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Correio Braziliense CAPA

Do rádio aos aplicativos: histórias de amor não escolhem lugar

Esse sentimento não escolhe hora nem padrões e, mesmo em tempos de conexões virtuais mundo afora, chega sem avisar até pelas ondas do rádio


postado em 08/04/2018 07:00 / atualizado em 05/04/2018 17:26

Perguntar a um casal “como vocês se conheceram?” sempre rende histórias diferentes. Afinal, nunca se sabe onde — ou quando — vamos encontrar o sonhado grande amor, mas o destino, às vezes, pode estar esperando apenas uma simples atitude. E quem acredita que precisa dar o primeiro passo na busca da cara metade aposta em todos os meios à mão, seja pelo celular, seja em uma balada, seja com o radinho do carro ou a pilha.

Sim! O velho e bom companheiro da população dos cantos mais remotos do Brasil afora ainda reina quando o assunto é aproximar pessoas, apesar da revolução tecnológica que transformou as relações humanas. Nas ondas sonoras, programas para atrair os que sonham encontrar o amor de suas vidas continuam  populares no Brasil.
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press; )
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press; )
“Todas as noites, nos meus sonhos, eu vejo você, eu sinto você. É assim que eu sei que você continua longe, atravessando distâncias e espaços entre nós”, diz pausadamente o locutor Rafinha, na Clube FM, com sua voz grave, mas afetuosa, interrompendo o silêncio da noite. Frases como essas, envolvendo o amor e sua capacidade de quebrar barreiras, continuam sendo narradas pelo locutor da rádio que traduz a música tema de Titanic: My Heart Will Go On.

Entre esse e outros sucessos românticos, entre um áudio e outro de ouvintes apaixonados e entre mensagens daqueles que procuram alguém com quem sonhar acordado, fica a certeza: a magia nas ondas do rádio resiste a todos os apelos das novidades lançadas via internet.

Quadros de paqueras

Não é fácil explicar o que torna esse meio de comunicação até hoje tão querido na vida de tantos brasileiros que ainda dedicam, em média, 4 horas e 40 minutos para ouvir a programação diária. Mas o romance presente nas ondas é um bom palpite. Um grande exemplo disso pode ser ouvido quando Rafinha empresta sua voz para apresentar o Love Songs, com quadros de paquera e a tão esperada tradução de músicas internacionais.

Dividindo a atenção entre os botões da mesa de áudio do estúdio e o celular com os recados dos ouvintes, o locutor recebe as mais variadas mensagens, mas a hora que o WhatsApp da rádio bomba mesmo é quando começa o quadro de encontros. “No Paquera, o ouvinte fala das melhores características dele e do que procura. A gente divulga o celular dessa pessoa no ar e quem se interessar entra em contato com ela”, explica Rafinha.

Essa simples interação já é o começo de muitas relações, de vários tipos. “Tem gente que consegue amizades ou mesmo aventuras. Então os ouvintes ficam felizes até quando não conseguem um relacionamento sério”, conta o locutor. Os áudios e mensagens que vão ao ar mostram que há quem procure alguém com os mesmos hábitos, ou quem queira conhecer uma pessoa disposta a descobrir coisas novas, e aqueles que preferem um parceiro mais velho ou mais alto, mais religioso… Todos os gostos entram na rádio à procura da sintonia que — quando acontece — pode dar música.

Encanto envolvido

Essa proximidade com quem está do outro lado das caixas de som — em casa, no carro ou na rua — faz com que o rádio seja o escolhido para vários propósitos, que vão de saber uma notícia recente sobre o trânsito até conhecer a tradução de uma música romântica que marcou época. A voz de Rafinha declama os sucessos internacionais estrofe por estrofe, aumentando a emoção do ouvinte apaixonado, que faz questão de agradecer a interpretação e pedir outro som.

“Tem gente que diz que isso é brega e fora de moda, porque todo mundo sabe inglês ou pode pesquisar e saber a letra da música. Mas não. As pessoas amam esse quadro de uma forma inexplicável. Tem todo um encanto envolvido nele, de ouvir a música tocando e ir ouvindo, na voz do locutor, o que cada frase significa”, explica Rafinha.

Assim, cada um dos programas da sintonia consegue conquistar quem está do outro lado das caixas de uma maneira diferente de outros meios de comunicação, com uma proximidade difícil de se ver fora das estações sonoras. “Quase sempre o ouvinte enxerga no rádio um amigo que ele tem ali 24 horas ao lado dele. E, quando a pessoa liga o rádio, ela tem companhia e já não se sente sozinha. A gente faz isso por meio de uma comunicação amiga, com muito respeito e carinho.”
 

