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Correio Braziliense NATUREZA

Cheias de magia, beleza e paz as flores na páscoa simboliza o renascimento

Símbolos de renovação, esperança e reconciliação, flores não apenas se convertem em fonte de renda, mas também se transformam em poderosos hobbies para quem busca uma vida de harmonia


postado em 01/04/2018 07:00 / atualizado em 29/03/2018 17:46

“Flores para quando tu chegares, flores para quando tu chorares. Uma dinâmica botânica de cores para tu dispores.” Os versos da música de Zélia Duncan ilustram bem como essa obra-prima da natureza é apreciada e festejada nas mais diversas ocasiões. Alegram corações, decoram casamentos, servem como pedido de perdão, selam uniões e, na Páscoa, são usadas como símbolo de renascimento.

Amor às flores virou um hobby para Lilian, que já fez cursos: %u201CAprendi a educar o olhar para criar arranjos%u201D(foto: Arquivo Pessoal)
Amor às flores virou um hobby para Lilian, que já fez cursos: %u201CAprendi a educar o olhar para criar arranjos%u201D (foto: Arquivo Pessoal)
Cultivá-las ou transformá-las em lindos arranjos tem se tornado um hobby para muita gente. A servidora pública aposentada Lilian Manzur é uma dessas pessoas que encontrou nas flores uma atividade prazerosa. “Sempre gostei de ter flores naturais na decoração da casa. Busquei aprimoramento em cursos para aprender a fazer arranjos para celebrações, retiros e eucaristias da minha paróquia.”

A aposentada descobriu que, para manusear e criar arranjos florais, a sensibilidade e o amor são imprescindíveis. “Aprendi a educar o olhar no sentido de que, com folhagens do cerrado ou plantas que estão em nosso jardim, é possível criar belíssimas peças florais rústicas”, ensina.

Márcia Rosely de Carvalho, uma das fundadoras da Associação Central Flores, na Ceasa, reforça que, em Brasília, há uma boa diversidade de flores tropicais e temperadas. “Entre as tropicais mais comuns, temos heliconias, alpinias, bastão do imperador e strelitzias. Já entre as temperadas, destacamos as gérberas, os girassóis, as hortênsias, asflores do campo, as lisianthus e a áster.”

Apaixonada pela arte floral, Márcia faz parte da Academia Brasileira de Artistas Florais (Abaf) e, ao lado do irmão Francisco Jakuwoski (presidente da associação), tem uma floricultura. “Sempre fomos produtores rurais, nossos pais são pioneiros nessa área no Distrito Federal. Moramos na mesma chácara há quase meio século, mas nossa dedicação às flores foi a partir de 1992”, relembra.

Jakuwoski, conhecido como Kiko, conta que em Brasília há muitos produtores florais. A Associação, segundo ele, conta com 28 associados que cultivam várias espécies. Eles ficam localizados em Luziânia, Brazlândia, Sobradinho, Vargem Bonita e Planaltina.

Relação de Márcia com as flores vem desde pequena: %u201CAcho mágico o poder da germinação e crescimento%u201D (foto: Arquivo Pessoal)
Relação de Márcia com as flores vem desde pequena: %u201CAcho mágico o poder da germinação e crescimento%u201D (foto: Arquivo Pessoal)
Márcia lembra que sua relação com as flores vem desde pequena, pois sempre gostou de plantas e sementes. “Acho mágico o poder da germinação e do crescimento. Nasci no meio rural, nunca morei na cidade e isso sempre me fez ficar em contato com a natureza e me encantar por ela”, assume. “Costumo dizer que Deus foi muito caprichoso nos detalhes ao nos presentear com tamanha diversidade em formas, cores e texturas de flores e plantas”, derrete-se.

Serenidade

Márcia Cristina é outra apaixonada pela arte floral. Para ela, esse amor tem tudo a ver com admiração e contemplação. “Lidar com elas me acalma e me deixa serena. É uma terapia”, resume. A afirmação da aposentada faz todo o sentido. Muitos psicólogos confirmam que ter contato com a natureza, fazer trabalhos manuais com flores, como a Ikebana (leia quadro), alivia o estresse, ajuda na concentração e produz sensação de relaxamento.

Há estudos, principalmente na Inglaterra, que mostram que as plantas e as flores geram uma condição de melhoria do bem-estar, que remete às origens primitivas do ser humano. “Observá-las causa uma sensação boa, gera um efeito positivo”, indica a bióloga Dayane May, professora do curso de ciências biológicas da Universidade Positivo (UP) do Paraná. 

