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Correio Braziliense CAPA

Elas ganharam a Copa!

Mulheres contam como foi se aventurar no Mundial da Rússia, um ambiente de predominância masculina, em um país conhecido pelo machismo


postado em 15/07/2018 07:00 / atualizado em 17/07/2018 12:16


Mariana Neme assistiu de pertinho o Brasil jogar nas quartas de final e nas oitavas(foto: Arquivo Pessoal)
Mariana Neme assistiu de pertinho o Brasil jogar nas quartas de final e nas oitavas (foto: Arquivo Pessoal)

O hexa não foi desta vez. Mas, a cada quatro anos, o brasileiro volta a acreditar nele e o futebol movimenta a vida de todos. Há, claro, os que acompanham o esporte o ano inteiro, mas só durante a Copa do Mundo tanta gente se engaja na torcida. E, se as mulheres ainda não são maioria entre os fãs da bola, aos poucos, elas estimulam umas às outras a curtirem a competição.

O ambiente do futebol ainda é bem masculino. A maioria dos comentaristas são homens, a seleção feminina é heptacampeã da Copa América, mas quase ninguém sabe ou se importa. Profissionais mulheres ligadas à modalidade têm dificuldade para trabalhar. Para completar, na Copa deste ano, que hoje chega ao fim, na Rússia, foram expostos diversos casos de assédio — cometidos por brasileiros e estrangeiros.

Mas, na contramão de tudo isso, apesar do ambiente algumas vezes hostil para o sexo feminino, muitas mulheres se organizaram para assistir ao Mundial de perto, participar da festa russa, se divertir e voltar ao Brasil sãs, salvas e cheias de histórias boas para contar. A união entre elas as mantêm seguras para experiências impensáveis.

Discrepância
Em abril deste ano, a seleção brasileira de futebol feminino tornou-se heptacampeã da Copa América, com uma campanha invicta. Com o resultado, o time garantiu uma vaga para as Olimpíadas de Tóquio, em 2020, e para a Copa do Mundo, em 2019. Mas a discrepância de valor dado às equipes femininas e masculinas não é exclusividade do Brasil. Estudo publicado pelo Sporting Intelligence mostrou que o salário pago pelo PSG a Neymar equivale ao de 1.693 jogadoras de sete ligas de destaque na modalidade — França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Suécia, Austrália e México.

A união faz a força
 
A bancária Mariana Neme, 38, ficou arrasada com a eliminação do Brasil pela Bélgica. Assistiu ao jogo de pertinho e se emocionou com a derrota. Tinha ingresso para a semifinal e acreditava que o Brasil estaria em campo, mas acabou assistindo à partida França x Bélgica. Dessa vez, levou a melhor: torceu para a França “porque o filho pediu”, e as boas vibrações fizeram efeito. Hoje, final da Copa, os franceses jogam contra os croatas.

Palmeirense na infância e são-paulina desde a adolescência, ela assistiu aos jogos do Brasil nas quartas de final e nas oitavas. Ainda participou de muita festa e conheceu diversas cidades da Rússia. “É uma energia muito boa.” Ir ao campeonato uniu duas das coisas de que Mariana mais gosta: futebol e viagem. “Eu sou mochileira. A Rússia é o 29º país que visito”, calcula.

Mas a decisão de ir não foi vista com bons olhos por todos — nem apoiada. Ela conta que muita gente lhe dizia coisas como: “Você está louca?”; “Nada a ver”; “Só pra assistir a futebol? Mulher não gosta de futebol”. “Rolava um bullying”, relembra. Independentemente do que diziam, ela foi.

“Eu sabia que teria que tomar cuidado. Mas era um ótimo momento, porque a Rússia é, em si, um país mais complicado de visitar, por causa da língua, da distância e por ser mais machista. Então, pensei: é até melhor conhecê-lo na Copa, que vai ter mais turista e o país estará mais preparado para nos receber”, ponderou.

Mariana foi com mais uma amiga, mas não se limitou a ela. Antes de embarcar, começou a visitar vários grupos nas redes sociais de brasileiros que iriam à Copa. Compostos principalmente por homens, as mulheres resolveram criar o delas, o Elas na Copa (leia box). Nas quartas de final, Mariana encontrou mais seis amigas virtuais e ficaram todas juntas. Para ela, em um grupo de mulheres, a viagem foi mais tranquila.

