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Correio Braziliense CONSUMIDOR

Anvisa e outras entidades lutam pelo direito do consumidor saber o que come

Discussão intermediada pela Anvisa busca um modelo de rótulo a ser adotado pela indústria alimentícia que informe de forma clara o valor nutricional dos produtos


postado em 08/04/2018 07:00 / atualizado em 06/04/2018 16:33

Olhar a tabela nutricional de um produto industrializado pode não ser simples. A começar pelo tamanho das letrinhas. Superado isso, checa-se a quantidade de calorias. Mas em qual porção do alimento? Aí começam as multiplicações, nas quais, muitas vezes, nós nos perdemos. No fim das contas, as informações ali presentes não tiveram muita utilidade para o consumidor.

Além da dificuldade de interpretação, há falta de informação nas tabelas atuais — problema que vem sendo contornado em diversos países com a adoção de modelos que informam de forma clara o valor nutricional de cada alimento.

No Brasil, a rotulagem dos produtos industrializados passará por mudanças, mas ainda não se sabe como nem quando elas ocorrerão. As discussões, porém, andam acaloradas. Em 2014, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criou um grupo de trabalho formado por especialistas, médicos, designers e representantes do governo e das indústrias para estudar a possibilidade dessas alterações. O relator do tema, Renato Alencar Porto, reconhece que “o assunto é de extrema relevância para a proteção e a promoção da saúde da população brasileira”.

Uma coisa é consenso: o excesso de nutriente crítico (açúcares, sódio e gorduras) deverá vir na parte da frente da embalagem. Atualmente, o órgão analisa três modelos de rotulagem diferentes — um sugerido pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), um pela indústria alimentícia, representada pelo Conselho Nacional da Indústria (CNI) e pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), e um pela Associação Brasileira de Nutrologia (conheça os três ao lado). Após a análise, deve ser aberta consulta pública para que a população também opine.

Urgência

Para o nutricionista Daniel Novais, informar a população é prevenir doenças, como diabetes e cardiopatias e, dessa forma, economizar com saúde pública. “A indicação mais clara no alimento vai deixar a população mais ligada e, com isso, o governo vai gastar menos dinheiro com pessoas obesas, com obesidade infantil, especialmente com a população de baixa renda.”

O cardiologista Daniel Magnoni, chefe de nutrição do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, cita uma pesquisa em que pessoas eram questionadas sobre o que consideravam mais importante no rótulo de um produto. A maior parte respondeu: data de validade e preço. “Ou seja, as pessoas não sabem nem diferenciar o que é rótulo e o que não é. O consumidor precisa de algo que tenha informação suficiente, de fácil leitura, fácil compreensão e que possa ser usado como ferramenta de escolha saudável”, afirma.

Para Laís Amaral, nutricionista do Idec, falta uma compreensão clara das tabelas. “Há pesquisas que demonstram que os rótulos não são compreendidos, a informação é muito técnica. Em 2016, o Idec fez uma que identificou que 40% das pessoas têm dificuldade de entender a tabela nutricional. Além disso, a informação que importa fica escondida, na parte de trás da embalagem, com letra pequena”, argumenta.

Consultando a tabela

Diretora de relações institucionais da Abia, Daniella Cunha lembra que a normativa atual é antiga, já com mais de 15 anos, e acredita que é adequado revisá-la. “O alimento industrializado hoje é diferente, e a forma como o consumimos também. Então, é importante a revisão do padrão para que ele informe melhor o consumidor”, ressalta.

Há cinco anos, João Pedro Campos adquiriu o hábito de ler a tabela nutricional de todos os produtos que compra(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Há cinco anos, João Pedro Campos adquiriu o hábito de ler a tabela nutricional de todos os produtos que compra (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
João Pedro Campos, 26 anos, recepcionista, adquiriu o hábito de observar as tabelas nutricionais dos produtos industrializados há cerca de cinco anos. Queria levar mais a sério sua alimentação, e um nutricionista o orientou a consultar as tabelas para escolher melhor os produtos. “No início, eu demorava. Ficava muito tempo olhando um alimento só”, relembra.

Com o tempo, foi ficando mais prático. A maioria das coisas que João Pedro compra já são conhecidas dele. E quando é novidade? “Nada vai para o meu carrinho sem eu checar a tabela”, garante. O costume é especialmente bom quando o rapaz está em dúvida entre dois produtos aparentemente iguais, mas de marcas diferentes. “Fica fácil de comparar.”

