Publicidade

Correio Braziliense CAPA

Cerrado brasileiro é fonte de inspiração para a criatividade de artesãos

Folhas, frutas e sementes do bioma brasileiro servem de matéria-prima e inspiração para artesãos candangos


postado em 20/05/2018 07:00 / atualizado em 18/05/2018 18:51

Segundo maior bioma do Brasil — dos seis existentes — o cerrado inspira. Situado na região central do país, corresponde a 20% do território nacional e está presente em oito estados: Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e, claro, o Distrito Federal. Aqui no quadradinho, seja pelas satélites, a vegetação encanta olhares e, nas mãos de artesãos, vira arte.

Para muitos brasilienses, as belezas do bioma podem até passar despercebidas na maior parte do tempo. Mas é só brotarem as primeiras flores de ipê que todos param para contemplar. Quando as gotinhas de chuva começam a cair depois de uma temporada seca, não há quem não comemore o verde imediato que surge. Todo esse mistério da mãe natureza é um estímulo para artistas e artesãos da cidade explorarem a criatividade e montarem marcas que exaltam o cerrado.

Há quem use as plantas para ornamentar com destreza e delicadeza acessórios como brincos, colares e pulseiras. Há quem crie estampas exclusivas com tintas extraídas das folhas e há até quem transforme flores e frutos em cosméticos naturais. Seja qual for a motivação, todos travam uma luta comum: preservar o cerrado por meio da conscientização e da sustentabilidade.

O botânico Luciano Coêlho Milhomens Fonseca, professor do curso de ciências biológicas da Universidade Católica de Brasília (UCB), explica que o cerrado tem vários tipos de fitofisionomias (diferentes aparências de vegetação): florestais, savânicas e campestres. Para ele, essa estética variada atrai a produção de artesanato. “Como atinge vários estados, cada região terá matéria-prima específica. No Tocantins, por exemplo, a presença do capim dourado tem um forte apelo, principalmente na decoração”, explica.

Para Luciano, toda iniciativa de trabalhar com o cerrado como matéria-prima para a confecção artesanal é bem-vinda. O consumidor terá maior preocupação com a sustentabilidade e dará mais valor ao trabalho regional. 

“Às vezes, ao comprar um colar feito por artesãos, a pessoa terá um olhar diferente para o que está em volta. Assim, terá respeito e admiração tanto pela mão de obra quanto pela vegetação do cerrado em si. Elas percebem que, sim, há beleza no cerrado, e a estética daqui não fica atrelada ao imaginário de um lugar seco”, reforça.

Além disso, Luciano ressalta a importância medicinal da vegetação. O líquido da semente de sucupira e o óleo-de-copaíba, por exemplo, são remédios naturais para dores de garganta e têm função antibactericida. As flores da macela-do-campo, por outro lado, apresentam um fator aromático marcante, seu odor é calmante e usado para melhorar a ansiedade. 

Em se tratando de alimento, algumas frutas até podem não ter aparência apetitosa, mas, geralmente, são secas por fora e carnosas por dentro. O exemplo clássico é a fruta mais conhecida na região: o pequi. “Outro caso é o jatobá. Há também o chichá, que é esteticamente muito bonita — avermelhada por fora e amarelada por dentro”, acrescenta.

Um bosque a serviço da moda

Raquel Bógea tira do quintal da sua chácara a matéria-prima que usa para tingir suas peças (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
Raquel Bógea tira do quintal da sua chácara a matéria-prima que usa para tingir suas peças (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
Em uma chácara no Lago Oeste, 9km depois da subida do Colorado, um ateliê de moda chama a atenção. Além de linhas, tesouras, agulhas e máquinas de costuras, o QG da estilista Raquel Bógea, 40 anos, conta com paramentas inusitadas para elaborar suas criações: plantas, árvores, sementes e folhas, todas colhidas no quintal de casa e a maioria típica do cerrado. Raquel tem na natureza sua principal matéria-prima. O resultado é a criação de estampas únicas para a marca Bosque Ateliê.

