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Correio Braziliense CAPA

Nesta Páscoa, conheça histórias de quem aprendeu o significado de recomeço

Neste domingo de Páscoa, contamos as lições de cinco pessoas que, por conta de situações adversas, tiveram que aprender a viver uma nova vida


postado em 01/04/2018 07:00

Quando tudo parecia o fim, era apenas um recomeço. Por trás das brincadeiras com coelhinhos e deliciosos chocolates, a Páscoa traz um significado repleto de amor, fé e esperança. Para os cristãos, a data comemora a ressurreição de Jesus Cristo após ser condenado e crucificado. Neste clima de nova vida, novas perspectivas e pensamentos positivos, encontramos histórias incríveis e inspiradoras pela capital.
 
Deparar-se com uma cegueira aos 22 anos de idade, com uma deficiência, uma grave doença ou até com uma tragédia natural pode levar qualquer um ao desespero, e mudar trajetórias de muitas pessoas. Porém, é em meio a grandes dificuldades que elas encontram forças e não se deixam abater pelos problemas.
 
A Revista conversou com cinco moradores de Brasília que tiveram reviravoltas ao longo do percurso. Eles mostram que, mesmo em meio às adversidades, é possível seguir firme, recomeçar e, sobretudo, viver.

E uma nova pessoa surge

“Sou apaixonada por essa nova Mariana.” A frase é de uma jovem que perdeu os movimentos das pernas aos 22 anos. O que para muitos parece uma grande tragédia, para a jornalista e fotógrafa Mariana Guedes, hoje com 25 anos, foi uma etapa difícil na vida, porém, que trouxe à tona uma mulher forte que nem ela mesma sabia que existia.
"A cada vez que eu tenho a oportunidade de contar a minha história, acho que eu me encanto mais por mim mesma." Mariana Guedes, jornalista e fotógrafa (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press; )
Mariana estava voltando de uma viagem à Chapada dos Veadeiros, a cerca de 230km de Brasília, quando sofreu um acidente de carro. A fotógrafa lesionou a medula na altura da T4, o que a deixou paraplégica, perdendo toda a sensibilidade dos seios para baixo. “Eu estava com 22 anos de idade, recém-formada em jornalismo, querendo conhecer tudo, e tive que tirar umas férias forçadas”, lembra.
 
As férias forçadas de Mariana duraram 10 meses. A jovem passou por um longo período de reabilitação ou “aprendendo a viver novamente e a conviver com a lesão”, como ela define. Mariana conta que, no início, custou acreditar no que estava acontecendo, mas que não enxergou aquilo como um pesadelo sem fim. “O acidente foi em uma sexta-feira e eu só consegui entender o que estava acontecendo na segunda. Porém, sempre fui uma pessoa muito positiva. Acho que nasci com esse dom. Gosto de valorizar muito o que eu tenho de bom, não o que perdi”, enfatiza.
 
A jovem destaca que, em momento algum, chorou no hospital, mas viu, aos poucos, a sua vida se transformar. “Eu me lembro que chorei quando cheguei em casa, quando vi que a mudança era real. Mas não podia me entregar e ficar de cama. Eu podia ter morrido ou ter ficado em coma. Usei isso como um suplemento, uma injeção de energia para dosar as minhas potencialidades e me inspirar a ser melhor.”

Mudança radical

As mudanças implicaram desde as adaptações no quarto e no carro até os novos hábitos da jovem. Mariana, que antes do acidente era sedentária, começou a praticar esportes e a cuidar da saúde, alimentando-se melhor e se hidratando mais. As atividades físicas entraram na rotina e, desde então, já praticou remo, canoagem, basquete, paraciclismo, entre outros.

Mariana descobriu um novo universo e que ela não estava sozinha nele. “Antes, eu me achava a única cadeirante no mundo. Não tinha contato com ninguém com deficiência, mas, quando entrei na Rede Sarah, vi o quanto é normal, que eu não era a única, e isso me deu muita força.”

Aos poucos, a jornalista foi aprendendo a conviver com a lesão. E a cada passo encontrava uma nova Mariana dentro dela. “Eu achava que a pessoa só não andava, mas é muito mais complexo que isso. Eu, por exemplo, não sinto vontade de fazer xixi, tenho que controlar por hora. São coisas que você nem imagina quando olha para um cadeirante. Mas eu passo por cima dessas coisas de maneira natural. A vida é muito curta para ficar em casa com medo de se machucar ou por vergonha.”