E não é só no supermercado ou quando está comprando algo que ele se informa ao máximo. Na casa dos pais, se pega alguma coisa para comer, não abre sem antes ter certeza de que não fará mal à saúde ou aos treinos que faz. A família estranha: “Sempre perguntam o que eu estou olhando. Eles não fazem isso, então, é diferente para eles. Mas todos deviam fazer”.

A preocupação com a alimentação até fez com que ele abrisse um pequeno negócio: de marmitas saudáveis. “Às vezes, eu estava na rua, queria comer algo gostoso e saudável, e não tinha. Eu ia ao supermercado e, mesmo lá, com tantas opções, a maioria das coisas tinha muita caloria, gordura”, lamenta. João recebe pedidos semanais e mensais e entrega no mesmo dia. O cliente pode congelar ou não. Fã das tabelas nutricionais, as marmitas dele também têm as informações. 

Os modelos 

A proposta do Idec (advertência)

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
O modelo de rotulagem defendido pelo Idec foi elaborado em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e lembra um pouco o usado no Chile. Ele propõe a inclusão de um triângulo de advertência com fundo preto na parte da frente da embalagem de produtos processados e ultraprocessados para indicar o excesso de nutrientes críticos, como açúcar, sódio, gorduras totais e saturadas, além da presença de adoçante e gordura trans em qualquer quantidade.

A professora Carla Spinillo, do Departamento de Design do programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), é uma das responsáveis pela proposta, que, segundo ela, segue os padrões nutricionais da Organização Pan-Americana de Saúde. “O Canadá também está cogitando usar o triângulo, o Chile e o Uruguai adotam o octógono. Preferimos não usar o octógono porque, dependendo do tamanho, ele vira um círculo, que está muito associado à publicidade”, explica.

Para garantir a eficácia da advertência, foram feitas pesquisas qualitativas e quantitativas, nas quais reuniram pessoas de diversas classes sociais e gêneros para responder perguntas sobre nutrição. “Apresentamos nossa proposta e a comparamos à tabela nutricional e à lista de ingredientes atuais. Eles olhavam para o material e diziam se entendiam bem ou mal. Nos grupos focais, houve claramente um entendimento melhor do triângulo para advertir os excessos”, afirma Carla.

Os pesquisadores também aproveitaram essas pessoas para comparar a proposta do semáforo. Segundo Carla, esse modelo foi considerado mais confuso. “Eles não entendiam o que significavam as cores em relação ao excesso de nutriente, especialmente quando precisavam comparar dois produtos.” Os representantes da indústria discordam dessas conclusões. Para eles, é o modelo do Idec que não permite comparação fácil entre produtos. “O importante é a população ter informação, e não colocar um símbolo na embalagem, como se o produto fosse radioativo”, reclama Alexandre Jobim, diretor-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (Abir).

A proposta da indústria

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
A Abia, com o CNI, propõe o modelo de rotulagem pelo sistema de cores: o semáforo nutricional. Ele é o adotado no Reino Unido e indica a quantidade de sódio, açúcares totais e gordura saturada colorida em verde, amarelo e vermelho.

A cor verde representa que os níveis do nutriente em questão são considerados baixos ou adequados para o consumo do alimento na porção, quando associado a uma alimentação diária equilibrada. A amarela demonstra que os níveis do nutriente merecem atenção, pois sinalizam que um consumo acima da porção recomendada pode comprometer o equilíbrio da alimentação diária. E a vermelha demonstra que os níveis do nutriente são considerados altos na porção diária recomendada.

De acordo com Daniella Cunha, diretora de Relações Institucionais da Abia, a proposta do setor para a rotulagem nutricional frontal facilita o entendimento do consumidor sobre a quantidade de cada nutriente contida por porção nos alimentos. O painel também terá a indicação de valor energético por porção e sua relação com o valor diário recomendado. “O setor defende esse modelo, pois informa e empodera o consumidor, possibilitando combinar alimentos rotulados com as diferentes cores, de forma a compor sua dieta e não ultrapassar a recomendação diária para cada um dos nutrientes.”

A proposta da Abran

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
Uma terceira possibilidade foi sugerida pela Abran, depois das outras, em dezembro do ano passado. É o Nutri-score, baseado no perfil de nutrientes da Brittish Standards Agency e aprimorado por pesquisadores na França. Basicamente, ele avalia cada alimento de acordo com a densidade nutricional, ou seja, a qualidade nutricional é analisada como um todo, incluindo os ingredientes bons e ruins para a saúde.