Sempre lindas

Confira algumas dicas da produtora Márcia Rosely de Carvalho para aumentar a durabilidade das flores.

Conservação
  • Para conservar flores de corte há produtos especiais, mas uma receita caseira garante a durabilidade. Basta colocar uma colher de água sanitária para cada litro de água e manter os talos limpos e cortados na forma vertical.

Durabilidade
  • O tempo de durabilidade dos arranjos varia conforme o tipo de flor. No caso das tropicais, duram entre oito e 12 dias, conforme o ambiente.

Profissão ou hobby, sempre com paixão

O crescente interesse do brasiliense pela arte floral tem disseminado vários cursos pela cidade. No mês passado, a capital recebeu um dos mais renomados floristas do mundo. O colombiano Ivan Moreno foi o responsável por decorar e florir todos os cantos por onde o papa Francisco passou quando visitou o país no ano passado.

"Eu converso com as flores e me sinto responsável em dar continuidade à natureza por meio dos arranjos%u201D Ivan Moreno, florista (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
A paixão de Ivan pelas flores é antiga. Menino de rua, ele trabalhou como office boy e passou por muita dificuldade até ser descoberto, aos 14 anos, um artista floral. Hoje, viaja o mundo todo dando cursos. “Eu converso com as flores e me sinto responsável em dar continuidade à natureza por meio dos arranjos.”

Para Moreno, ser florista é uma arte e, graças à profissão, ele teve a chance de construir uma vida digna. “Aos 8 anos, eu era menino de rua. Comecei a trabalhar em um restaurante ainda criança. Lá recebi roupa, comida e fui tratado como um filho pelos donos”, conta. “O casal também tinha uma floricultura e foi em um Dia das Mães, quando a dona estava em apuros por conta das inúmeras encomendas, que eu disse: ‘Eu posso te ajudar’”.

Naquele momento, começava a trajetória de Moreno. “Sentei ao lado dela e fiz meu primeiro arranjo de flores. Quando terminei, ela chorou de emoção e falou: ‘Você agora é o novo florista da loja’. Eu tinha apenas 14 anos.”

Moreno explica que, além do amor, é preciso ter técnica e concentração para confeccionar as peças florais. “A forma decorativa é a mais fácil de expressar essa arte”, revela. De acordo com ele, são vários os estilos que podem ser usados, como o vegetativo puro, que representa a natureza como ela é. “É transplantar a natureza para o arranjo, fazer a cópia fiel do meio ambiente, sem cortar ou modificar as plantas e as flores”, ensina.

Já o vegetativo decorativo pode ser mais mexido e ter apetrechos para complementar. “Nesse estilo, fica claro que há interferência do homem, que usa a arte para mudar o natural. Pode-se cortar o ramo, tirar daqui, dali e enfeitar como a criatividade manda.” 

Ikebana: uma arte milenar

Cláudia Arão, professora de ikebana há 20 anos, explica que o nome dessa prática é de origem japonesa e significa a arte de arranjar flores, ramos e galhos naturais numa composição em busca de estética e beleza. “Representa uma forma de cultivar o bem por meio do belo. Praticar ikebana vai além de apenas montar um arranjo com flores e galhos.”

O estudo da Ikebana Sanguetsu, escola à qual Cláudia é filiada, busca uma forma de alegrar e fazer as pessoas felizes. “Há um significado maior do que o aparente.” Ao dar vida às flores numa composição, ela ensina que é preciso sentir a energia que transcende aquele trabalho. “A flor na composição da ikebana, vivificada com esse sentimento, pode transformar as pessoas. Para mim, é uma grande transformação espiritual. A ikebana mudou minha vida. Obtenho mais paz e alegria ao confeccionar os arranjos florais”, destaca.

A professora garante ainda que observa muitas mudanças nas pessoas que fazem ikebana. “Principalmente transformações no comportamento. Elas se tornam mais felizes, calmas e alcançam um pouco de paz no meio do turbilhão do dia a dia.”

Nessa arte, explica, pode-se adotar qualquer tipo de flor. “Procuramos usar as da estação vigente. Podem ser rosas, cravos, lírios, crisântemos, lisiantos, flores tropicais, dependendo da estação e da região”, diz. Cláudia ressalta que o ideal é que sejam flores naturais. “Evitamos as flores tingidas ou artificiais, pois o nosso objetivo é traduzir o máximo possível a força da grande natureza.”

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