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Correio Braziliense CAPA

Brasília cria uma identidade própria e derruba estereótipos

Com uma geração que se orgulha de ser brasiliense, a capital, apesar de tão jovem, agora cria sua própria personalidade


postado em 22/04/2018 07:00

Caius César trocou a estabilidade de um emprego público para ser dono do próprio tempo(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Caius César trocou a estabilidade de um emprego público para ser dono do próprio tempo (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Com 58 anos recém-completados, Brasília não é a mesma. Se seus pioneiros chegaram à terceira idade, a juventude pipoca e leva a cidade a novos rumos. A capital federal tem quase 30% da população com idade entre 15 e 29 anos — todos influenciando para que a metrópole seja considerada o melhor lugar no Brasil para se viver, como constatado em pesquisa da empresa internacional de consultoria Mercer.

E muita coisa mudou nessas quase seis décadas. Brasília não é apenas a “capital do rock”, como era considerada nos anos 1990. Os ritmos variam e ocupam espaços públicos. Também não é mais a cidade de concurseiros e concursados. Mais do que nunca, o brasiliense passou a empreender. O Lago Paranoá — antes com acesso restrito a quem tinha lancha e para os poucos que pescavam ou frequentavam o Piscinão do Lago Norte — está, agora, inserido no dia a dia de muitos.

Em Brasília há cinco anos, o vice-presidente do Conselho Nacional da Juventude, Marcus Barão, lembra que não via um movimento empreendedor tão forte na cidade quanto hoje. E cita o exemplo dos coworkings, espaços para se unir e fazer projetos juntos, inovar nos métodos de produção e nas tecnologias. “É uma possibilidade para a sociedade não ficar para trás e aproveitar esse processo de desenvolvimento”, afirma.

Bom momento

Para Barão, o empreendedorismo é especialmente importante para o momento que o Brasil vive, com a maior população jovem da história do país. “Justamente por esse processo demográfico, precisamos de mecanismo para induzir a produtividade. Então, quando falamos em empreendedorismo, falamos de uma solução, especialmente de empregabilidade, porque o jovem promove o autoemprego e também cria novos postos de trabalho”, afirma.

Para o professor Vicente de Paula Faleiros, do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília, o perfil demográfico do DF foi mudando conforme o desenvolvimento da cidade. “Brasília era um lugar de migrantes e agora não é mais, é de pessoas que têm um vínculo com a cidade em que nasceram e isso cria uma identidade diferente”, afirma.

O professor vê o empreendedorismo como parte dessa nova identidade. “Temos uma geração mais antiga que conseguiu se empregar, principalmente, no governo. Hoje, para os jovens, está mais difícil nessa área, mas têm surgido outras oportunidades em outros setores, como nos negócios, na tecnologia”, explica Faleiros.

Nova identidade 

Ele ainda cita as empresas juniores das universidades como incentivadoras de jovens que querem abrir negócios. Em 2016, o Brasil superou a Europa e se tornou líder mundial nesse segmento. Segundo Luiz Felipe Guerra, estudante de engenharia elétrica e diretor de relacionamento da Federação de Empresas Juniores do Distrito Federal, a Concentro, na capital, há mais de 1,5 mil estudantes trabalhando em 40 empreendimentos espalhados em quatro universidades.

“O estudante tem a oportunidade de viver o aprendizado por gestão, tem contato com processos operacionais, de RH, financeiros, aprende a trabalhar com projetos. Depois, a pessoa pode tanto criar uma empresa quanto promover o infraempreendedorismo, que é ir a uma organização e inovar processos dentro dela”, explica.

E Brasília também está mais propícia para a abertura de negócios, com várias incubadoras e aceleradoras ajudando no processo. Para Guerra, uma das coisas que levam os jovens a empreender é a insatisfação com o serviço público: “Eu já trabalhei no governo e em empresas que prestam serviço para ele e, quando se pensa em inovação tecnológica, os órgão públicos não estão incorporados”, lamenta.

Caio Fernandes (ao fundo), Henrique Rocha e Gustavo Bertozzi, amigos há mais de uma década e sócios em um restaurante(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )
Caio Fernandes (ao fundo), Henrique Rocha e Gustavo Bertozzi, amigos há mais de uma década e sócios em um restaurante (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )

De concurseiro a empreendedor

Mas, se hoje o jovem quer empreender, ser dono do próprio tempo, os pais ainda ficam receosos. Querem toda a segurança possível para os filhos. Caio Fernandes, 25, administrador, conta que se deparou com o medo dos pais quando resolveu empreender. “Eu digo que eles estão preocupados desde meus 16 anos, quando abri minha primeira empresa”, brinca. Professores concursados, eles queriam que o filho fizesse um concurso e tivesse estabilidade antes de se arriscar em negócios. O filho, porém, surpreendeu positivamente.