Dividindo momentos

Às vezes, uma grande paixão é obstáculo no caminho do amor, mas não é o caso do relacionamento de Carlos Brito e Maria Aparecida. Tudo começou quando ele veio para Brasília, em 2009, atrás das oportunidades que não encontrava no Piauí. Para não se sentir sozinho, o rapaz, que não conhecia ninguém na capital, pediu ao irmão o que viria a ser sua primeira companhia na nova cidade. “Pedi para ele comprar um rádio a pilha para mim”, lembra.
Carlos disse na Clube FM que precisava de uma companheira dedicada e cativou Maria Aparecida: família feliz(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press; )
Carlos disse na Clube FM que precisava de uma companheira dedicada e cativou Maria Aparecida: família feliz (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press; )
 
Parceiro das horas em que não estava trabalhando, o pequeno aparelho ajudou Carlos, ao ouvir os programas de paquera, a  perceber que poderia ter ao seu lado, a partir dali, não só uma voz, mas corpo e alma. “Mandei minha mensagem falando que precisava de uma pessoa fiel, companheira, dedicada e que estivesse sempre comigo, dividindo os momentos bons e ruins.”
 
Não demorou muito para a mensagem chegar a Maria Aparecida Muniz, que sintonizava a 105,5 todo dia, do começo ao fim do serviço. “Quando ouvi a voz dele no rádio, alguma coisa me tocou. E, quando ele conversou comigo, foi diferente de quando outros homens conversaram”, conta. Naquele dezembro de 2010, os dois ganharam presentes.
 
“Quando veio o Natal, ela me fez o convite de passar lá com a família dela, já que eu tinha acabado de chegar do Piauí e estava longe da minha. Essa foi a primeira vez que a gente se viu, depois de conversar durante dois meses”, recorda Carlos. Até o grande dia chegar, não faltou ansiedade a Maria Aparecida.
 
“Tem a magia do rádio de ficar na expectativa de saber como a pessoa é. Hoje em dia, não tem muito disso, porque, na internet, você já vê a aparência e escolhe se quer ou não conhecer. Como foi tudo bem diferente, foi um dia inesquecível!”, ela conta.
 
Foi a oportunidade perfeita para Carlos mostrar que não era igual aos outros: aproveitou os pais de Maria sentados no sofá à sua frente e já pediu logo a mão da moça, falando que era um homem sério e trabalhador,  que só queria o bem da filha do casal. Os dois estão juntos há oito anos, com três filhos — a mais velha, de um relacionamento anterior da mulher — , mas as surpresas, para eles, continuam.
 
Fiel à sua primeira companhia em Brasília, o rádio, Carlos resolveu homenageá-lo por lhe ter apresentado o seu grande amor. Saiu do trabalho e tomou um rumo diferente do habitual, sem avisar Maria. Ao voltar para casa, surpreendeu a mulher com uma tatuagem recém-feita no braço.

“Foram anos muito bons escutando a Clube que me renderam muitas coisas importantes, então eu resolvi fazer uma homenagem para ela. Fui a um estúdio e tatuei o símbolo da rádio no braço”, conta. Maria apoia. “Sou muito grata à Clube por ter colocado o Carlos na minha vida, que é um homem bom, honesto e que me respeita.”

Hoje, os dois planejam o próximo passo — o casamento, com uma família grande, bem diferente de quando o chapeiro chegou a Brasília sem conhecer ninguém. Os dois, os três filhos e, claro, o rádio.

 
Canções de amor
O quadro de paquera da Clube FM vai ao ar no Love Songs, a partir das 22h, na sintonia 105,5. Para participar, basta enviar ao WhatsApp da emissora (99905-1055) uma mensagem com seu nome e características, dizendo que tipo de pessoa está procurando.
 

Um cupido à moda antiga

"Quando a pessoa liga o rádio, ela tem companhia e já não se sente sozinha. A gente faz isso por meio de uma comunicação amiga, com muito respeito e carinho." Rafinha, locutor da Clube FM (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 
Não é raro Rafinha, o radialista da Clube FM que aproximou Carlos e Maria com seu programa, chegar ao trabalho e encontrar cartas, presentes e lembranças de todos os tipos. Tudo como  agradecimento por ter lido no ar mensagens que começaram ou consolidaram relações. “Desde bolos até galinha eu já recebi”, conta.

“O rádio tem o papel importante de fazer com que o público se sinta mais feliz e bem acompanhado, porque a solidão incomoda muito. A gente está cercado de pessoas, mas muitas vezes estamos sozinhos”, avalia.