Em grupo

Ela reconhece que o evento é bem masculino, mas comemora uma mudança. “Nós estamos ocupando nosso espaço.” Além disso, elas se apoiaram em torcidas predominantemente masculinas para se sentirem mais seguras. “A gente fica acuada com a quantidade de homem, mas todos foram fantásticos. Fizemos uma parceria com o Movimento Verde e Amarelo e a Torcida Canarinho. Nós os encontramos aqui e foram nossos aliados. Gostaram da nossa iniciativa, porque reconhecem que é difícil pra gente.”

Mariana garante que ninguém chegou a ser desrespeitoso com elas. Pelo contrário, tanto russos quanto russas são receptivos e acolhedores. “Encontravam a gente na rua e já nos davam lembrancinhas, como botons, ímãs. No dia em que chegamos, conhecemos um casal que se prontificou a nos ajudar a chegar a Moscou, foram até a estação com a gente. Nosso queixo caiu, porque achávamos que as pessoas seriam mais frias, fechadas. Conhecemos uma família em Samara que ama o Brasil e a criança fala um monte de palavras em português e é campeã de capoeira. A dona da casa onde estávamos nos levou para jantar e não deixou a gente pagar. É uma hospitalidade incrível”, agradece. 

Dicas da Mariana
• Planeje-se: una-se a pessoas. “Não pode ser qualquer um, devem ser bacanas, que integrem, não tenham preconceito com a mulher”, afirma.
• Conheça grupos em redes sociais antes de ir. Isso ajuda muito.
• Guarde dinheiro. “É caro, mas, na hora que entra num estádio daquele e começa o hino nacional, é de tirar o coração da boca.”
• Reforce a saúde. “A gente dormia três horas por noite, porque aqui amanhece muito cedo e escurece muito tarde. A gente perde a noção da hora.”

Lugar de mulher? É no mundo!
 
(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
Viajar sozinha nunca foi um problema para ela. Para quem já se aventurou em vários locais, como Itália, Tailândia e Caribe, Rússia poderia ser apenas mais um lugar a ser visitado, porém a viagem deste ano teve um gostinho diferente. A coach Luiza Janeri, 37 anos, não apenas embarcava para conhecer o país europeu, mas estava indo torcer pela Seleção de pertinho.

E quem diria que seria o futebol a levar a coach para Moscou? Luiza confessa que nunca foi muito fã da modalidade nem acompanha os jogos dos times brasileiros, mas o Mundial no Brasil foi como uma espécie de cupido que despertou sua paixão pela bola no pé. “Em 2014, eu era do time das pessoas revoltadas com a Copa do Mundo, com o tanto de dinheiro que foi gasto. Até os jogos começarem, eu estava pensando que as coisas iam dar errado, mas eu ganhei um ingresso, fui e me apaixonei”, conta.

Isso mesmo! Bastou Luiza ficar cara a cara com os jogos no Mané Garrincha para se tornar uma torcedora de carteirinha. Porém, se o Brasil não foi palco do hexa, a Rússia poderia vir a ser o cenário perfeito. E a coach não poderia ficar fora dessa. “A experiência com a Copa do Brasil foi tão fascinante. Poder festejar com as pessoas, ter contato com outras culturas foi maravilhoso. Então, eu quis viver isso novamente. É muito mais pela experiência, pelo torcer pela Seleção do que especificamente pelo futebol”, destaca.

“Experiência de vida”

A sensação de assistir ao time de Tite de pertinho no estádio se misturou à alegria de ver os torcedores que acreditavam, de fato, no hexa. A sexta estrela, infelizmente, não veio, mas para Luiza, torcida não faltou. “Todo brasileiro que a gente encontrava era como se fosse amigo de infância, porque estava todo mundo com o mesmo ideal de conseguir trazer essa taça. Foi uma sensação indescritível”, conta.

Quanto às mulheres que ainda têm receio de encarar um estádio de futebol ou uma viagem para assistir aos jogos da Copa, Luiza afirma que sua experiência foi maravilhosa e que outras mulheres também merecem viver isso. “O lugar de vocês é no mundo. Na verdade, não só para elas, mas para todas as pessoas que queiram viajar, que queiram ver uma Copa ou uma olimpíada, tem de ir. Isso é experiência de vida, ninguém pode fazer isso por você”, aconselha.

Dicas da Luiza
• Pesquise sobre o lugar e a cultura do país.
• Conheça mais sobre o comportamento das pessoas daquele país.
• Capriche no inglês, mas também aprenda um pouco do idioma local, principalmente os cumprimentos, os números e as direções.