No meio do ano passado, ele se associou a Gustavo Bertozzi, 25, programador e advogado, e Henrique Rocha, 26, engenheiro — ambos infelizes com suas áreas de trabalho. Henrique estava desempregado e não gostava do serviço tão metódico da engenharia. Gustavo era freelancer e estava cansado da instabilidade: tinha meses melhores e outros piores. As famílias dos dois já estavam acostumadas com os riscos de abrir um negócio, pois são quase todos empreendedores ou autônomos.

Todos têm entre dois e quatro anos de formados e se conhecem há mais de 10 anos. Pensaram em abrir uma hamburgueria, mas concluíram que o mercado já estava saturado. Decidiram investir em um restaurante de poke, um prato típico da culinária havaiana. Em oito meses, fundaram o L’a Pacific Food, com consultoria de uma chef, funcionários formados em gastronomia e estagiários que estudam na área. A casa está aberta no esquema soft opening — espécie de período de adaptação.

Para eles, preguiça não tem vez. “Se a gente quer que o negócio vá para a frente, tem que trabalhar muito. Só depende de nós”, afirma Henrique. Caio é o único que consegue contabilizar ao certo quantas horas trabalha por dia, porque tem mania de contar tudo: 13. Os outros imaginam que seja por aí também. “Foi o que nos permitiu abrir as portas tão rápido”, conclui Gustavo. 

"Brasília era um lugar de migrantes e agora não é mais, é de pessoas que têm um vínculo com a cidade em que nasceram e isso cria uma identidade diferente”
Vicente de Paula Faleiros, professor do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília

Um lago para todos

Não basta empreender. Os negócios têm que estar relacionados à responsabilidade social. É o caso de Marcelo Ottoni, 38 anos, bancário e proprietário de uma escola de canoa havaiana. Em 2013, depois de dois casos de vazamento no Lago Paranoá, ele criou o movimento #ocupeolago, que faria um protesto no dia 22 de março de 2014, Dia Mundial da Água.
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
De lá para cá, o movimento se tornou uma associação e a manifestação passou a ocorrer todos os anos. Em 2018, ano em que ainda houve o Fórum Mundial sobre o tema, um grupo de 100 voluntários participou de atividades no lago, como a coleta de lixo subaquática de resíduos, feita por integrantes de escolas de mergulho.
 
“O lago é outro desde que começamos, em 2014. Tinha muito menos gente ocupando, a orla não era desobstruída e não havia captação”, lembra Ottoni. A desobstrução da orla foi um empurrão a mais para esse movimento. 
 
Pegando carona nessa onda, as empresas de stand-up paddle, caiaque e remo se multiplicaram nos últimos anos. Marcelo Ottoni notou o aumento do público de 2013, ano de criação do #ocupeolago, para hoje. “Nosso objetivo era justamente chamar a atenção para o lago como instrumento de qualidade de vida”, afirma.

Aventura pelas águas

Cida Copriva, 72 anos, aposentada do Ibama, é uma das que acordam cedo para remar, provando que o exercício é para todas as idades. Toda equipada com os próprios remos, luva, colete salva-vida e até uma almofada para sentar, ela pratica canoa havaiana três vezes por semana. Ainda joga tênis duas vezes e dança zumba de vez em quando. “Eu saio do lago leve. E, ainda por cima, o pessoal aqui é uma família.”

A aposentada começou a remar há pouco mais de um ano. Surgiu para ela a oportunidade de descer o Rio Cristalino e, coincidentemente, na mesma época, viu uma reportagem sobre uma competição de canoa havaiana na capital. Já tinha andado de caiaque. Decidiu fazer aulas para se preparar para descer o rio. Mas admite que não curtiu de cara: “Na primeira vez, não gostei do grupo. Depois, achei um grupo com o qual me identifiquei”.

Ela morou por duas décadas fora do Brasil, na Índia e no Laos. Há cinco anos, veio a Brasília para viver uma vida tranquila. Conta que, antes de sair do país, era “urbanoide”. “A experiência na Índia me fez mudar. Eu fazia pesquisa na Amazônia pelo Ibama, mas era só trabalho. Fui criando uma relação diferente com a natureza.”