A estilista usa o cerrado para tingir as roupas. Duas pessoas a ajudam na costura, mas, quando o assunto é tingimento, só ela põe a mão na massa. As peças a serem transformadas precisam ser brancas — ou de cores bem claras — e de tecido natural, de preferência algodão. Raquel as lava com um produto específico para que a tinta pegue mais facilmente. Depois, escolhe as plantas, sementes, raízes, frutas e flores que soltam tinta, enrola com um plástico e amarra em um barbante. Finalmente, coloca as roupas em uma panela para ferver. “Cada peça leva quatro dias, mais ou menos, para serem finalizadas”, detalha.

Por esse motivo, Raquel vende suas criações apenas no Empório Lago Oeste, onde mantém uma banca. “Não daria conta da demanda que viria pela internet”, justifica. “Preciso formar alguém para ficar comigo no tingimento. Tem uma moça que me ajuda, mas ela começou há pouco tempo, precisa de mais treinamento.”

De mestra a aprendiz

Quando a Bosque Ateliê foi criada, Raquel tinha duas sócias, Marcela Buralli e Cecília Segré, que foram essenciais para o início da marca. Elas se conheceram por meio do projeto social Ateliê Rural, do Instituto Bógea, da família de Raquel, cujo objetivo é fazer da arte uma ferramenta de inclusão social para crianças em vulnerabilidade social do Lago Oeste. “Começamos com música e fotografia para crianças. Mas as mães iam para o projeto esperar os filhos e não tinham o que fazer”, relembra.

Como Raquel não sabia dar aula de música nem fotografia para as crianças, teve a ideia de fazer algo voltado para as mães. Decidiu oferecer curso de costura para que elas não ficassem com o tempo ocioso aguardando o término das aulas dos filhos. Assim, nasceu o Ateliê Rural. “Deu supercerto! Foi onde me descobri. Eu falei: ‘Nossa, é isso que eu quero para vida de agora em diante’”, lembra.

O momento, porém, coincidiu com o cenário sombrio da economia brasileira e vários patrocinadores deixaram de ajudar financeiramente o projeto. Raquel, cujo sustento dependia do instituto, precisou procurar outro meio de complementar a renda. Uma das alunas, a arquiteta Cecília Segré, queria aprender a costurar. Ela, por sua vez, conhecia uma técnica de tingimento que não usava produtos químicos, apenas vegetação: o ecoprint. Ou seja, 100% natural. Raquel se encantou e, de professora de costura, ela se tornou aprendiz de tingimento de Cecília.

Assim surgia a Bosque Ateliê, no início de 2016. Hoje, Raquel toca sozinha o negócio, mas a amizade com Cecília permanece firme. “Até hoje ela me ensina, e a gente troca muitas ideias. Eu falo que ela foi a minha mestra”, conta.

Trilhas e colheitas

"No começo, meus pais não gostaram da ideia. Mas, aos poucos, viram que não era brincadeira. Estava correndo atrás do meu sonho, que é a marca que eu acredito. Hoje em dia, eles me dão muita força." Ana Raquel Banquart, criadora da Capim Estrela (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A ideia de Ana Raquel Banquart, 25 anos, veio de fora do Brasil. Ainda universitária, ela cursava engenharia florestal na Universidade de Brasília (UnB) quando, em um intercâmbio que fez pela Espanha, viu mulheres usando acessórios com plantas e flores dentro de moldes. Apaixonou-se e quis trazer a ideia para cá. “Fiquei com isso na cabeça. Ficou marcado em mim”, relembra.

Ana decidiu, então, produzir colares, brincos, pulseiras  e uma infinidade de acessórios que levavam um pedacinho do cerrado, colocado dentro de pequenos vidros. Vendia na própria UnB, sobretudo, para os colegas de curso de engenharia florestal. Nos intervalos das aulas, colocava uma mesa no corredor do Minhocão (ICC) e expunha as peças. Caiu tanto no gosto do público que ela começou a vender pelas feirinhas da cidade. “Passei a vender também na loja colaborativa Endossa, o que me ajudou muito, fazendo com que mais pessoas conhecessem o Capim Estrela”, conta.

