelecido o perfil da mulher no setor cafeeiro. Para isso, foram recolhidos dados de 737 mulheres, que responderam a um questionário (on-line e off-line) entre julho de 2016 e abril de 2017. Segundo o levantamento, elas estão na faixa etária de 26 a 59 anos, e, desse grupo, a maior concentração é de mulheres jovens, entre 26 e 35 anos. Quase 90% delas são proprietárias da terra.

Segundo a atual vice-presidente da IWCA no Brasil, Miriam Monteiro, na aliança, há participantes de toda a cadeia agroindustrial do café, além de pequenas produtoras, baristas e pesquisadoras. “É bem pulverizada e aberta a todos, mas um dos nossos principais objetivos é apoiar mulheres com menos oportunidade, que não estão tão bem posicionadas no mercado”, explica.

A organização está no processo de contabilizar a quantidade de associadas, mas Miriam supõe que seja algo entre mil e duas mil mulheres. Há também cafés vendidos com o selo da Aliança, mas eles ainda são poucos. “Para ter o selo, temos três critérios: é essencial ser participante da organização, que a produção siga boas práticas agrícolas, com responsabilidade socioambiental, e que a propriedade, o café e todas as notas fiscais relacionadas a eles estejam no nome da mulher”, enumera Miriam. 

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