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Correio Braziliense ENCONTRO COM O CHEF

Afeto é ingrediente primordial em cozinha tradicional do Nordeste

O aconchego da família de origem nordestina é a receita certa para o sucesso de negócio tocado por mãe e filho


postado em 13/05/2018 07:00 / atualizado em 11/05/2018 15:41

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Há dois anos, quando a mãe de João Gabriel Amaral ficou doente, ele nem pensou duas vezes. Logo providenciou a mudança de Alba Amaral do interior do Maranhão, onde vivia, para Brasília. Além de lhe propiciar o melhor tratamento possível, ele queria que voltassem a morar juntos, depois de 13 anos separados.

Apesar de ter saído de casa aos 12 anos de idade, a relação entre mãe e filho sempre foi muito próxima. Ainda criança, João deixou Alto Parnaíba, cidade de 10 mil habitantes na divisa com o Piauí, para correr atrás do sonho de ser jogador de futebol. Treinou no time de base do Grêmio, em Porto Alegre, e, depois, no de Goiás, em Goiânia. Mas a baixa estatura fez com que desistisse da carreira de goleiro. “Tenho a mesma altura desde os 15 anos”, explica. João Gabriel, então, veio estudar em Brasília.

Com tino empreendedor, aprendeu a se virar desde cedo. Em uma das visitas da mãe à capital, pediu dinheiro para comprar um saco de pirulito. Queria vender para os colegas do Cean, colégio em que cursava o 3º ano do ensino médio. Vendeu o primeiro, o segundo saco. Depois, investiu em uma compra grande e, assim, foi ganhando uns trocados. “Sempre fui mão fechada, economizava muito”, diverte-se.

Com o fim do ensino médio, João Gabriel ingressou na faculdade de direito e o “ganha-pão” das balinhas acabou. Mas logo ele encontrou outros meios de ganhar os seus trocados. Economizou e passou seis meses nos Estados Unidos, aperfeiçoando o inglês e fazendo bico de manobrista. Quando voltou, foi trabalhar com recrutamento de pessoal e acabou se aproximando dos donos do Primeiro Bar. “Quando eles abriram a Hum! Burguer, virei uma espécie de gerente das lojas.”

Foi justamente nessa época que eles descobriram que Alba estava com câncer. “Eu estava trabalhando muito e, apesar de a minha mãe estar do meu lado, não tinha muito tempo para cuidar dela.” Curada da doença, Alba chegou a voltar para Alto Parnaíba, mas aquilo estava incomodando João Gabriel. “Não queria mais ficar longe dela.” Foi aí que ele teve a ideia: montar um negócio para os dois tocarem juntos.

“Eu nem sabia se o dinheiro ia dar, mas decidi meter as caras. Aluguei uma loja na 109 Norte e comecei a obra para abrir um café”, diz o empresário, hoje com 25 anos. Quando Alba, 50, chegou, ele contou a sua ideia: na contramão da onda gourmet, montaria uma casa com comidinhas bem caseiras, aquelas que ele comia na infância. E a mãe seria a cozinheira. Ela se assustou. Apesar de pertencer a uma família grande, de 11 irmãos, nunca tinha cozinhado para tanta gente.

Mas enfrentaram o medo e seguiram em frente. “Sentei com ela e fomos montando o cardápio. Teria que ter tapioca (ou beiju no Maranhão) e cuscuz fresquinhos, os bolos de banana, de macaxeira e de coco, receitas antigas da família, carne de panela desfiada e, claro, café coado”, enumera. O nome escolhido para o novo estabelecimento, aberto em junho do ano passado, sintetizava a proposta da casa: Café e um chêro.

Comida afetiva

E Alba foi para a cozinha. Muitas das receitas ela aprendeu com a avó. “Minha mãe morreu muito cedo e fomos criados por minha avó paterna. Eram nove homens e apenas duas mulheres. A minha irmã começou a trabalhar cedo e, na sociedade machista do interior do Maranhão, os homens não iam para a cozinha. Sobrou para mim os afazeres domésticos. Com 8 anos, a minha avó colocava um latão de tinta para eu alcançar a pia”, conta.

Por ser órfã, Alba costumava ficar muito próxima das mães das amigas e acabava por receber também muitas dicas de cozinha. Logo, ela conseguiu tirar de letra o desafio de comandar a cozinha de um café. “Em pouco tempo, tínhamos até fila na porta do café. Muitas pessoas pediam para falar comigo para agradecer. Elas diziam que era como ter voltado para a casa dos pais. Não tem alegria maior que essa”, emociona-se.

De fato, o Café e um chêro tenta despertar no cliente essa sensação de acolhimento. Desde o filtro de barro, a louça em ágata e, claro, a comida caseira, tudo foi pensado cuidadosamente. “É uma reprodução da casa em que cresci”, diz João Gabriel. O sucesso tem sido tanto que, em menos de um ano, mãe e filho abriram uma segunda casa, desta vez na Asa Sul. A inauguração foi na última segunda-feira.

João Gabriel garante que não poderia estar mais feliz com o sucesso nos negócios e a mãe bem pertinho. “Acima de tudo, nós somos amigos. Minha mãe sabe tudo da minha vida e eu sei tudo da dela.”

Serviço

Café e um chêro
109 Norte, Bloco C, Loja 37, 
telefone: 3036-4746.
107 Sul, Bloco C, Loja 2, 
telefone: 3254-6264
Abre de segunda a sábado, das 8h às 21h
 
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Cuscuz com queijo e ovo mexido

Ingredientes
  • ½kg de flocão de milho
  • 700ml de água
  • Queijo muçarela
  • Sal a gosto

Modo de fazer
  • Pode parecer simples preparar um cuscuz. E até é. Mas Alba Amaral dá a receita do sucesso: hidratar bem a massa. Coloque o flocão em um recipiente e acrescente a água. Deixe descansar por, no mínimo, 15 minutos. É isso que o fará ficar molhadinho. Unte a cuscuzeira com manteiga ou azeite (caso dos intolerantes à lactose) e ponha uma camada da massa. Intercale com o queijo e complete com mais massa. Leve ao fogo até começar a sair o vapor. Atenção também para a quantidade de água na cuscuzeira. Ela não pode estar nem muito cheia nem muito vazia. É possível substituir o queijo por outros recheios, como carne desfiada, presunto e o que mais a imaginação mandar. Sirva com ovo mexido.

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