Cida criou um gosto especial por observar pássaros e até fotografá-los, ainda que de forma amadora. “Eu sempre vejo garça, bem-te-vi, um casal martim-pescador que acho que mora perto da ponte. É um privilégio. Foi muito bom terem desapropriado. A gente vai ao Pontão, passeia por toda a área que foi liberada. Quando ficar tudo pronto, vai ser lindo”, acredita.

Samba no coração da cidade

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
O grupo Samba Urgente toca junto há quase 15 anos. Eles são muitos: Arthur Nobre, 29, advogado, Rafael Pops, 39, produtor cultural, Saulo Veríssimo, 36, empresário, Vinícius Viana, 30, músico e professor, Pedro Berto, 28, policial militar, Augusto Berto, jornalista, Victor Angeleas, 28, músico, Heitor Toscanini, 31, músico e publicitário, e Fernando Brandizzi, 29, servidor público. Amigos que se conheceram em diversos momentos da vida — quase todos passaram pela Escola Brasileira do Choro.

No início, era tudo uma grande brincadeira: tocavam na festa de aniversário do pai, da avó, da irmã de qualquer um deles. Mas resolveram levar o som para o centro da cidade, para um público maior e diversificado. A primeira edição da festa foi em um clube, mas a segunda e a terceira — na última sexta-feira — foram no Setor Comercial Sul (SCS). “A gente quer promover música de qualidade de forma gratuita”, afirma Pops. Eles até gastam para fazer o evento, mas não se importam.

Revitalizando

Para eles, ocupar o SCS é uma forma de renovar o espaço. “A gente acha incrível poder usar um espaço desse, que está abandonado, marginalizado, deixado para a criminalidade”, afirma Pedro. Augusto ainda cita como o local sempre teve fama de ser perigoso: “Era um lugar onde as pessoas não vinham, muito menos sozinhas, mas estamos ressignificando isso”. Pops ainda ressalta que “um espaço só tem sentido se tiver gente nele” e é o que estão tentando fazer.

Festa no espaço público

Ricardo Midiato, 33 anos, Rafael Damas, 31, Bruno Sartório, 36, e Eduardo Alves, 35, empresários e produtores de eventos, identificaram um problema e transformaram em solução. Segundo eles, em todo lugar encontrar local para fazer grandes festas é um problema. A ideia deles foi pegar espaços poucos usados ou obsoletos e colocar pessoas para se divertirem.

Eduardo ainda ressalta que, após fazer um evento em algum espaço público, eles sempre procuram deixá-lo melhor. “Depois do Carnaval no Parque, decidimos reformar o Parque Ana Lídia, que faz parte da identidade de nós, brasilienses, e estava deixado de lado.”

Como empreendedores, o quarteto se orgulha também de trazer público de fora da cidade para conhecê-la. “A fama de Brasília era de ser uma cidade de político. Mostramos que é mais. Nós acreditamos muito no empreendedorismo. E acreditamos que pagar imposto é o mínimo que devemos fazer. Podemos fazer muito mais”, garante Ricardo. Neste ano, 12 mil dos ingressos vendidos do Carnaval no Parque eram para CEPs de fora de Brasília.

O primeiro negócio de Ricardo e Rafael Damas surgiu quando organizaram um churrasco de faculdade para 500 pessoas. Apareceram mil e, mesmo assim, foi um sucesso. A dupla virou a R2 Produções, ainda informal — colocavam todo o dinheiro arrecadado em um saco e contavam depois do evento. Eles contam que, na época, todo o mercado de festas era muito amador, então, sentiram-se pressionados a abrir algo mais formal: um bar. “Mas o trabalho era muito diferente. A gente não curtia, até que o bar foi fechado por conta da Lei do Silêncio e, do dia para a noite, ficamos sem nada”, conta Ricardo.

O prejuízo foi enorme, mas eles não desistiram. Voltaram a produzir eventos, se uniram aos publicitários Bruno e Eduardo e a empresa deles virou a R2 Produções como é hoje, responsável por grandes festas. Para atingir esse nível, precisaram se profissionalizar: contam com quase 100 colaboradores.

Mas tudo isso sem deixar de lado a descontração. “É uma empresa de diversão. Não dá para ninguém aqui dar diversão se estiver entediado no trabalho”, explica Rafael. Diretor de sustentabilidade, Eduardo também garante que as festas promovidas por eles têm consciência ambiental: “Em quase todo evento, o lixo é um problema. Nós fizemos com que ele fosse uma solução, renda para Associação dos Catadores e Recicladores de Resíduos Sólidos de Brazlândia”. 

"Depois do Carnaval no Parque, decidimos reformar o Parque Ana Lídia, que faz parte da identidade de nós, brasilienses, e estava deixado de lado”
Eduardo Alves

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