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Correio Braziliense CAPA

Manter o cérebro ativo em qualquer idade garante longevidade e saúde

Estimular e desafiar o cérebro é fundamental, sobretudo com a chegada da velhice. Seja em centros especializados, seja em casa, saiba como manter o cognitivo sempre em movimento


postado em 15/04/2018 07:00 / atualizado em 13/04/2018 13:09

Aos 75 anos, Afonso Eduardo Botelho não perde um dia de aula para estimular a mente: tardes ocupadas(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Aos 75 anos, Afonso Eduardo Botelho não perde um dia de aula para estimular a mente: tardes ocupadas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
O som de muitas gargalhadas e um certo burburinho antecedem a chegada de seu Afonso à sala de convivência. Rindo e cumprimentando todos pelo nome, o aposentado de 75 anos se apresenta para o início das atividades do dia. Viúvo, Afonso Eduardo Botelho de Magalhães participa das aulas todos os dias da semana.

No centro de convivência e moradia de idosos localizado no Sudoeste, joga dominó, dança, faz atividades de leitura e escrita e ainda auxilia os idosos que não têm a mesma lucidez que ele. Seu Afonso conhece todos pelo nome — toda vez que chega algum novato, repete o nome dele até decorar, e afirma que isso também é um exercício de memória. “A gente não se exercita só na atividade, tem que ser no dia a dia.”

Com atividades durante toda a tarde, de segunda a sexta, seu Afonso conta que há cerca de seis meses, antes de conhecer o espaço de convivência, passava as tardes sozinho, assistindo à televisão, e começou a perceber que o raciocínio já não era o mesmo. Sem estímulos, passou a sentir os efeitos do declínio mental — movimento comum a todo ser humano e que se acentua quando o cérebro “se acomoda” e não é forçado a pensar e a trabalhar.

Na terceira idade, é comum que aconteça o declínio mental, mesmo para aquelas pessoas que não têm nenhum tipo de patologia. Com o aumento da longevidade, cada vez mais idosos se deparam com dificuldades de raciocínio, problemas de memória e desafios na socialização. No entanto, existem exercícios que ajudam a retardar esse declínio.

Foi essa a solução que a geriatra encontrou para seu Afonso. “Em consultas de rotina, ela disse que não era bom ficar muito tempo à toa em casa, só assistindo à tevê a tarde inteira. Ela disse que eu perderia funções cognitivas e que isso não era saudável para o cérebro”, lembra. Foi aí que o aposentado resolveu investir no centro-dia. Simpático, logo se tornou muito querido por todos os funcionários e moradores do local. Conversador, é descrito como uma pessoa paciente, que exercita a mente ensinando e ajudando os outros.

Depois de alguns meses, seu Afonso notou a melhora. A memória voltou a funcionar de forma mais eficiente e a rapidez de raciocínio de manteve mais constante. Ele se tornou mais independente: vai e volta sozinho do espaço, usa Uber e não depende do filho ou da nora para se locomover.

A experiência dele, assim como a dos outros idosos com os quais a reportagem conversou, mostra a importância da estimulação cognitiva na terceira idade. Assim tem ocorrido um aumento nos cuidados com a saúde física e se tem vivido mais anos com qualidade de vida, é importante também investir na saúde mental.

Estímulo constante

Uma pesquisa realizada pela farmacêutica Bayer em todas as regiões do Brasil aponta que 22,8% dos idosos nunca leem ou praticam atividades que desafiem o cérebro. Em Brasília, a porcentagem de pessoas com mais de 60 anos que se descuida no que diz respeito à estimulação intelectual e cognitiva e nunca exercita a mente é levemente menor: 22,5%. Apenas 18,1% da população idosa brasileira faz esse exercício diariamente — no DF, o índice é ainda mais baixo: 14%.

Em outra pesquisa, feita pela farmacêutica Pzifer em todas as regiões do Brasil, sobre como os brasileiros encaram o envelhecimento, apenas 28% dos idosos ressaltaram a importância do cuidado com a mente quando perguntados sobre o que acham que contribui para chegar bem à maturidade. Tais cuidados, incluindo pensamentos positivos e cuidado psicológico, ficaram em quarto lugar nas respostas, sendo precedidos por cuidar da saúde de forma preventiva, ter uma alimentação saudável e praticar exercícios físicos.

Os dados são preocupantes no que se refere à qualidade de vida nos quesitos lucidez e independência das pessoas com mais de 60 anos. Com foco nesse cuidado, diversos estudos mostram os efeitos benéficos da estimulação contínua do cérebro. Como consequência, a quantidade de pessoas que buscam orientação e serviços que os auxiliem em exercícios mentais tem aumentado.

Em Brasília, é possível encontrar o serviço em clínicas especializadas. Muitos dos centros de cuidados e de moradia de idosos também investem em programações que buscam a constante atividade mental e a independência dos idosos. Médicos e terapeutas ressaltam, porém, que esses locais oferecem diretrizes e que também é possível que o idoso faça o trabalho de estimulação em casa.

Fazer palavras-cruzadas e sudoko, ler, manter-se atualizado pelos noticiários, pintar, brincar com jogos que exigem raciocínio, como dominó, jogo da memória, damas, xadrez, entre outros, são algumas das atividades que auxiliam e que podem ser feitas em casa, com familiares e amigos. Além de exercitar a mente, são prazerosos. 

Longevidade

Quantas vezes por semana você lê um livro ou faz alguma atividade desafiando seu cérebro

Brasília 
32% — Um ou dois dias na semana
22,5% — Nunca
19,5% — Três a quatro dias
14% — Todos os dias
12% — Cinco a seis dias

Brasil
24,4% — Um ou dois dias na semana
22,8% — Nunca
20,5% — Três a quatro dias
18,1% — Todos os dias
14,2% — Cinco a seis dias

Na sua opinião, quais são os segredos da longevidade?

Brasília
20,3% dos idosos responderam “permanecer ativo”
19,3% praticar atividades físicas

Fonte: Pesquisa Bayer sobre a longevidade
 

Atividades diárias 

As psicopedagogas Vânia Rios e Maria Francisca Rios comandam uma empresa de acompanhamento pedagógico infantil e, recentemente, após fazer cursos de especialização, perceberam a importância de estender serviços de estimulação cognitiva aos idosos. A iniciativa busca estimular a independência e a autonomia das pessoas acima de 65 anos a partir do exercício constante da mente, mantendo-a sempre desperta e aguçada.

Com exercícios de escrita e memória, além de jogos que exigem raciocínio lógico e concentração, as profissionais montam aulas personalizadas de acordo com a necessidade do idoso. Além de pessoas que querem apenas evitar a perda cognitiva, o serviço é oferecido a pacientes com diagnósticos precoces de Alzheimer e outras doenças degenerativas. “Quando o trabalho é iniciado imediatamente após o diagnóstico, é possível retardar o prejuízo causado pela doença. O cérebro, mais estimulado e criando novas sinapses constantemente, apresenta os sintomas mais lentamente, permitindo mais tempo de lucidez”, explica Vânia.

Além de manter as funções cognitivas, a iniciativa busca estimular a independência das pessoas mais velhas. “Com a diminuição das sinapses cerebrais e a falta de estimulação, os idosos encontram dificuldades em coisas simples do dia a dia, como em lembrar a senha do banco e manter um diálogo. Isso os deixa mais vulneráveis a diversas situações de risco, além do isolamento e da depressão”, alerta Francisca.

Com a ausência de estimulação, as chamadas ausências — quando a pessoa fica alheia ao que acontece ao seu redor — tornam-se cada vez mais frequentes. As psicopedagogas ressaltam a importância de participar de aulas ou de atividades estimulantes, mas acrescentam que funções diárias simples também são fundamentais no quesito cognitivo.

Continuar gerindo a casa, cozinhando quando é prazeroso, realizando serviços diários, como ler o jornal, se corresponder, responder a mensagens, fazer listas de compras e estar ciente do que ocorre ao seu redor de uma forma geral são maneiras de manter a mente ativa, explicam as profissionais.

Mesmo bastante ativa, Raílda Lacerda Confort decidiu estimular o lado cognitivo: memória reativada (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Mesmo bastante ativa, Raílda Lacerda Confort decidiu estimular o lado cognitivo: memória reativada (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Essa é uma das maneiras com que a enfermeira aposentada Raílda Lacerda Confort, 73 anos, se mantém lúcida. Ela viaja, faz caminhadas diariamente, vai ao shopping com as filhas e o marido e costuma até mesmo sair sozinha de vez em quando. “Acho importante não ficar parada. Teve uma época em que até queria voltar a trabalhar só para ter motivos para sair de casa todos os dias”, conta.