Os produtos são classificados por letras e cores: do verde (classificação A para alimentos de melhor qualidade nutricional) ao laranja escuro (classificação E para os de pior qualidade). No estudo desenvolvido na França para decidir o melhor rótulo nutricional, quatro opções foram comparadas, e o Nutri-score considerado o melhor.

"Com uma combinação de letras e cores conseguimos orientar o consumidor sobre as características de cada produto e isso vai ajudá-lo a fazer a escolha mais adequada à sua dieta", justifica Carlos Alberto Nogueira de Almeida, membro do Conselho Científico da Abran.

Vilões e mocinhos

De uma forma ou de outra, o excesso de açúcar, de gorduras trans e saturada e de sódio contribui para a obesidade e para muitos outros problemas de saúde, como hipertensão e diabete. “O foco nos ingredientes tira o foco real, que deveria ser a relação das pessoas com o alimento. Quando a gente ‘vilaniza’ um alimento, como está acontecendo com o açúcar e já aconteceu com o ovo e com a manteiga, a gente cria heróis e vilões e não trabalha o contexto em que eles são consumidos”, reflete Márcia Daskal, nutricionista especialista em nutrição e dietética e proprietária da Recomendo Assessoria em Nutrição e Qualidade de Vida.

Como exemplo, ela cita os franceses, conhecidos por comerem muito pão, muito doce e cuja culinária é carregada a manteiga e queijo. “Poderia se pensar que eles se alimentam mal, mas não é uma sociedade obesa. Por quê? Eles caminham, eles comem pequenas porções”, explica. E é por isso que muitos especialistas ressaltam que a palavra excesso não pode ficar fora do discurso. Os nutrientes críticos não seriam ruins para a saúde em si, mas sim o exagero deles.

Gerente executivo da CNI, Pablo Cesário ressalta a necessidade de mudar a mentalidade. "Esses são responsáveis só por 15% do consumo de sódio do país. Os outros 85% são adicionados pelo consumidor na mesa. O mesmo acontece com açúcar. É preciso criar uma dinâmica em que se aumentem a procura por alimentos mais saudáveis e saborosos", afirma. 

“O sódio em excesso pode causar desidratação, problemas renais e hipertensão. O excesso de açúcar aumenta o índice glicêmico e a produção de insulina, responsável pela quebra da glicose no sangue, até que o corpo fica resistente a ela: é a diabete tipo 1. E, por fim, a gordura se aloja nas artérias e pode provocar o entupimento delas”, explica Jamilly Drago, endocrinologista da Clínica Metasense.

Ela explica que o motivo por que se acrescenta tanto sódio, açúcar e gorduras aos alimentos industrializados  é que eles são ótimos conservantes. Além disso, o sódio e o açúcar têm o poder de mascarar os gostos. “Um chocolate com muita manteiga do cacau não teria o gosto bom. Então, coloca-se mais açúcar para disfarçar e ficar mais gostoso. Ou em uma batata frita que ficou engordurada, coloca-se sal para disfarçar”, explica.

Tanto a obesidade causada por esses excessos quanto a hipertensão e a diabete são fatores de risco para o tipo de  doença que mais mata no Brasil e no mundo, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia: as cardiovasculares. O órgão estima que uma pessoa morra por tais causas a cada 40 segundos.

Vida sem industrializados

Pesquisa do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar, divulgada no início deste ano, mostrou que a obesidade entre os adultos beneficiários de planos de saúde aumentou de 12,5%, em 2008, para 17,7% em 2016 — um crescimento de mais de 40%. Mais de 50 mil pessoas foram entrevistadas, e consideradas obesas aquelas com Índice de Massa Corpórea (IMC = peso / altura²) superior a 30.

Outro levantamento do Ministério da Saúde, divulgado no ano passado, além de identificar o aumento da obesidade no país, concluiu que o excesso de peso cresce com a idade e é ainda maior entre os que têm menor grau de escolaridade. Daí vem a necessidade não só de uma tabela nutricional tão clara quanto possível, como outras ações de educação.