As peças são feitas com muita destreza, com as plantas impecáveis. Há três métodos para deixá-las assim: um deles é com resina; outro, com prensagem, secando a planta sem perder os traços originais dela. A terceira técnica, porém, ela não conta. “É um segredo. Não pode contar o segredo do chefe”, brinca.

O sucesso do Capim Estrela foi tanto que, para desespero dos pais de Ana Raquel, ela precisou trancar o curso para se dedicar integralmente à marca. “No começo, eles não gostaram da ideia. Mas, aos poucos, viram que não era brincadeira. Estava correndo atrás do meu sonho, que é a marca que eu acredito. Hoje em dia, eles me dão muita força”, orgulha-se.

O faturamento ela não conta, mas diz que está crescendo. “Tanto que eu já não consigo mais fazer tudo sozinha”, revela. Para ajudá-la, chamou a designer Gaia Diniz, 28, que a conheceu por meio do Capim Estrela, após comprar um colar. Ana soube que Gaia fotografava e a chamou para fazer um trabalho. Depois, Ana pediu para que ela refizesse o design da logo. Acabaram amigas. “Há um mês trabalho, efetivamente, produzindo as peças”, entusiasma-se Gaia.

Ana Raquel sempre amou a natureza, influenciada principalmente pelo pai, um apaixonado por plantas e cujo jardim de casa tem uma infinidade delas. “Meu pai é o nosso maior fornecedor”, brinca. Aos 15 anos, fez sua primeira viagem à Chapada dos Veadeiros de onde nasceu outra paixão e uma de suas maiores inspirações: as trilhas. Daí, veio outra inspiração: a água de algumas cachoeiras da região se tornaram bijuterias cheias de estilo.

Sustentabilidade e consciência

O mundo dá sinais da necessidade de parar com o consumismo desenfreado. A indústria da moda é uma das que mais gasta com água e emissão de CO². Para se ter ideia, uma camiseta leva 2,7 mil litros de água para ser fabricada. Já uma calça jeans gasta-se de 11 mil a 15 mil litros. “Além disso, são despejados produtos químicos nos rios. O impacto disso é altíssimo”, relata Chiara Gadaleta, especialista e consultora em sustentabilidade.

De acordo com ela, empoderar pequenos produtores e artesãos é essencial para desenvolver economias locais e reduzir a emissão de gás carbônico. Para isso, é essencial dar suporte a esses profissionais, tanto do ponto de vista de conhecimento e informação quanto de viabilidade de canais para que o produto dele chegue ao consumidor final. “A população está cada vez mais consciente da importância de consumir produtos sustentáveis. As marcas também mostram sinais positivos de que estão inserindo as questões sociais e ambientais nas suas agendas”, destaca.

Fundadora do portal Ecoera, criado há um ano, que funciona como um coletivo de ações e consultoria para integrar os mercados de moda, beleza e design a questões sociais e ambientais, Chiara dá suporte ao produtor para comprar matéria-prima em sua própria região. “Além disso, o portal lançou, este ano, a calculadora de pegada hídrica para conscientizar, calcular, criar metas de redução e até compensar o gasto hídrico, seja de uma marca, seja de um produto. Dessa forma, conseguimos ter uma gestão sustentável e responsável.”

Questionada sobre como a sociedade precisa entender a urgência da sustentabilidade, Chiara diz que ainda há um longo percurso para chegar ao cenário ideal. E que as empresas precisam educar os consumidores e mostrar a importância em adquirir produtos que incluam, em sua criação e em todo o processo de produção, a preocupação com o planeta e também com as pessoas. “As marcas, precisam aproximar seus clientes, provocar questionamento e fazer parte das mudanças em direção a produtos e processos mais limpos e verdes”, destaca. 

Onde achar?

Filigrana do Cerrado
SQS 314

Anna Aromas
Facebook: SaboariaAnnaromas

Capim Estrela
Site: capimestrela.com.br
Instagram: @capim_estrela

Bosque Ateliê
Facebook: bosqueatelie/
Instagram: @raquelbogea_
bosqueatelie/
 
* Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade