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Correio Braziliense BICHOS

Apaixonados por gato preto garantem que eles trazem sorte ao lar

Muitas vezes vítimas de preconceito, os gatos pretos têm também uma legião de apaixonados, que só veem vantagem em tê-los por perto


postado em 27/05/2018 07:00 / atualizado em 25/05/2018 17:50

Há quem acredite que ao passar por um na rua terá azar. Outros os agridem e maltratam por conta da pelagem escura. Os gatos pretos são, até hoje, alvo de maldades em datas específicas, como nas sextas-feiras 13 e em 31 de outubro, o dia das bruxas. Vulneráveis, muitas vezes são excluídos na hora da adoção. Mas, felizmente, há quem os ame incondicionalmente, passando por cima de crendices, superstições e lendas que envolvem esses animais.

As lendas em torno desses bichanos atravessam gerações. A mais conhecida vem do tempo medieval e dizia que, ao anoitecer, as bruxas transformavam-se em gatos pretos para se disfarçarem e espionarem as pessoas. Diante disso, eram queimados nas fogueiras. “Até hoje, o gato está ligado ao imaginário de que é traiçoeiro e dá azar”, explica Giovanna Adorni Mazzotti, veterinária especializada em medicina felina.

Voluntária do Abrigo da Ana, a universitária Luiza Borges de Oliveira, 20 anos, conta que há muitos gatos pretos castrados e vacinados no local. E, quando fazem campanhas de adoção em feiras, os pretos quase sempre voltam para o abrigo. Segundo ela, as pessoas preferem os animais de pelagem de outras cores, mesmo se não estiverem castrados e vacinados. “É muito triste. Temos gatos pretos extremamente dóceis, inclusive adultos. Lançam aquele olhar de ‘me dê amor, carinho e atenção’ a quem passe por perto”, lamenta.

Por outro lado, às vésperas das sextas-feiras 13, surgem muitas pessoas com interesse em adotá-los. Não só pretos, os brancos também. Tanto Luiza quanto a fundadora do abrigo, Ana Maria, ficam desconfiadas. De acordo com elas, quando surge demanda nesse período, significa que é para serem sacrificados em rituais.

Luiza diz que em uma das sextas-feiras 13 de 2015, uma moça pediu para adotar cinco gatos brancos. Depois de algum tempo, como de costume, dona Ana perguntou sobre os felinos e a moça não respondeu às mensagens dela. A ativista até foi atrás e a mulher disse que tinha dado para uma amiga que morava longe. “Depois de um tempo, uma conhecida confirmou que ela fazia ‘magia’ com os animais”, relembra.

Vantagens

Pela genética, os gatos pretos têm algumas qualidades. No comportamento, são mais amigáveis, sociáveis e se ambientam facilmente em lugares de muita movimentação, como nas cidades grandes. “Não se deve, claro, analisar apenas a genética. É preciso averiguar, também, como ele foi criado, como era a linhagem desses animais. Porém, eles costumam ser mais simpáticos mesmo. E, como são mais bonzinhos, viram presas fáceis de pessoas mal-intencionadas”, lamenta a veterinária Giovanna.

Outra vantagem é que a pelagem escura do bicho ajuda a protegê-lo. Os gatos com pelos brancos, por exemplo, são mais vulneráveis ao câncer de pele. Aliás, isso é um fator preocupante, já que os bichanos amam tomar um bom banho de sol. “Costumo dizer que é o pretinho básico. Todo mundo tinha que ter um”, brinca a veterinária.

Para a psicóloga clínica Laura Torquato, o primeiro passo é desmitificar o preconceito pela cor do animal. A companhia de pets é benéfica para os seres humanos. Além de lendas e mitos, o comportamento de judiá-los pela cor ou qualquer outro motivo deve ser tratado clinicamente. “Talvez seja algo lá na infância, e é preciso estabelecer conexões para esse tipo de atitude. Alguma situação com gato pode ter traumatizado na infância”, explica a psicóloga, doutora em psicologia comportamental.

Sem preconceitos

Selem é a grande paixão da universitária Ludmilla Gonçalves (foto: Reprodução Instagram)
Selem é a grande paixão da universitária Ludmilla Gonçalves (foto: Reprodução Instagram)
Salem, 3 anos, é o gato preto da estudante universitária Ludmilla Gonçalves, 24. Desde bem pequena, a jovem convive em meio aos felinos. “Amo o jeito autêntico deles, são únicos”, diz. Além de Salem, ela tem dois de pelagens diversas: Chicó e Priscila.

Ludmilla conta que o misticismo e o preconceito foram, justamente, os atrativos para que ela se interessasse mais por esses bichinhos. “Nunca os vejo diferentes por causa da cor. Mas ele é meu gatinho preto da sorte”, brinca. “Salem, por exemplo, é bem na dele, mas sempre vem pedir e dar carinho.”

A estudante nunca foi abordada sobre o fato de ter um gato preto. Mas, se vierem questioná-la, ela conta que não daria trela. “Não adianta muito bater boca. O melhor é se afastar e afastar o seu bichinho de pessoas assim.” O amor de Ludmilla não faz distinção de cor. Seus bichanos são exigentes: comem apenas ração e só bebem água se  ela estiver fresca. Já a caminha, Ludmilla desistiu de comprar, porque eles preferem caixa de papelão. “São todos castrados e criados dentro de casa. É muito perigoso deixá-los solto.”

Razão de vida

"Neguinha sempre foi calma. Mas, quando chegam estranhos em casa, ela fica na dela, sem papo%u201D (foto: Arquivo Pessoal)
Há 11 anos, a jornalista Maísa Oliveira Penetram, 23, encontrou o amor da vida: a gatinha preta vira-lata Neguinha. Quando criança, ela, que mora em apartamento, estava brincando quando soube que tinha um gatinho filhote ao redor do condomínio. Foi atrás do tal animal e, ao chegar, viu que a bichana estava toda machucada. Levou-a para casa e a escondeu em uma caixa de sapato, porque a mãe não é fã de pets e não deixaria a menina ficar com Neguinha.

Mesmo com receio da reação da mãe, Maísa acabou contando sobre a gatinha. No início, é claro, a matriarca não queria Neguinha. “Mesmo assim, insisti. Levei-a ao veterinário no dia seguinte para cuidar dos ferimentos”, relata. A mãe não pôde segurar o amor da filha pelos felinos. Maísa tem outros dois gatos: Vitória, 5 anos, e a caçula, Frida, 9 meses. “Neguinha sempre foi calma. Mas, quando chegam estranhos em casa, ela fica na dela, sem papo”, conta.

Abrigo de amor

Ana Maria, 74 anos, mais conhecida por dona Ana, começou a resgatar animais há 20 anos, quando morava em apartamento na Asa Norte. Depois, mudou-se para uma casa e, lá, botou o projeto de resgate de animais em prática. No início, recebeu ajuda de diversas protetoras e pessoas interessadas em ajudar. Porém, com o tempo, as ajudas foram diminuindo e os animais aumentando. Atualmente, há 15 cachorros e cerca de 200 gatos no abrigo, além dos que dona Ana alimenta nas ruas.
 
*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte 

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