Thaiz Brito evita ao máximo o consumo de alimentos industrializados(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
Thaiz Brito evita ao máximo o consumo de alimentos industrializados (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
Atualmente, a estudante de nutrição Thaiz Brito, 25 anos, quase não come produtos industrializados que passaram por muitas fases de processamento. Para ela, isso virou um estilo de vida. “Quando entrei na faculdade, já estava consciente sobre alimentação, mas fiquei mais ainda”, relembra. Quando decide comprar algo industrializado, ela checa a tabela nutricional e escolhe aquele com o mínimo de ingredientes.

Quando mais jovem, ela via produtos classificados como diet ou light e acreditava que eram saudáveis ou que tinham poucas calorias. “Hoje, sei que é estratégia, e isso não é, necessariamente, verdade. O produto light tem menos calorias que o tradicional, mas pode ser de 5% a 90% a menos. Já o diet não tem açúcar, então, é ideal para diabéticos, mas pode ter mais gordura ou outras substâncias que, em excesso, não fazem bem.”

Antes, Thaiz comprava pão integral acreditando na classificação dele como tal. Só tempos depois descobriu que essa é uma pegadinha comum: na parte da frente da embalagem, em letras grandes, está “integral”; atrás, em letras minúsculas, na tabela nutricional, especifica-se que apenas uma pequena parcela da farinha usada é integral e a maior parte é branca. A estudante nem come pão mais. “Muita gente se engana por não ter conhecimento.”

Bebidas açucaradas

Outro movimento com o objetivo de melhorar a saúde da população brasileira afeta a indústria de bebidas açucaradas. Dois projetos de lei correm no Senado Federal (360/2014, do ex-) e na Câmara dos Deputados (8675/2017) na tentativa de fazer algo já feito no México: sobretaxar as bebidas adicionadas de açúcar. O projeto mais recente cita outros países que adotaram a medida, como França, Finlândia e Hungria.

O deputado Sérgio Vidigal (PDT-ES) explica que seu projeto foi uma resposta a uma sugestão da Organização Mundial da Saúde (OMS), feita em 2016. Na ocasião, o órgão divulgou um estudo que indicava que o aumento da tributação seria uma forma de reduzir o consumo e, consequentemente, as doenças relacionadas ao excesso de açúcar. “Nos países em desenvolvimento, é onde o sobrepeso mais cresce. Claro que é multifatorial, mas um dos fatores é a má alimentação. Não estamos em um luta contra a indústria, mas, muitas vezes, um litro de refrigerante é mais barato que um litro de água de coco”, argumenta Vidigal.

Para Alexandre Jobim, diretor-presidente da Abir, a contribuição extra é discriminatória: “E a coxinha vendida nas escolas?”, questiona. Ele cita estudo da Vigitel, realizado entre fevereiro e dezembro de 2016, em que foram entrevistadas, por telefone, 53.210 pessoas com mais de 18 anos e evidenciou-se que, se, por um lado, o consumo de refrigerante diminuiu em cerca de 11%, por outro, a obesidade aumentou em 10%.

Jobim ressaltou a responsabilidade social das empresas: “Desde 2016, por conta própria, não fazemos mais publicidade infantil, e 80% das indústrias já aderiram à decisão de não vender nas escolas para crianças até 12 anos. Além disso, nos últimos cinco anos, reduzimos o açúcar em 11%. Sem falar na diminuição do tamanho das embalagens.” 

A experiência do Chile

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
Desde 2016, quem vai ao supermercado no Chile talvez pense duas vezes antes de comprar algo com um octógono de fundo preto na frente do produto escrito “alto em azúcares”, “alto en grasas saturadas”, “alto en sodio”, “alto en calorías”. Levaram-se 10 anos entre a aprovação da lei que exigia os selos e a implementação dela, mas virou um exemplo positivo usado pela OMS.

Foram criadas ainda outras normas, como a proibição da venda de alimentos que contenham selos em escolas e o veto da publicidade de produtos com selos direcionada a crianças nos meios de comunicação. Assim, os com embalagens com mais açúcar,  gordura ou sódio do que o estabelecido em lei  que usavam personagens infantis, tinham brindes ou qualquer atrativo para os pequenos não podem mais ser vendidos no país.

Seis meses após a implantação do novo modelo, o Ministério da Saúde do país fez uma pesquisa com mais de mil pessoas e só 8,4% acreditam que a nova rotulagem não influenciou suas compras. Já 67,8% afirmaram que escolhem alimentos com menos selos e 9,7% disseram que não consomem alimentos com selos.

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