É com esse sentimento que Rafinha chega à rádio todos os dias, que são sempre diferentes uns dos outros por causa das interações entre os ouvintes. “Quando tem, por exemplo, pedidos de casamento e reconciliação, isso mexe com a gente. Na rádio, é possível ver que muita gente ainda acredita no amor e quer demonstrar isso pelo próximo”, diz.

O sucesso das programações de paquera nas ondas sonoras e dos aplicativos para relacionamentos tem explicação, afirma o psicólogo Fábio Caló, especialista em análise do comportamento pela UnB e terapeuta de casais. Diferentemente das interações cotidianas, segundo ele, nesses ambientes, estão pessoas com o mesmo propósito.

“Os ouvintes sinalizam claramente que a sua intenção é a de buscar um parceiro, e quem eles encontram lá são pessoas que também desejam a mesma coisa. Assim, surge a oportunidade que está muito além daquela que aparece no seu ambiente de trabalho, na vizinhança, academia, festa ou eventos de que participa.”

Quando se pensa exclusivamente no rádio, vários outros elementos se unem para tornar esse meio especial, como o diferencial da programação. “Nele, nós ouvimos as músicas que fazem com que a pessoa reviva sentimentos, como o cheiro do perfume de uma namorada ou namorado, que marcaram a vida e nos fizeram viver certas emoções”, exemplifica Fábio.

E, se a mistura desses sentimentos de paixão ajuda, a mística de só se ouvir a voz do pretendente, de acordo com o psicólogo, casa bem, revelando o sucesso sonoro. “É interessante essa relação que acontece no rádio, porque é diferente dos aplicativos, que são meio ‘cara-crachá’: você vê uma foto enorme e uma descrição pequena, que pouca gente lê.”
  

Facilidade e magia

Fernando Oliveira, diretor da Faculdade de Comunicação da UnB e especialista em estudos sobre radialismo, chama a atenção para a facilidade de acesso desse meio combinada com a magia que ainda provoca o imaginário. “Diferentemente de outras mídias, o rádio permite o contato ao seu conteúdo enquanto estão sendo desenvolvidas outras atividades pelo ouvinte.”

Ao mesmo tempo em que podemos ter a companhia desse som enquanto lavamos a louça ou dirigimos, por exemplo, nossa atenção ainda é tocada para fantasiar a partir do que ouvimos, explica o professor. “E é importante notar que a audição é um dos sentidos humanos mais propensos à imaginação e ao devaneio, então ele toca não só o lado racional, mas, muitas vezes, a paixão e os afetos.”

Para Fernando, o avanço das tecnologias de comunicação podia ter ameaçado a audiência desse meio, mas o que se viu foi o contrário. “Com as ferramentas oferecidas pela internet, principalmente pela conexão via telefone celular, essa relação entre os ouvintes e as emissoras se intensificou e criou ainda mais possibilidades de participação. Isso pode ser muito bom para a diversificação de conteúdos e para o diálogo sobre o que é veiculado”, avalia.

Preferência nacional

Uma pesquisa do Kantar Ibope Media, realizada em 13 regiões metropolitanas no Brasil, em 2017, revela:
  • 52 milhões de pessoas escutam rádio
  • Cada ouvinte escuta por dia, em média, 4 horas e 40 minutos de programação
  • 91% das pessoas de 15 a 19 anos de idade ouviram rádio por ao menos um minuto nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa
  • 92,3% dos ouvintes escutam entre uma e três emissoras em uma semana
  • 30,2 milhões de pessoas escutam o rádio em casa
  • 8,6 milhões de pessoas ouvem rádio no carro
  • 5,4 milhões de pessoas escutam rádio no trabalho 

 

A tecnologia também une

Alessandra achou
Alessandra achou "o máximo, o sorrisão" de Marcelo, ao abrir um aplicativo: casados há dois anos e meio (foto: Arquivo Pessoal)
Se ainda há quem prefira o universo das vozes e imaginações, também há quem se identifique mais com o extenso leque visual das redes sociais. Não é raro escutar que namoros e casamentos tiveram como ponto de partida um encontro virtual. A pessoa dos seus sonhos pode estar a um click, ou melhor, a um match apenas de distância.

Os sites de relacionamentos e aplicativos facilitam a vida dos que estão à procura da cara-metade. É o caso da servidora pública Alessandra Pinhate, 47 anos. “Eu e o Marcelo nos cruzamos em outubro de 2015.” O encontro aconteceu graças ao Happn, um aplicativo que indica “pessoas compatíveis com seu perfil”, conta.

