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Correio Braziliense ENTREVISTA / ANGEL VIANNA

Enquanto puder, vou dançar

Um dos grandes nomes do balé, Angel Vianna encara o ofício como uma missão divina e poética


postado em 22/07/2018 08:00 / atualizado em 20/07/2018 11:11

Coreógrafa, dançarina e pesquisadora, Angel Vianna, não para de dançar. Nem mesmo aos 90 anos(foto: André Seite/Divulgação)
Coreógrafa, dançarina e pesquisadora, Angel Vianna, não para de dançar. Nem mesmo aos 90 anos (foto: André Seite/Divulgação)

 
Aos 90 anos, ela tem a energia que gente bem mais nova não tem. Bailarina, coreógrafa e professora, Angel Vianna começou a dançar aos 13 anos e, desde então, não parou mais. Assim, aprendeu a valorizar o próprio corpo e cuidar dele.

Ela continua na ativa e estará na capital na próxima semana para se apresentar no espetáculo Ferida sábia, de direção da coreógrafa AnaVitória. Importante nome da dança contemporânea no Brasil, Angel inaugurou com o marido, em 1983, o Espaço Novo — Centro de Estudos do Movimento e Artes, no Rio de Janeiro.

Em 1992, a dançarina abriu também o curso técnico em recuperação motora e terapia por intermédio da dança, terapia usada aqui em Brasília no Hospital Sarah Kubitschek. Em 2001, abriu a Faculdade Angel Vianna, com graduação em dança —  bacharelado e licenciatura.

À Revista do Correio, Angel fala sobre a relação com o corpo, sobre como a dança é importante na vida e como ela faz questão de sensibilizar os outros por meio do movimento.

O espetáculo Ferida sábia explora o universo feminino... Qual o seu papel na peça e como você se identifica com seu personagem?
O meu papel é sempre uma surpresa para mim. Faço o que me dá na telha (risos). Mudo muito o roteiro. A diretora me deu o local onde eu deveria ficar e o que eu deveria fazer, mas sigo meu sentimento. Cada um tem o seu e eu preciso trabalhar com o meu, porque ele fala do que é mais importante. É um trabalho especial, que mexe muito com a mulher. A instalação já diz o que é.

Você e seu marido criaram a dança-terapia e expressão corporal? O que é isso?
Não foi como se descobríssemos, porque tem muita gente que é terapeuta, e nós não. Na verdade, eu nunca pensei que isso seria conhecido como uma terapia. O Klauss Vianna não tinha tanto esse objetivo, mas eu, sim. Me procuraram para criar uma dança destinada a pessoas com deficiência física. É uma forma de trabalhar toda a parte técnica da dança para dar mais força ao corpo, além de cuidar da pessoa. Uma pessoa de Brasília com quem trabalhei acabou levando essa terapia para o Sarah.

Você começou a dançar balé aos 14 anos. Qual a diferença do balé que aprendeu lá atrás com o de hoje e do que você acabou desenvolvendo com sua personalidade, seus estudos e suas pesquisas? É a mesma coisa?
Existe uma técnica pronta, não é algo solto. (Estudar) Foi muito importante para mim, porque traz uma organização do corpo para efetuar uma técnica. Mas depois, desenvolvendo outras coisas, com o sentimento do próprio corpo, a gente encontra caminhos extraordinários. Hoje, acho muito importante tudo o que fiz: do balé clássico ao moderno, às aulas, aos estudos.

Você ainda dança e ainda dá aulas? Algum dos trabalhos satisfaz mais?
Aula... Eu não paro de jeito nenhum. E enquanto estiver em pé, eu continuo dançando também. O nosso corpo vai até onde consegue e eu sei que o meu corpo ainda consegue ir longe. Porque gosto do que faço. Eu sinto que dou um recado com o meu corpo e isso é muito bom. Nosso corpo é uma máquina pensante.

O que te motiva a continuar aos 90 anos?
Se, desde os primórdios, dançava-se para agradecer a Deus, à vida, é porque algo muito forte dentro da gente nos obriga. O corpo é um instrumento para viver da melhor forma.

Como é ainda ser tão ativa profissionalmente aos 90 anos?
Enquanto puder, vou trabalhar, enquanto eu sentir que meu corpo não vai falar besteira. Pode até ser uma dança mais simples. Não importa. Eu só não posso dançar à toa. Quero dar um recado através do meu corpo e dos meus sentimentos. Eu não paro de trabalhar, de trabalhar o corpo. Tenho um profissional que trabalha comigo. Ele vem duas vezes por semana, é importante fazer exercício. E ele ainda me ajuda a desvendar conhecimento sobre meu corpo.

O que você aprendeu com e sobre o seu corpo?
Quando comecei a perceber a importância do nosso corpo, resolvi dançar. Se eu tenho a chance de dançar para mostrar a importância dele, tenho que fazer. Nosso corpo é a coisa mais importante. Ele é a própria vida. O mundo está em movimento e o nosso corpo precisa estar também. Se perdemos o movimento, se paramos, o corpo definha e nós o perdemos. A minha percepção do corpo é que ele para na hora certa.

Serviço

Com direção de AnaVitória, a peça aborda o universo feminino a partir da menstruação. As intérpretes — de idades que variam dos 38 anos aos 90, como é o caso de Angel — se apresentam em uma instalação toda em tons vermelhos e composta por lã, por objetos em forma de óvulos, por bacias esmaltadas com líquido vermelho. As bailarinas colocam seus corpos e suas vivências a serviço do diálogo poético em torno dos mitos e tabus femininos: provocando nossa reflexão crítica acerca da ancestralidade, puberdade, maternidade, aborto, menopausa e ritos de passagem.

Ferida Sábia

Local: Caixa Cultural Brasília
Dias: 27, 28 e 29 de julho
Sexta, às 20h; sábado, às 18h e às 20h; domingo às 20h.
Classificação indicativa: livre
Entrada franca limitada à lotação do teatro
Retirada de ingressos uma hora antes do espetáculo

Oficina com Angel Vianna e AnaVitória 

Dia 29 às 15h
Inscrições pelo e-mail: oficinaferidasabia@gmail.com

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