De fato, as mudanças não foram só físicas. Mariana destaca que ama aventura, além de ser apaixonada pela vida. As perspectivas dos problemas também mudaram. “Antes, qualquer coisa me aborrecia: uma chuva, o pagamento de um cartão de crédito, coisas bobas. Hoje, essas coisas não fazem nenhuma diferença para mim.” Atualmente, as preocupações são outras, como ficar atenta à hora de ir ao banheiro, à acessibilidade de um destino de viagem ou às possíveis infecções urinárias.

Mas nem tudo mudou. Mariana frisa que continuou com as atividades do dia a dia, como passar roupa, varrer a casa e cozinhar, além de suas paixões: a fotografia e a dança. Sua história, ela continua escrevendo na companhia dos amigos e da família. Cada capítulo com personagens novos e histórias incríveis, como o intercâmbio feito recentemente no México.

Assim como Mariana foi motivada por amigos e outros cadeirantes a continuar, hoje, ela busca passar essa tranquilidade para outras pessoas. A jovem já deu palestras e afirma que, sempre que possível, gosta de falar sobre o assunto. “A cada vez que eu tenho a oportunidade de contar a minha história, eu acho que me encanto mais por mim mesma e isso é muito bom. O acidente foi um divisor de águas nesse sentido de conhecer pessoas incríveis e de me conhecer de uma forma que eu não enxergava, eu me sinto muito forte, muito mais do que eu achei que eu fosse.” 

Um lugar para recomeçar

"Não é fácil o que sofri, o que passei. Quero compartilhar o meu conhecimento com outras pessoas." Nadine Talleis (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Pres; )
 

Quem vê o sorriso da haitiana Nadine Talleis, 30 anos, nem imagina os tempos difíceis pelos quais ela passou. A estudante é uma das milhares de vítimas do terremoto no Haiti que vieram em busca de reconstruir a vida em território brasileiro. No caso de Nadine, uma reconstrução que se perpetua no tempo, com o surgimento de um novo sonho a cada meta alcançada.

Ela conta que, antes do terremoto, levava uma vida tranquila no Haiti e não imaginava que um desastre pudesse mudar o rumo de sua história. “Eu era artista e estudante. Estava terminando o ensino médio. Eu me sustentava com o que meu pai deixou para mim, mas aí veio o terremoto. Eu não vou dizer que ele acabou com a minha vida, porque Deus não deixa isso acontecer, mas quase a destruiu.”

Enquanto a maioria dos brasileiros acompanhavam as dificuldades do povo haitiano pelos noticiários, Nadine sentia tudo aquilo na pele. O desastre pode ter desmoronado centenas de prédios, mas os sonhos e a esperança da estudante permanecem em pé, firmes e fortes.

O ano era 2013 e Nadine veio sozinha tentar uma nova vida no Brasil. Ela conta que passou pouco mais de um mês em um abrigo para refugiados no Acre. Começar a vida do zero em um país desconhecido demandou muita força. Nadine ainda tinha um grau a mais de dificuldade, pois tem apenas 15% da visão.

No abrigo, ela dividia espaço com outros milhares de refugiados. A estudante fala fluentemente espanhol e ajudou bastante na comunicação entre os brasileiros e os haitianos, que em sua maioria falavam inglês e francês. “Não é porque eu estava em uma situação ruim que não poderia ajudar”, enfatiza.

Ajuda

Foi auxiliando o próximo que Nadine conquistou o amor de uma família brasileira, especialmente de uma mulher brasiliense, que hoje ela chama de mãe. “O marido da filha dela foi trabalhar no refúgio do Acre e eu ajudava com as traduções. Quando eu estava ajudando, não pensava que uma pessoa me ajudaria também, mas eles me convidaram para vir para cá. Quando cheguei aqui, ela me acolheu. Hoje, eles são minha família”, destaca.

Ao chegar a Brasília, Nadine foi atrás do que sempre foi o seu objetivo: os estudos. “O meu foco desde criança é estudar. Meu pai acreditava muito no meu estudo.” Na capital federal, Nadine passou no vestibular de uma faculdade em Vicente Pires para o curso de direito, mas lhe faltava recursos financeiros para pagar as mensalidades.

