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Correio Braziliense ENCONTRO COM O CHEF

Pratos tradicionais coreanos levam clientela a uma viagem gastronômica

Com cardápio que oferece opções veganas e bufê brasileiro, clientes visitam país asiático sem sair do centro do Plano Piloto


postado em 08/04/2018 07:00

A dificuldade das pessoas em pronunciar o seu nome era tanta que Soo Hyun Jung decidiu se autobatizar de André. É assim que o coreano se apresenta a todos que vão ao seu restaurante. Lá, um cardápio recheado de receitas típicas da Coreia divide, diariamente, o espaço com um bufê de comida brasileira.

Nem sempre, porém, foi assim. Apesar de ter nascido e crescido na Coreia, quando decidiu abrir um restaurante, em 1996, André servia apenas refeições brasileiras. Os pratos coreanos ficavam restritos a eventos esporádicos e datas comemorativas. 

A filha mais velha dele, Renata Jung, que também enveredou pelo ramo da gastronomia, conseguiu convencer o pai de que oferecer a comida dos ancestrais era uma ótima ideia. E assim é desde 2013. “Hoje, a demanda é dividida”, calcula a jovem. Mas, antes de chegar aos dias atuais do Happy House, restaurante escondido no segundo subsolo do Venâncio 2000, há muitos “causos” para contar da família Jung.

Na juventude, André serviu o Exército coreano por três anos, em Seul. Com um sotaque ainda muito carregado, ele conta que, evangélico, tocava tuba e cantava no coral da igreja. Um dia, o seu superior começou a fazer uma espécie de bullying, dizendo que ele tinha voz de mulher. “Avisei a ele, então, que ia largar o cristianismo e me converter ao budismo.” 
(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press; )
(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press; )

Mas o “chefe” não só não aceitou como, por punição, colocou André para trabalhar como cozinheiro. “Preparávamos comida para 3 mil pessoas.” E, assim, o coreano teve seu primeiro contato com uma cozinha.

Uma coisa é certa: André adora comer. Quando veio morar no Brasil, onde os pais já estavam estabelecidos, na década de 1980, ele recorda-se que um dos primeiros lugares que visitou foi o Restaurante Roma, na W3 Sul. “Comi uma feijoada e foram me dizendo o que tinha nela: orelha, rabo, pé de porco... Adorei. Na verdade, eu gosto mesmo é de comer”, conta, aos risos.

Concorrência

Ainda não foi naquela época, no entanto, que ele começou a trabalhar com gastronomia. Depois de se casar com uma coreana que conheceu em terras candangas, André trocou Brasília por São Paulo. No Bom Retiro, bairro onde se concentra a comunidade coreana, teve as duas filhas e abriu uma confecção de roupas, até que os chineses entraram de forma avassaladora no mercado brasileiro. “Eu gastava R$ 3 para comprar o tecido de uma blusa e mais R$ 3 com mão de obra. Eles vendiam a mesma blusa por R$ 4.” Não deu para segurar a concorrência “desleal”, e André quebrou.

Ele decidiu, então, começar vida nova em Brasília. Contratou dois cozinheiros e abriu o Happy House. O ano era 1996 e a casa servia refeições brasileiras no esquema self service. Mas, como “gosta de comer”, André começou a estudar e a conhecer a gastronomia local. “Devorava os livros de receita.” Em pouco tempo, ele estava também comandando as panelas.

Renata, por sua vez, cresceu no restaurante. Servia as mesas e ficava no caixa. Também gostava de frequentar a cozinha. Quando escolheu que profissão seguir, pareceu natural ser a gastronomia. Fez faculdade na área e, hoje, divide as panelas com o pai, apesar de “ele achar que sabe tudo”, como define a jovem em tom de brincadeira. Partiu dela a ideia de introduzir os pratos coreanos no restaurante, servidos à la carte.

Comida saudável

“Eu cresci almoçando comida brasileira, aqui no restaurante, e jantando coreana, em casa. Todas as noites, meus pais preparavam um prato típico do país deles.” No ano passado, Renata passou sete meses em Seul, onde alguns parentes — inclusive o avô materno — ainda moram. “Meu coreano estava enferrujado, queria aperfeiçoá-lo. Aproveitei para estudar um pouco mais da culinária coreana”, conta. Na bagagem, trouxe muitas ideias para o cardápio.

Assim como a culinária oriental em geral, a coreana é bem saudável. André, inclusive, orgulha-se de, aos 59 anos, não ter um fio de cabelo branco — fato que ele credita à boa alimentação. Com muitos legumes, cogumelos e carboidratos do bem, eles não são consumidores contumazes de carne — mesmo que o churrasco coreano, o bulgogui, seja um dos seus pratos preferidos. “Como a carne bovina é muito cara na Coreia, eles comem mais a suína”, ensina Renata. “E mesmo a bovina vem muito gordurosa.”

Outra característica da culinária coreana é o uso de pimenta — “aqui, nós até maneiramos para adaptar ao paladar brasileiro”, diz Renata — e a fermentação dos legumes — “isso ocorre por conta da necessidade que tínhamos de conservar os alimentos”, completa André. O kimchi, iguaria fermentada à base de acelga, por exemplo, está para os coreanos como o chucrute para os alemães, e encontra-se presente em quase todas as receitas tradicionais.

Um detalhe é que, no Happy House, todos os pratos vêm acompanhados do banchan, espécie de acompanhamento com várias entradinhas típicas. Para a coluna, Renata escolheu a receita de um prato que é consumido em ocasiões festivas. O tcháp tché é feito com macarrão de fécula de batata-doce e muitos legumes. O variado cardápio, que ainda inclui várias opções veganas, é uma ótima opção para quem quer viajar por terras coreanas sem sair da área central de Brasília.
(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press; )
(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press; )


Tcháp tché

Ingredientes
  • 300g de macarrão de fécula de batata-doce
  • 50g de filé-mignon
  • 1 cenoura
  • 1 cebola
  • Pimentões verde, amarelo e vermelho (½ de cada um)
  • 1/2 cabeça de brócolis
  • 4 unidades de cogumelo shitake
  • 4 unidades de cogumelo orelha de pedra
  • 1 colher de sopa de açúcar
  • 1 colher de sopa de shoyu
  • 3 colheres de sopa de óleo de gergelim
  • 1 pitada de pimenta-do-reino
  • Semente de gergelim a gosto (para decorar)
  • Cebolinha picada a gosto (para decorar)

Modo de preparar
  • Coloque água para ferver em panela funda e, quando atingir fervura, desligue o fogo. Coloque o macarrão e, com a tampa fechada, deixe por cerca de 15 minutos. Em seguida, escorra o macarrão.
  • Corte os pimentões, a cenoura, a cebola, o filé-mignon e o shitake em tiras finas.
  • Corte o cogumelo orelha de pedra e o brócolis grosseiramente à mão.
  • Em uma frigideira, refogue os legumes, a carne e os cogumelos com os temperos.
  • Acrescente o macarrão na frigideira e misture até que os legumes estejam incorporados ao macarrão por cerca de 5 minutos.
  • Finalize o prato com semente de gergelim e cebolinha.
  • A porção serve de 2 a 3 pessoas

Serviço

Happy House Korean Food
Venâncio 2000, segundo subsolo
Telefone: 3322-0177
Abre de segunda a sexta, 
das 11h às 21h, e aos sábados, das 11h às 16h

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