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Correio Braziliense CAPA

Jogo de tabuleiro conquista várias gerações com diversão e interação

Em uma época em que os eletrônicos dominam o mundo, o velho e bom jogo de tabuleiro sai do universo exclusivamente geek e ganha novos adeptos


postado em 27/05/2018 07:00 / atualizado em 25/05/2018 18:45

Alguns dados, um bom grupo de amigos e muita imaginação: atenção, a partida começou! Longe de computadores e videogames, a magia se dá ali, em volta de uma mesa, com o tradicional — hoje, nem tanto — jogo de tabuleiro. Os clássicos, como War, Jogo da Vida e Banco Imobiliário, ainda fazem os jogadores virarem noites, mas há também quem se arrisque em títulos mais modernos, que se tornam atrativos por sua beleza e acabamento inovador. Gosto não é o problema. Basta selecionar tema, estratégia, quantidade de participantes e escolher entre tantas opções.

Os produtos aparecem mais aprimorados. Essa seria a razão mais evidente para o “boom” dos jogos de mesa. Os melhores jogos, agora, são sociáveis, envolventes e fáceis de aprender, mas também trabalham o cérebro, são intrigantes e difíceis de dominar. Os jogos de celular e a série Game of Thrones deram, aos poucos, permissão para que os adultos que ainda não tinham interesse se envolvessem abertamente em passatempos antes considerados muito juvenis. Assim, o boardgame, como também é conhecido, é um exemplo de hobby analógico que, longe de ser morto pela tecnologia, foi revigorado por ela.

E, mesmo que o comportamento remeta ao universo geek — ou nerd —, ele não se restringe a essa tribo. De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), 8,9% das vendas são representadas por esses produtos, o que gera um faturamento em torno R$ 600 milhões por ano. Títulos clássicos continuam conquistando novas gerações, mas os novos, cada vez mais dinâmicos, colaboram para esse retorno de interesse.

Aqui na capital, cada bar, esquina e encontro de amigos pode ganhar a companhia de um bom jogo. Os que não sabem jogar não se acanham: entre companheiros, o clima é de descontração e aprendizado. Facilmente contabiliza-se mais de cinco casas especializadas em jogos de tabuleiro por aqui. Apesar de ser um mercado ainda em crescimento, é notável o esforço dos donos para que os locais sejam cada vez mais movimentados e especiais — de bar medieval a taqueria, existem opções para todos os gostos.

Pela internet, canais no YouTube fazem apresentações e tutoriais sobre os mais diferentes títulos; blogs crescem falando sobre o tema; eventos por todo o mundo reúnem apaixonados; editoras desenvolvem novos boardgames; e nas lojas, a surpresa de vitrines cheias de jogos nunca vistos antes. Como não poderia ser diferente, apaixonados mostram, com orgulho, suas coleções e jogos favoritos. Eles garantem que o gosto passa de geração para geração e reforça diversos ensinamentos da infância.

Olho no olho 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Até para os que já conhecem a variedade e os encantos dos jogos, entrar na sala principal da Orgutal pode ser surpreendente. A casa de jogos foi a primeira de Brasília e conta com mais de 600 títulos no acervo. Lugar simples, de apenas um dono. Quando batemos na porta, lá está ele: Luiz Cláudio da Mata, o arquiteto de 34 anos, organizando algumas coisas na pequena geladeira. Apesar de nos oferecer algumas bebidas, ele confirma que esse não é o foco do local — os snacks são para os visitantes se sentirem em casa, mas a essência está nas centenas de jogos organizados pelas prateleiras.

“Tudo começou com meia dúzia de jogos”, lembra. A experiência na tentativa de abrir outros negócios e na profissão de arquiteto fez com que Luiz entendesse o que a cidade precisava, há sete anos. “Tive a ideia por conta da demanda. Meus amigos e eu tínhamos muita dificuldade em achar um lugar para jogar. Nunca fui um apaixonado, mas vi nessas pequenas peças a oportunidade de fazer algo inovador.”

Logo na abertura, para a surpresa do dono, a casa já recebeu 150 visitantes. O local, na 205 Norte, foi escolhido com carinho e planejamento: perto do centro e com a superquadra como cartão-postal. “Imaginei que quem visse fotos já saberia que estamos falando de Brasília”, explica. Em cada história e fala do arquiteto, é possível ver seu amor pela cidade e sua vontade de reconhecimento, também na área dos boardgames. “Brasília é capital de tanta coisa. Por que não dos jogos?”, imagina.

Projetando inovação

Quem visita o local se senta em volta de uma grande mesa para jogar. E o dono garante que sempre há espaço para mais um. “Eu queria colocar as pessoas em contato. Mesa no meio e olho no olho. A interação social é o que me faz estar aqui, essa questão de passar os valores. Não sirvo coisas em bons copos, não tenho as melhores comidas. Aqui, o que vale é a paixão pelos jogos”, afirma Luiz.