Porém, a falta de renda não desanimou a haitiana. A jovem chegou a tirar dinheiro da própria comida para pagar as parcelas do curso. “A minha mãe aqui no Brasil me dava uma quantia para eu me alimentar, e eu pagava a faculdade com ele. Não contava para ela, mas comecei a ter dificuldades para comer. Meus amigos também passaram a me ajudar com as mensalidades.” As condições de Nadine melhoraram quando a dona da faculdade ofereceu um emprego e uma bolsa de estudos.

Nadine trabalha na instituição como assistente administrativa e está cursando o 9° semestre de direito. Apenas o primeiro passo para ir em busca do grande sonho: “Quero fazer um mestrado no exterior, seguir a carreira jurídica, passar na OAB e depois fazer diplomacia”.

A vontade de ser diplomata vai muito além de um objetivo profissional. A ideia da haitiana é ajudar os milhares de refugiados que buscam uma vida melhor. “Não é fácil o que sofri, o que passei. Quero compartilhar o meu conhecimento com outras pessoas. Tem muita gente que vive em situação pior que a minha.”

Apoiada pelos amigos e pela fé, Nadine continua sua história no Brasil, mas já pensa em novos horizontes. O atual foco da jovem está em conseguir recursos para um curso de capacitação em Washington, nos Estados Unidos, para o qual ela foi convidada. “Pela fé eu cheguei ao Brasil, que tem um povo muito acolhedor, e pela fé também vou conseguir fazer esse curso. Não tenho dinheiro, mas Deus é muito fiel e eu vou conseguir”, acredita.

Um jeito diferente de enxergar o mundo

"Eu já tinha chorado bastante o que tinha perdido e decidi celebrar o que eu ainda tinha. Foi com isso que eu me abri para novas oportunidades." Valter Junior Melo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press; )
 

“Quem são esses que leem com as pontas dos dedos? No papel, identificam tão pequenos relevos? Quem são eles?”. Como expressa em suas letras musicais, o cantor Valter Junior Melo, 49, descobriu, na prática, como é a realidade de um cego aos 22 anos de idade. Após uma hipertensão intracraniana, o músico perdeu a visão totalmente e teve que se readaptar a uma nova vida.

Valter conta que, na época, trabalhava na Telebras e cursava a faculdade de direito. “O primeiro momento foi de perplexidade.Tem algumas doenças que você sabe da possibilidade de ficar cego, mas eu tinha um problema neurológico e não sabia”, afirma.

O músico explica que há duas realidades diferentes: os cegos de nascença e as pessoas que enxergavam e perderam a visão. Valter destaca que, no início, a preocupação de como continuar com as atividades diárias não saía de sua cabeça. Mas, aos poucos, começou a aceitar a nova realidade e a buscar formas de fazer as tarefas diárias.

“É preciso se abrir para uma adaptação. Eu perdi a visão, mas não perdi os outros sentidos. Então, tinha de aproveitar o que sobrou, e que não é pouco”, frisa. “Eu já tinha chorado bastante o que tinha perdido e decidi celebrar o que ainda tinha. Foi com isso que eu me abri para novas oportunidades.”

Tecnologia como aliada

Valter saiu em busca de técnicas para ser independente. O músico aprendeu a se movimentar pela casa, a lidar com a roupa e até mesmo com a cozinha, mas confessa que a grande aliada foi a tecnologia. “A primeira coisa tecnológica que parou na minha mão foi uma calculadora, que ganhei de um amigo. Ela falava um misto de espanhol com sotaque chinês”, lembra.

Da simples calculadora, Valter partiu para os softwares de leitores de tela que permitem ao músico trabalhar, escrever seus textos e enviar e-mails sem a necessidade da ajuda da mulher.

Valter, então, decidiu compartilhar os conhecimentos com outros deficientes visuais. Hoje, ele dá aulas de informática e grava vídeos para o YouTube ensinando cegos a usarem computadores e celulares. “Não preciso que ninguém me diga como é para uma pessoa adulta que perdeu a visão recuperar o que ela fazia antes. Eu sei como é isso e quero ajudar outras pessoas”, destaca.

Valter conta que seus vídeos ganham comentários do país inteiro, além das mensagens que recebe com frequência pelo celular. O músico afirma que o feedback dos alunos é o que mais o motiva a continuar com o trabalho. “Já teve gente que falou que chegou a ficar sete anos sem sair de casa por causa da perda da visão”, lamenta.