“Fui a um happy hour e resolvi abrir o app no barzinho. Era sexta-feira e logo apareceu a foto dele. Eu achei o máximo o sorrisão dele e, à medida que eu ia tomando uns chopes, mandava uns coraçõezinhos para ele”, revela.

Mas Marcelo Brasil, 47 anos, não viu Alessandra no mesmo dia, no aplicativo. “Ele estava meio doente, tinha acabado de chegar de uma viagem e estava com muita febre, por isso nem viu minha investida de imediato. Nisso, fiquei muito desapontada, porque ele não foi receptivo. No domingo, encerrei minhas expectativas, pois fiquei triste por ter sido ignorada.”

Uma semana depois, lembra Alessandra, Marcelo abriu o aplicativo e ela percebeu que ele havia visualizado suas mensagens. “Ele viu meus coraçõezinhos e me mandou uma mensagem. Eu dei uma ignorada, até porque ele demorou demais, mas ele insistiu muito”, diz. Hoje, eles comemoram, felizes, dois anos e quatro meses de casados. “Não nos desgrudamos mais.” 

Fisgados na rede 

A história dos servidores públicos Graziele Gadelha, 34, e Daniel Gadelha, 36, é cheia de coincidências e sincronicidade. A conhecida expressão “quando é para acontecer, nada impede” cai muito bem para eles. O casal se conheceu no Orkut (rede social extinta), em 2007. Ele, paraibano de João Pessoa, recém-empossado em Brasília como procurador federa. Ela, estudante de direito em Ilhéus, Bahia.
Foto de Daniel no extinto Orkut, anunciando
Foto de Daniel no extinto Orkut, anunciando "fora de mercado" intrigou Graziele: curiosidade acabou em paixão (foto: Arquivo Pessoal)

“Tudo começou quando entrei em um grupo do Orkut para concurseiros. Minha amiga me convidou. Eu vi a foto dele e em seu perfil estava escrito ‘fora do mercado’. Fiquei intrigada com aquilo e resolvi perguntar o que ele queria dizer com aquela expressão. A partir daí, começamos a conversar todos os dias pelo Orkut, depois pelo messenger”, conta Graziele.

O primeiro encontro ao vivo aconteceu alguns meses depois, quando Daniel viajou de Brasília a João Pessoa, de carro. “Ele disse que ia para a casa dos pais dele em João Pessoa e que queria passar em Ilhéus, que é caminho, para me conhecer.” Graziele ficou surpresa e apreensiva, mas gostou da ideia.

“Nós nos encontramos no calçadão da praia, onde tem uma pracinha, um lugar lindo. Era fim de tarde, o sol se pondo e, na hora que ele chegou, foi incrível, teve queima de fogos exatamente naquele momento, na praia. Nós nos cumprimentamos ao som dos fogos de artifício e com aquelas rajadas de luz”, relembra.

Os dois se apaixonaram. Namoraram a distância por um bom tempo. “Eu vinha sempre a Brasília, pois tinha acabado a faculdade e estava apenas estudando para a OAB. Tinha tempo livre, e ele era procurador federal na cidade”, diz. No ano seguinte, Daniel não aguentou a distância e pediu transferência de Brasília para Ilhéus. Casados, os dois têm a pequena Maria, de 3 anos.

Cuidado importante

Para a psicóloga Natália Pfeil, a vida virtual é um mundo a ser descoberto. “São mudanças muito recentes na forma de se relacionar”, pondera. “Vale lembrar que há pessoas que utilizam as ferramentas virtuais com interesses variados. Assim, ao usar essa opção, é importante ter isso em mente”, alerta.

A abertura para conhecer alguém nas mídias sociais pode surgir, de acordo com Natália,  do desejo do ser humano em viver uma relação de intimidade e compartilhamento de experiências. “Pode começar como um jogo, uma brincadeira e partir para uma troca mais profunda e duradoura no decorrer dos encontros”, afirma.

A superficialidade das conversas iniciais, no entanto, pode gerar desconforto, pela sensação de se ser analisado apenas pela imagem, avalia Natália. “É como se houvesse uma redução da pessoa a um objeto, sendo essa avaliada apenas pelas suas fotos, como se fosse uma mercadoria.”

Essas relações de mercado e consumo, no entender da psicóloga, se aplicam também às relações amorosas. "Embora as tecnologias permitam uma rapidez maior no contato, paradoxalmente também há a possibilidade de se desconectar abruptamente, gerando uma sensação de fragilidade dos laços."
 
 
 
* Estagiário sob supervisão de Valéria de Velasco, especial para o Correio 

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