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Correio Braziliense TURISMO

Mulheres contam como superaram o medo de viajar sozinhas

Elas ainda dão dicas de como, neste mundo machista, se manter segura e aproveitar ao máximo a experiência


postado em 15/04/2018 07:00 / atualizado em 12/04/2018 17:03

"Somos humanos, sentimos falta de alguém por perto, mas isso não pode impedir de aproveitar a viagem" Gaia Passareli, autora do livro Mas você vai sozinha? (foto: Reprodução/Facebook)

Durante muito tempo, mulheres não eram bem-vistas ao andar sozinhas na rua, quem dirá viajar para outro lugar sem companhia. Os tempos são outros, mas ainda existem preconceitos e barreiras que impedem muitas delas de embarcarem em uma aventura solo. “Quando você está com um homem do seu lado, é muito mais aceitável socialmente. É meio que esperado que você esteja com um alguém quando viaja”, ressalta a escritora e jornalista Gaia Passareli, 40 anos, autora do livro Mas você vai sozinha?, que reúne experiências de viagens por mais de 23 países, além de destinos pelo Brasil.

Ainda que existam tantos empecilhos, dados do Ministério do Turismo de 2017 mostram que pelo menos 18% das mulheres brasileiras preferem viajar sozinhas. O índice é superior ao da preferência dos homens, que ficou em 12%. Mais que números, esses dados mostram que cada vez mais mulheres estão dispostas a viajar independentemente de ter ou não alguém para acompanhá-las.

A brasiliense Juliana Pacheco, 27, é uma delas. Moradora do Jardim Botânico, ela conta que sempre gostou de conhecer novos lugares. Mesmo na faculdade, quando o dinheiro estava curto, ela dava um jeito. Mas sempre acompanhada. Viajar sozinha, para ela, era algo que dava medo. “Eu sempre fui de jantar, ir ao cinema e ao teatro sozinha. Nunca precisei que as pessoas fossem comigo para me sentir bem. Mas viajar era um grande passo que eu ainda não tinha tentado.”
"Eu sempre fui de jantar, ir ao cinema e ao teatro sozinha. Mas viajar era um grande passo que eu ainda não tinha tentado" Juliana Pacheco, estatística (foto: Arquivo Pessoal)

A jovem começou a ir para São Paulo e Rio de Janeiro sozinha, porém, a trabalho, para participar de conferências e outras atividades. “Quando comecei a trabalhar, sabia que viajar era uma coisa que eu queria fazer constantemente. No começo,  sempre ficava esperando alguém para ir comigo. E aí eu comecei a perceber que não poderia esperar por ninguém, que eu tinha que ‘meter as caras’”, afirma.

Com isso, começou a tomar coragem para ingressar em novas aventuras. O destino mais desafiador para Juliana foi passar um tempo em Buenos Aires, na Argentina, e Montevidéu e Punta Del Este, no Uruguai. “Eu fiquei meses pensando se eu seria capaz, porque eu não falava a língua dos países e não conhecia ninguém.”

Já a servidora pública Mariana Caetano, 23, moradora de Vicente Pires, costuma viajar sozinha para ir a festas e festivais. Sua primeira viagem completamente solo foi para o Lollapalooza, evento musical que ocorre todos os anos em São Paulo. Ela conta que a ideia surgiu quando viu que nenhum dos amigos poderia acompanhá-la. “Antes de viajar, eu estava com muito medo, muito mesmo. De ser enganada, de abusos etc. Mas depois eu vi que é bem tranquilo, é apenas questão de ficar sempre atenta. Para mim, viajar sozinha tem bem mais pontos positivos que negativos.”

Pode ser libertador

"A gente é capaz de fazer muito mais do que acha, e a sensação de liberdade é maravilhosa" Mariana Caetano, servidora pública (foto: Arquivo Pessoal)
 
Mariana Caetano e Juliana Pacheco são unânimes em afirmar que os resultados mais marcantes das viagens foram o fato de gostarem mais da própria companhia e de superarem os medos. Mariana classifica como ponto alto da aventura poder observar e processar tudo o que viveu de uma forma mais íntima. “Com isso, passei a gostar mais de ficar só.”

Mesmo com medo de não conseguir dar conta de se virar no exterior, Juliana Pacheco tirou bons ensinamentos das viagens. Ela afirma que também aprendeu mais sobre si mesma e a se virar. “Antes, eu tinha medo de lidar com os meus pensamentos. Mas aí eu vi que conseguia. A gente é capaz de fazer muito mais do que acha, e a sensação de liberdade é maravilhosa.”