Além das aulas, Valter passou a expressar os sentimentos nas músicas e ainda escreveu uma autobiografia. O músico digitou as 323 páginas do livro usando os softwares de adaptação e contou com o apoio de um amigo jornalista. A obra está disponível em tinta, braille e áudio. O capítulo que relata a perda da visão recebeu o título “Foi escurecendo até ficar claro”. Uma frase que retrata como ele encontrou a luz quando tudo parecia escuro e, como ele mesmo diz em uma das canções, “mesmo cego eles podem ver”. 
 

O momento certo de se libertar 

"Renascimento para mim é ressignificar o real valor da vida." Bruna Dornelas (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press; )
Era 1º de abril de 1999 e Búzios, o destino de férias da família de Bruna Dornelas, na época com 4 anos. O descanso, contudo, não veio. A família sofreu um acidente na estrada, no qual a garota teve graves lesões no pé direito, esmagado pelo banco da frente, em que estava a mãe. Ela morreu na hora. Após várias cirurgias e momentos intensos no Hospital Sarah Kubitschek, Bruna teve a perna direita amputada até a coxa, devido a uma sequência de infecções.

A jovem, hoje com 23 anos, usa prótese desde o início do tratamento. Cresceu discreta: calças compridas e vestidos longos eram companhias diárias, na escola, na praia, nos passeios. Em dias de sol e piscina, preferia não entrar na água. “Não sentia vergonha, mas não queria me expor para ninguém.”

O sorriso largo e o olhar cativante relembram os tempos de colégio, os dias em que Bruna chorava porque se via diferente dos amigos. “Eu não tinha maturidade para entender a situação. Minha avó fazia vários penteados no meu cabelo porque, assim, eu ficava mais feliz. É como se isso me tornasse igual às outras crianças”, emociona-se. Foi a avó Maria Izabel Rolim quem sempre aconselhou a menina a não deixar a vida passar pela janela. E, há dois anos, Bruna literalmente renasceu.

Lidar, adaptar e superar 

O ano de 2016 foi decisivo para a jovem. Ela conta que passou por um processo de amadurecimento e, sobretudo, de renascimento. “Parei de me comparar com os outros e comecei pensar na minha felicidade plena. Foi uma das melhores escolhas que fiz.”

Luiza Fregonasse, amiga de infância e companheira de férias de verão, reconhece a mudança de Bruna. “Acompanhei toda essa fase de transição. A Bruna era muito fechada, sempre disfarçava a perna, até na praia. Não deixava a gente postar fotos. Sinto muito orgulho dela agora”, celebra.

O estímulo para Bruna decidir “se libertar”, como ela mesma define, foi o esporte. Apaixonada por kitesurf, a jovem viajou a Campinas, em São Paulo, para experimentar uma nova prótese à prova d’água. Assim, poderia praticar a modalidade sem medo. Adaptada, tentou a atividade por um tempo, mas confessa que a paixão mesmo é relaxar na areia, sob o sol.

A casa de praia em Jericoacoara é refúgio e local de liberdade. Foi lá que Bruna decidiu se mostrar para o mundo. “Postei uma foto de corpo inteiro no Instagram e, a partir daí, minha vida mudou completamente”, reconhece.

A postagem repercutiu como motivação e exemplo para quem seguia Bruna na rede. Ela começou a receber mensagens de pessoas que compartilhavam da mesma experiência, mas que ainda não se aceitavam por completo. 

A jovem se viu na posição de influenciadora: “Sempre digo a elas que não posso mudar o meu passado, mas que posso ajudá-las a construir um novo futuro.”

As cicatrizes no pé esquerdo ainda existem, mas não sobressaem outras marcas que Bruna gravou pelo corpo. Na pele, ela expressa esperança e vida. A palavra árabe maktub grifa o punho e significa que o destino está traçado. “Coisas boas e ruins vão acontecer, mas para nos tornar pessoas melhores”, explica.

O termo resiliência Bruna gravou na pele e na mente: “A vida é assim: primeiro, a gente lida com a situação, depois se adapta, supera e, por fim, resiste. Demorei 18 anos para amadurecer e me libertar. Não escondo mais nada de ninguém. A gente perde quando se esconde. Deixamos de viver experiências por aparência, por querer seguir um padrão. Mas a verdade é que não existe padrão: você é quem o faz.”

 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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