Paixão essa que fez com que o arquiteto aprendesse a explicar quase todos dos 600 títulos do local. Ele garante que aprender as regras de um jogo é como ler um bom livro — depois que se gosta, procura-se outras obras de um mesmo autor e, de repente, se tem inúmeras coisas de qualidade nas mãos. “Quem entende o mínimo que seja desse mundo de jogos sabe como é curioso cada regra, cada tipo, cada tema. Eles não são mais como antes. Hoje, é um hobby que exige investimento.”

Investimento que, para a empresa de Luiz, é feito apenas no Brasil. “Comprar do exterior está bem complicado, mas o bom é que não vejo tanta necessidade. O mercado daqui cresceu muito.”

Quem passa na casa durante o funcionamento sempre vai encontrar Luiz e seus monitores. A Orgutal também trabalha com a venda de alguns títulos e artigos para jogos. “Como meu foco agora são os jovens e adultos, ainda quero fazer um espaço infantil, colocar uma cozinha e acrescentar outros tipos de jogos”, planeja. Além disso, outros projetos ainda vêm por aí. “Dizem que um empresário tem que ter em mente o que ele quer para daqui a cinco, 10 anos. Eu, como urbanista, vejo uma cidade para daqui a 200 anos!” 

A vez delas

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Para quem cresceu no mundo dos videogames e dos clássicos, os jogos de tabuleiro são uma realidade um tanto comum. Foi brincando com a família que Anäis Almeida, 25, pegou gosto pela coisa. Ela conta que, nas viagens, sempre tinha algum jogo guardado na bolsa e aproveitava o tempo de espera para se entreter com os pais.

Mas foi há três anos que ela e a família sentiram que precisavam ter alguns títulos em casa. “Os jogos têm um potencial incrível de integrar, sentar próximo às pessoas, olho no olho. É um momento em que todos paramos e focamos em algo leve”, descreve.

Cerveja gelada e um bom grupo de amigos, diz ela, são a combinação perfeita para a diversão. “O jogo é que nem uma tatuagem, nunca estou satisfeita só com um. Vamos às lojas e ficamos planejando e guardando aquele dinheirinho.” A designer afirma que as mulheres têm ganhado mais espaços no mundo dos games. Ela acredita que, apesar do machismo ainda presente no meio, elas estão com força para se mostrar. 

Assim como Anäis, Mariana Dornelas, 25, se apaixona um pouquinho mais por esse mundo a cada título que joga. Como nunca gostou de lugares cheios ou festas agitadas, a veterinária viu no hobby o lazer ideal. Quando foi apresentada aos jogos de tabuleiros por amigos, há dois anos, os programas de fim de semana estavam garantidos. “Tenho 10 jogos e sempre estou pensando em comprar algo novo ou pedir de presente para alguém”, conta.

Jogando em casa ou não, segundo ela, os jogos a ensinaram a lidar com perdas e frustrações. “No início acabávamos levando mais a sério, mas acredito que, hoje, tudo é apenas diversão.”

Paixão para colecionar

Gustavo Gil com o filho Gabriel Gil(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Gustavo Gil com o filho Gabriel Gil (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Bastou o primeiro contato com os livros da saga Senhor dos Anéis, aos 11, para que Gustavo Gil, 41, passasse a carregar o título de nerd com muito orgulho. Ele brinca que o universo da fantasia é um caminho sem volta e conta que a introdução aos jogos de tabuleiro, assim como para tantas outras pessoas, começou no famoso Banco Imobiliário — na época, a variedade dos títulos ainda era bem reduzida.

“Sempre joguei com os amigos da escola, mas o meu forte era o RPG, como é até hoje.” Os boardgames modernos apareceram na vida do publicitário em 2004 — paixão também quase imediata. “Curto muito porque, além de estimular a criatividade, é uma diversão sadia entre amigos. Os jogos são caros porque o mercado está muito aquecido, mas, para quem gosta, vale a pena.”

Já com os próprios gostos desenvolvidos, Gustavo começou a comprar os jogos de tabuleiro de que mais gostava para colecionar: atualmente, são mais de 120 títulos, o que, segundo ele, é pouco perto de tantas opções existentes. Toda semana, o encontro com os amigos é programa certo. “Quarta, é dia lá em casa. Ficamos a noite toda jogando, comendo e bebendo. É religioso.”.

O colecionador explica que os boardgames atuais são muito diferentes do papelão de antigamente. “É algo que nos convida a jogar. Um hobby construtivo, em que ninguém está apostando nada. São jogos estratégicos, que estimulam nossa inteligência.” Mesmo jogando em casa, a diversão pela cidade também é uma boa aposta. “Existem muitos eventos em que podemos ver pessoas novas, novidades e estratégias que não conhecíamos antes”, comemora.

Além de acompanhar as novidades sobre o tema em feiras e no mercado internacional, Gustavo aproveita o tempo livre para compartilhar um pouco de sua paixão com o filho, Gabriel, de 9 anos. “Quero que ele perceba o valor nessas coisas, pois acho um hábito saudável. Os jogos estimulam a criatividade, a fantasia e o raciocínio lógico dentro de temas lúdicos. Melhor do que um jogo de videogame, por exemplo”, ressalta.

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