Consultora em marketing digital e autora do blog Viajante Solo, Denise Tonin reúne na bagagem mais de 15 anos embarcando sozinha para aventuras mundo afora. Seu blog, o primeiro do Brasil a falar sobre viagens desacompanhadas, é voltado, principalmente, para mulheres que já passaram pela experiência e para as que querem vivê-la. E ela afirma que várias leitoras a procuram em busca de ajuda para enfrentar o medo de ficar sozinha ou de que algo possa acontecer.

“A gente precisa começar a parar de sentir tanto medo. É preciso fazer uma autoanálise e se perguntar: ‘do que você tem medo?’. Procurar em si qual é o verdadeiro temor e tentar lutar contra isso”, aconselha Denise. Quanto ao fato de sentirem solidão, a escritora Gaia Passareli afirma que, em alguns momentos, é normal ter saudade dos familiares e amigos. “Somos humanos, sentimos falta de alguém por perto, mas isso não pode impedir de aproveitar a viagem.”
"É preciso fazer uma autoanálise e se perguntar: 'do que você tem medo?'" Denise Tonin, autora do blog Viajante Solo (foto: Reprodução/Facebook)

Mas é preciso ter cuidado

Juliana Pacheco afirma que os assédios a que as mulheres estão sujeitas são quase sempre iguais aos que sofrem quando estão na própria cidade. “A gente passa dificuldades simplesmente por ser mulher. Acontece na cidade que moramos, então acontece em outros lugares também”, compara. E, mesmo com as incríveis experiências que se tem quando a viagem é solo, é sempre importante lembrar que o mundo ainda é muito perigoso e que as mulheres correm mais riscos de sofrerem assédios e abusos. Fique atenta às dicas:
 
  1. Mantenha sempre contato com alguém da família e avise quando estiver indo para algum outro lugar. “Se o destino forem festivais ou lugares turísticos, a dica é ficar sempre atenta, não andar com bolsas, preferir doleiras ou cartucheiras e, sempre quando for pedir informações, evitar falar que está sozinha”, sugere Mariana Caetano.
  2. Atenção é tudo. Não dê bobeira para não se aproveitarem de você. “Esteja ciente dos riscos que você se dispõe a correr. Estamos em perigo sempre, só por sermos mulheres. E, em viagens, ficamos mais vulneráveis ainda. É preciso estar esperta ao seu entorno”, afirma Gaia Passareli.
  3. Gaia ainda afirma que, antes de tudo, conheça a cultura do lugar que você vai visitar. “Muitas vezes, a nossa insegurança é porque a gente não consegue visualizar o local, por isso tem que pesquisar, já ter o lugar onde ficar. Organize-se. Isso vai fazer você ficar mais segura”, aconselha a escritora.
  4. Faça aliadas nessa jornada, outras mulheres estão dispostas a ajudar. “Entre em contato com mulheres do local que você vai. Elas são muito receptivas para receber aquelas que viajam sozinhas”, conta Gaia.
  5. De olho na grana! É importante que você se planeje para não passar aperto financeiro durante a viagem. “Aprenda a lidar com o dinheiro, organize-se, seja responsável pela liberdade financeira. Isso é essencial para sua emancipação”, diz a escritora.
  6. Procure por programas mais baratos e encontre o equilíbrio. “A gente não precisa comer em restaurantes sempre nem fazer todos os passeios com agências. Faça alguns sozinha, tem muitos museus gratuitos e é só se programar. Também opte por ficar em hostels, lugares onde você pode alugar apenas uma cama”, aconselha Denise Tonin.
  7. Aprenda a viajar leve. Isso foi uma das lições importantes para a Gaia Passareli. “A gente não precisa do tanto de tranqueira que levamos. Uma mala muito grande no meio do metrô, por exemplo, pode ser um indicativo de pessoa que está viajando pela primeira vez e que está perdida, e é mais propício para que outras pessoas ofereçam ajuda para levar sua mala e acabar se aproveitando da situação.”
  8. Escute seu instinto durante a viagem. “Se tem uma voz dentro de você dizendo para não ir a algum lugar, não vá. Às vezes, só você vai saber o que é isso e é melhor escutar quando sua mente não está muito confiante”, afirma Denise.
  9. Gaia fala de alguns fatos básicos que também devem ser lembrados, como não aceitar bebida de estranhos. “Aquele cara desconhecido que se oferece para levar sua mala no meio do nada? É melhor não aceitar. Assim como, se oferecerem carona no meio da noite, não arrisque.”
 
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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