Raílda também não gosta de outra pessoa cuidando de sua casa. Lava, cozinha e passa roupas. De 15 em 15 dias, tem uma faxineira para ajudá-la com os serviços mais pesados, mas afirma que, em suas panelas apenas ela pode mexer.

Apesar da vida ativa, começou a experimentar algumas dificuldades de memória e, por isso, optou por começar a fazer aulas na Intelecto, o centro de desenvolvimento de Vânia e Francisca. “Comecei a esquecer algumas besteirinhas e acho que, estudando, estimulando meu raciocínio, vou conseguir manter minha memória melhor”, acredita. 

Fugindo do ócio e da solidão 

Amigas de seu Afonso, o idoso cuja história contamos no início desta reportagem, Girlene Lins de Goes, 68 anos, e Maria Conceição Machado Guimarães, 80, são moradoras do centro de convivência Longevitá.

"Tive um AVC em 2001 e, desde então, tenho algumas dificuldades cognitivas. Gosto de ficar aqui, pois estou sempre recebendo estímulos e isso me ajuda a manter a mente mais ativa, além de ter meus amigos%u201D Girlene Lins de Goes, 68 anos (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Dona Girlene passou quatro meses fazendo atividades do centro-dia, assim como o amigo, mas gostou tanto que pediu aos filhos para se mudar para o espaço, onde vive há sete meses. “Tive um AVC em 2001 e, desde então, tenho algumas dificuldades cognitivas. Gosto de ficar aqui, pois estou sempre recebendo estímulos e isso me ajuda a manter a mente mais ativa, além de ter meus amigos”, diz, sorrindo.

As atividades com as quais mais se identifica são o dominó, a pintura e a culinária. Seu Afonso costuma ajudá-la quando apresenta dificuldades. A aposentada lembra que, quando ficava em casa, passava as tardes vendo televisão e apreendia muito pouco do que estava assistindo. Hoje, além de estudar, faz aulas de dança e costuma cantar enquanto pinta ou cozinha.

Giovanna Macedo Braga Jucá, terapeuta ocupacional da clínica, observa que a mudança de humor em dona Girlene também foi significativa. A estimulação mental, além de trabalhar o aspecto cognitivo, promove mais autonomia e uma melhora no humor. “Quando chegou aqui, ela vivia muito triste, sentia-se só e chorava quase todos os dias. Hoje, além de passar o dia todo sorrindo, ela teve uma melhora na parte intelectual.”

A terapeuta ressalta que a convivência com outros idosos, com os quais têm assuntos em comum e experiências a compartilhar, é um fator essencial para manter a mente sã. E, mesmo com as pessoas que vivem no espaço, há um trabalho de autonomia constante. “Os que têm condições se vestem sozinhos, se arrumam para os passeios que fazemos, circulam livremente pelo centro. E isso também pode ser trabalhado dentro de casa. Enquanto escolhe uma roupa, cozinha, faz pequenas tarefas diárias, ocorre a estimulação mental”, explica.

Maria Conceição Machado gosta de fazer artesanato: conexões cerebrais ativadas(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Maria Conceição Machado gosta de fazer artesanato: conexões cerebrais ativadas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Dona Maria Conceição completa o trio de amigos e, com dona Girlene, está entre as parceiras de dança preferidas de seu Afonso. Ela vive no espaço desde novembro do ano passado porque, apesar de ser totalmente lúcida, tem problemas no coração que não permitem que fique sozinha. Ela tem um cotidiano agitado e gosta de ter uma rotina com horários pré-estabelecidos. Conceição passa a maior parte do tempo livre na cozinha experimental do espaço. Costuma preparar refeições para as amigas.

Entre as atividades que trabalham o cognitivo, prefere o artesanato. Além de estimular as conexões cerebrais, sempre conhece novas técnicas e produz objetos que guarda para si ou usa para presentear familiares e amigos. Para ela, a principal diferença foi sentida na memória. “Eu melhorei muito. A leitura também ajuda bastante. Acho que precisamos manter o cérebro sempre ativo, senão a gente se acomoda e vai se perdendo. Eu gosto muito de aprender, e isso não tem nada a ver com a idade. Sempre é tempo de aprender”, completa. 

Agradecimentos:
  • Intelecto — Centro de Desenvolvimento Humano 
  • Espaço Longevitá Método Supera 

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