Olhar feminino
 
"Algumas meninas começaram a perceber que tinha muito mais homens nos grupos do que mulheres. Então criamos um só para a gente, para facilitar a comunicação e se ajudar mesmo", Lorena Neves, consultora (foto: Arquivo Pessoal)
 
Sem dúvidas, as mulheres provaram que lugar de mulher é onde elas quiserem, inclusive na Copa. Um grupo formado por 45 torcedoras não só mostrou isso como se uniu para se apoiar na aventura do Mundial. A consultora Lorena Neves, 30, é uma delas e conta que a iniciativa surgiu a partir de um grupo no WhatsApp. “Algumas meninas começaram a perceber que tinham muito mais homens nos grupos do que mulheres. Então criamos um só para a gente, para facilitar a comunicação e se ajudar mesmo”, explica.

A ideia acabou ganhando a internet e as páginas de jornais e se tornando inspiração para outras mulheres que planejavam acompanhar os jogos de perto. “Tomou uma proporção que nós nem esperávamos no começo, mas que deu muito certo. Muitos começaram a ver a gente como um canal de dúvidas e dicas”, frisa.

A consultora destaca que seguiu todos os conselhos das garotas, principalmente daquelas que foram no início, já que ela só embarcou para a Rússia na segunda fase da Copa. As dicas foram desde hospedagens e passeios e ao que fazer e o que não fazer no país europeu. 

"Algumas meninas começaram a perceber que tinham muito mais homens nos grupos do que mulheres. Então criamos um só para a gente, para facilitar a comunicação e se ajudar mesmo”
Lorena Neves, consultora 

Para nunca mais esquecer
 
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 
Maryane Machado pode até ter voltado para casa sem presenciar o hexa, mas embarcou para Brasília com muitas histórias para contar. Na bagagem, lembranças da Rússia e um carinho imenso pelos torcedores do país europeu. A funcionária pública, de 30 anos, é uma das centenas de mulheres que vestiram a camisa verde-amarela e foram ver a Seleção jogar no Mundial.

A jovem viajou com mais quatro amigas e um colega. A viagem nem precisou de muito tempo para ser planejada. Em menos de um mês, Maryane já tinha hospedagens e passagens reservadas. “Começamos a planejar após o carnaval. Já tínhamos vontade de ir, mas só depois que voltamos de Salvador resolvemos colocar no papel”, lembra.

Maryane conta que nunca tinha feito uma viagem internacional para assistir a jogos de futebol, mas, pela Seleção, ela decidiu ir além dos estádios brasileiros e dos jogos na televisão. Assim, a Rússia nem parecia mais tão longe. “É incrível torcer de pertinho, sentir a energia, cantar junto, agregar torcedores. É sensacional”, ressalta.

E o país europeu não deixou mesmo a desejar e surpreendeu a funcionária pública com uma ótima recepção, além da animação, que passou a ser regra no local. “É uma coisa surreal, fora de série. Os russos são uma gracinha, eles torciam por nós. No jogo contra o México, encontrei um garoto de 7 anos e eu lhe dei meu boné do Brasil. Ele, por sua vez, me deu uma bandeira da Rússia e a gente torceu junto”, recorda-se.

Quanto às cenas de assédio, Maryane diz que, de fato, isso era comum. Mas ela acredita que poderia acontecer em qualquer lugar, não só na Rússia e durante Copa. “O assédio é uma coisa ridícula. Quando eles veem um grupo que só tem mulher, aproveitam”, lamenta.

Porém, ela enfatiza que as mulheres não devem abandonar os estádios de futebol por isso. Maryane mostrou que elas devem se impor e não se privar de viver momentos maravilhosos, como uma Copa do Mundo. “Vão, mulheres! É maravilhoso! Sensação única”, garante.
 
 

Dicas da Maryane
• Pesquise o local para onde você vai viajar (clima, cultura, meios de transporte).
• Garanta acesso à internet. Compre um chip local para usar pacotes de dados. O Google pode tirar algumas dúvidas, além de ajudar na hora de traduzir alguma palavra.
• Use e abuse da internet. Verifique a distância entre um lugar e outro e as avaliações dos pontos turísticos. Em sites, como o TripAdvisor, viajantes dão dicas sobre segurança, se vale a pena visitar e o que levar.
• Aprenda pelo menos o básico do inglês e algumas palavras do idioma local, como “olá”, “por favor”, “farmácia” e “restaurante”.
• Baixe pelo celular algum aplicativo de mapas que funcione off-line. Assim, perdido você não fica!
• Assim que a Fifa divulgar os estádios onde ocorrerão os jogos, procure reservar as hospedagens para não ficar em um local afastado ou de difícil acesso.
 
Leia a matéria completa na edição impressa da Revista do Correio

 


 

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